Foto: Sasha Freemind/Unsplash

Homem sozinho no museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. A noção contemporânea de solidão é uma construção cultural recente
Homem sozinho no museu Hermitage, em São Petersburgo, na Rússia. A noção contemporânea de solidão é uma construção cultural recente
 

“Mas Deus, a vida é solidão”, declarou a escritora Sylvia Plath em seu diário pessoal. Apesar de todos os gracejos e sorrisos que trocamos, ela diz, apesar de todos os opiáceos que ingerimos: quando finalmente você encontra alguém para quem sente que pode extravasar a alma, fica paralisado, em choque diante das palavras que profere – tão enferrujadas, tão feias, tão sem sentido e débeis por terem ficado tanto tempo dentro de você, no escuro pequeno e apertado.

No século 21, a solidão está por toda parte. Comentaristas a chamam de “uma epidemia”, uma condição semelhante à “lepra”, uma “praga silenciosa” da civilização. Em 2018, o Reino Unido chegou ao ponto de indicar um Ministro da Solidão. Entretanto, a solidão não é uma condição universal; tampouco é uma experiência puramente visceral, interna. É menos uma emoção simples e mais um aglomerado complexo de sentimentos, composto de raiva, sofrimento, medo, ansiedade, tristeza e vergonha. Também tem dimensões sociais e políticas, mudando através do tempo de acordo com ideias sobre o eu, Deus e o mundo natural. A solidão, em outras palavras, tem uma história.

O termo “solidão” primeiro apareceu em inglês por volta de 1800. Antes disso, a palavra mais próxima era “oneliness”, simplesmente o estado de estar sozinho. Sobre a reclusão, ou “solitude”, em inglês – do latino “solus”, que significa “sozinho” – “oneliness” não vinha matizado de qualquer sugestão de carência emocional. Reclusão ou “oneliness” não eram insalubres ou indesejáveis, mas sim um espaço necessário para a reflexão com Deus ou com os pensamentos mais profundos de uma pessoa. Uma vez que Deus estava sempre por perto, uma pessoa nunca estava verdadeiramente sozinha. Avance um ou dois séculos na frente, entretanto, e o uso de “solidão” – sobrecarregado de associações de vazio e ausência de conexão social – superou “oneliness” de forma efetiva. O que aconteceu?

Por séculos, autores têm reconhecido a relação entre saúde mental e pertencimento a uma comunidade

A noção contemporânea de solidão vem de transformações culturais e econômicas que aconteceram no Ocidente moderno. Industrialização e crescimento da economia de consumo, o declínio da influência da religião e a popularidade da biologia evolutiva serviram todas para enfatizar que o que importava era o indivíduo – não visões tradicionais, paternalistas, de uma sociedade em que todo mundo tinha um lugar.

No século 19, filósofos políticos usaram as teorias de Charles Darwin sobre “a sobrevivência do mais apto” para justificar aos vitorianos a busca por riqueza individual. A medicina científica, com sua ênfase em emoções e experiências centradas no cérebro, e a classificação do corpo em estados “normais” e anormais, destacou essa mudança. Os quatro humores (colérico, melancólico, sanguíneo, fleumático) que dominaram a medicina ocidental por 2.000 anos e colocaram as pessoas em “tipos” deu lugar a um novo modelo de saúde dependente do corpo físico e individual.

No século 20, as novas ciências da mente – especialmente a psiquiatria e a psicologia – se tornaram protagonistas na definição das emoções saudáveis e insalubres que um indivíduo deveria sentir. Carl Jung foi o primeiro a identificar personalidades “introvertidas” e “extrovertidas” em seu “Tipos psicológicos” (1921). A introversão passou a ser associada à neurose e à solidão enquanto a extroversão foi ligada à sociabilidade, gregarismo e autoconfiança. Nos Estados Unidos, essas ideias ganharam significado especial ao serem relacionadas a qualidades individuais associadas à melhoria pessoal, independência e ao espírito ambicioso do sonho americano.

As associações negativas de introversão ajudam a explicar porque a solidão carrega hoje tal estigma social. Pessoas sós raramente querem admitir que estão sozinhas. Ao passo que a solidão gera empatia, pessoas solitárias também são objeto de desprezo; aqueles com fortes redes sociais frequentemente evitam os solitários. É quase como se a solidão fosse contagiosa, como as doenças com as quais ela é agora comparada. Quando usamos a linguagem de uma epidemia moderna, contribuímos para um pânico moral sobre a solidão que pode agravar o problema subjacente. Pressupor que a solidão é uma aflição disseminada mas fundamentalmente individual fará com que ela seja quase impossível de abordar.

