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Adolescentes
Psicólogos modernos definiram a adolescência como uma fase durante a qual uma pessoa se prepara para a vida adulta enquanto permanece legalmente como criança
 

Atos cometidos por Brett Kavanaugh, indicado pelo presidente Donald Trump à Suprema Corte dos Estados Unidos, quando tinha 17 e 18 anos estão no centro de uma tempestade pública no país.

“Me perturba muito a desculpa dada por muitos de que este foi um incidente de colégio, e que ‘é coisa de garoto’”, afirmou o senador Chris Coons no depoimento de Christine Blasey Ford à Comissão de Justiça do senado americano em 27 de setembro.

Mas representantes de Trump, como Kellyanne Conway, menosprezaram as ações de Kavanaugh como sendo apenas as de um “adolescente”. O adulto Kavanaugh não pode ser responsabilizado, segundo tal lógica, por estas supostas indiscrições juvenis.

O que exatamente queremos dizer com comportamento adolescente? E quem tem permissão para ser este tipo de adolescente? Nos Estados Unidos, os anos adolescentes são frequentemente tidos como uma época de experimentação, riscos e rebeldia. Mas essa noção de adolescência como uma fase de comportamento irresponsável é uma invenção relativamente nova.

A ideia de adolescência: uma história

Foi apenas na primeira década do século 20 que psicólogos americanos lançaram a ideia de uma fase da vida distinta chamada adolescência e começaram a tratar esses anos como uma extensão da infância.

O termo “adolescência” – que tem origem na palavra latina para juventude, “adulescence” – circula em inglês desde a Idade Média, mas psicólogos modernos a definiram como uma fase cronologicamente específica durante a qual uma pessoa se prepara para a vida adulta enquanto permanece legalmente como criança. E, como mostra minha pesquisa, a ideia de adolescência dos psicólogos americanos levou tempo para criar raízes e viajou lentamente para outras partes do mundo, chegando a encontrar resistência como a Índia.

Nos EUA, a educação compulsória e as salas de aula baseadas em idade criadas nos anos 1870 formaram as bases para se imaginar os anos adolescentes como uma fase a ser protegida. Por volta dos anos 1910, educadores americanos chegaram a um consenso de que o ensino médio compulsório deveria se estender até os 18 anos de idade. Até então, esperava-se que a maior parte dos homens e mulheres com menos de 18 iria trabalhar, se casar e até ter filhos. O que de fato acontecia.

Muitas destas antigas descrições da adolescência foram escritas para e sobre meninos da mesma origem social do autor – de cor branca e de classe média

A explicação mais vigorosa da adolescência como uma fase distinta apareceu no trabalho de G. Stanley Hall, fundador da [publicação acadêmica] American Journal of Psychology e o primeiro presidente da Associação de Psicologia Americana. Seu livro de 1904, “Adolescence”, descrevia uma fase que se estendia entre as idades de 12 e 18, e que incluía engrossamento da voz e surgimento de pelos faciais nos meninos e o primeiro período menstrual e desenvolvimento dos seios nas meninas – além da maturação emocional que se seguia a esses desenvolvimentos físicos.

Enquanto o fim da infância havia sido marcado em muitas culturas com ritos de passagem na puberdade – tais como o bar mitzvah e a quinceanera [celebração dos 15 anos na cultura latino-americana] – ele propôs que a transição emocional na verdade durava mais tempo e terminava mais tarde.

Rebeldia

Hall descreveu a adolescência como um período de rebeldia e individualismo. A rebeldia, ele acreditava, era uma exigência de desenvolvimento para o total florescimento da individualidade. Ele também expressou ansiedade sobre como administrar os impulsos sexuais dos garotos durante os anos adolescentes, dedicando um capítulo inteiro aos “perigos” do desenvolvimento sexual. Mais do que qualquer outro psicólogo, Hall contribuiu para o entendimento da adolescência como um tempo de acentuada tempestuosidade, estresse e turbulência emocional. A constelação de características escolhida por ele – rebeldia, turbulência emocional, inconsequência sexual – se tornou o mapa para analisar e avaliar os problemas de pessoas jovens.

Mas eis a pegadinha. Muitas destas antigas descrições da adolescência foram escritas para e sobre meninos da mesma origem social do autor – de cor branca e de classe média. Eram principalmente meninos assim que podiam aproveitar uma infância estendida caracterizada por experimentações sociais e sexuais. Esperava-se de meninos mais pobres e da maior parte dos meninos negros que ficassem adultos mais cedo, entrando no mercado de trabalho manual e assumindo responsabilidades na adolescência. Uma preparação prolongada para a vida adulta só estava mesmo disponível para aqueles com os meios econômicos.