Por séculos, autores têm reconhecido a relação entre saúde mental e pertencimento a uma comunidade. Servir a sociedade era uma outra maneira de servir ao indivíduo – porque, como colocou o poeta Alexander Pope em seu poema “Um ensaio sobre o homem” (1734): “Amor próprio verdadeiro e o social são o mesmo”. Não surpreende, então, a descoberta de que a solidão serve a uma função fisiológica e social, como argumentou o falecido neurocientista John Cacioppo: como a fome, ela sinaliza uma ameaça ao nosso bem-estar, surgida da exclusão de nosso grupo ou tribo.

Em espírito similar, o poeta John Donne escreveu em “Devoções para ocasiões emergentes” (1624) que “Nenhum homem é uma ilha”  – tampouco nenhuma mulher, pois cada um formava “um pedaço do continente, uma parte do principal”. Se um “torrão for levado embora pelo mar, a Europa é menos… a morte de qualquer homem me diminui porque estou envolvido na humanidade”. Para alguns de nós, as observações de Donne adquirem uma pungência especial à luz da saída do Reino Unido da Europa, ou o narcisismo da presidência americana de Donald Trump. Elas também nos conduzem a metáforas médicas: as referências de Donne ao corpo político sendo destruído são reminiscentes da solidão moderna enquanto aflição física, uma praga da modernidade.

Precisamos com urgência de uma análise mais nuançada de quem está sozinho, quando e por quê. A solidão é lamentada por políticos porque ela é cara, especialmente para uma população que fica mais velha. As pessoas que estão sozinhas têm mais chances de desenvolver doenças como câncer, problemas do coração e depressão, e têm 50% mais chances de morrer prematuramente do que seus contemporâneos não-solitários. Mas não existe nada inevitável quanto a se estar velho e sozinho – mesmo no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde, diferentemente de boa parte da Europa, não há uma história de cuidados inter-familiares dos mais velhos. Solidão e individualismo econômico estão conectados.

Até a década de 1830 no Reino Unido, as pessoas mais velhas eram cuidadas por seus vizinhos, amigos e família, assim como pela paróquia. Mas então o Parlamento aprovou a “Nova Lei dos Pobres”, uma reforma que aboliu o auxílio financeiro para as pessoas, exceto os idosos e os enfermos, restringindo essa ajuda às pessoas das “workhouses” (casas onde pessoas muito pobres moravam e trabalhavam), e considerou o auxílio à pobreza como empréstimos administrados por meio de um processo burocrático e impessoal. O crescimento da vida urbana e a ruptura das comunidades locais, assim como o agrupamento dos necessitados em prédios específicos, produziu mais pessoas idosas e isoladas. É provável que, dadas as suas histórias, países individualistas (incluindo Reino Unido, África do Sul, Estados Unidos, Alemanha e Austrália) possam sentir a solidão de uma maneira diferente em comparação a países coletivistas (como Japão, China, Coreia, Guatemala, Argentina e Brasil). A solidão, então, é sentida de maneira diferente conforme o lugar, assim como o tempo.

Nada disso tem o propósito de tratar de modo sentimental a vida comunitária ou sugerir que não existia isolamento social antes do período vitoriano. Em vez disso, meu argumento é de que emoções humanas são inseparáveis de seus contextos sociais, econômicos e ideológicos. A raiva virtuosa dos afrontados moralmente, por exemplo, seria impossível sem uma crença em certo e errado, e responsabilidade pessoal. Da mesma maneira, a solidão pode existir apenas em um mundo onde o indivíduo é concebido como uma forma separada do tecido social, em vez de parte dele. Está claro que a ascensão do individualismo corroeu os laços sociais e comunitários e conduziu à linguagem de solidão que não existia antes de cerca de 1800.

Se antes os filósofos perguntavam o que era preciso para se viver uma vida com significado, o foco cultural migrou para questões a respeito de escolha individual, desejo e conquista. Não é coincidência que o termo “individualismo” foi primeiramente usado (e era um termo pejorativo) na década de 1830, na mesma época em que a solidão crescia. Se a solidão é uma epidemia moderna então as causas também são modernas – e uma consciência de sua história pode bem ser o que nos salve.

Fay Bound Alberti é escritora, historiadora e consultora. Ela é cofundadora do Centro para a História de Emoções na Universidade Queen Mary, em Londres, onde permanece como membro e pesquisadora sênior honorária em História. Seus livros incluem “This mortal coil” (2016) e “A biography of loneliness” (previsto para 2019). Ela mora em Londres.

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