Dois pesos, duas medidas

Um caso similar de parâmetros diferentes se percebe hoje na maneira como os apoiadores de Kavanaugh lhe conferem margem de manobra. Relatos solidários contextualizam o comportamento de Kavanaugh como parte de uma cultura de meninos típica das instituições de elite onde ele estudou, apenas “brincadeiras de mão”. Esta reação é parte de uma tendência social de enxergar as ações de garotos brancos ricos como travessuras inocentes em vez de perigosas. Garotos negros, por outro lado, são rotineiramente submetidos à “adultização”, na definição da historiadora Ann Ferguson – a atribuição de motivações e habilidades adultas a eles. Não precisamos ir longe para encontrar exemplos contemporâneos: Trayvon Martin, 17 anos, foi seguido e morto por um vizinho vigilante que suspeitou que ele fosse uma ameaça. Mesmo Tamir Rice, de 12 anos, foi morto porque policiais pensaram que ele era um perigo. E meninos negros de 17 anos são regularmente julgados como adultos e enviados para a prisão.

E as meninas adolescentes?

Expectativas de comportamento adolescente também são profundamente ligadas a gênero nos Estados Unidos.

Historicamente, o comportamento inocentemente transgressor é a prerrogativa de garotos adolescentes e não de garotas. A rebeldia era desaprovada quando expressa por meninas – brancas ou negras. A historiadora Crista DeLuzio chega a ponto de descrever boa parte dos trabalhos pioneiros sobre a adolescência como “meninologia”. Nos trabalhos dos psicólogos simplesmente não se imaginava que as meninas tinham o mesmo direito à experimentação e ao comportamento de risco inocente.

Estas duas medidas continuam a permear a cultura americana. Existe um exemplo revelador importante do contexto universitário americano: as irmandades, diferentemente das fraternidades, têm em comum um banimento do álcool, estabelecido pela Conferência Nacional Pan-Helênica [entidade que reúne 26 irmandades femininas nos EUA e Canadá].

Os supostos atos de Kavanaugh enquanto adolescente alcoolizado não mancharam sua reputação como juiz para muitos na direita política. Mas Christine Blasey Ford e Deborah Ramirez foram ridicularizadas por Donald Trump como não sendo confiáveis porque possivelmente estavam bêbadas aos 15 e 18 anos. As próprias visões de Kavanaugh a respeito da responsabilidade de meninas adolescentes são reveladoras: em uma decisão controversa tomada como juiz federal, ele pediu pelo adiamento do acesso ao aborto de uma menina sem documentos de 17 anos que estava grávida. Embora tenha dito que foi porque ela era uma menor e precisava de aprovação dos pais, sua demora poderia ter forçado a menina de 17 anos a se tornar mãe – uma consequência da vida adulta.

Expectativas sociais

Humanos na puberdade certamente vivem mudanças endócrinas e crescimento neural. Mas são nossas expectativas sociais de comportamento que permitem – e, de fato, suscitam – tipos específicos de atos, tais como indisciplina embriagada. Como nota o psicólogo Jeffrey Arnett, as ideias de Hall sobre a tempestade e o estresse adolescente foram largamente repudiadas pelas gerações subsequentes de psicólogos, mesmo que algumas das mudanças psicológicas que ele registrou ainda sejam consideradas corretas. E Crista DeLuzio nota que, no século 17, a juventude era vivida como um período de “relativa tranquilidade” na cultura puritana da Nova Inglaterra, em contraste com a Europa na mesma época. Rebeldia juvenil disseminada, ela argumenta, se relacionava de maneira mais geral com a instabilidade social.

Em última instância, não há, necessariamente, nenhuma razão fisiológica para defender que comportamentos rebeldes ou indisciplinados têm de acompanhar as mudanças endócrinas dos anos adolescentes. Nossas expectativas desiguais a respeito do comportamento adolescente – tolerando ações de garotos brancos ricos mas não as de meninas ou de outros meninos – dizem mais, então, sobre nós do que sobre os próprios adolescentes.

Ashwini Tambe é diretora editorial da publicação acadêmica “Feminist Studies” e professora associada do Departamento de Estudos da Mulher da Universidade de Maryland

The Conversation