Foto: Avel Chuklanov/Unsplash

Locais e turistas partilham refeição nas Filipinas
Locais e turistas partilham refeição nas Filipinas
 

Pais costumam dizer que não se importam com o que seus filhos fazem na vida, contanto que sejam felizes. A felicidade e o prazer são quase universalmente vistos como os mais preciosos bens humanos; apenas o mais rabugento dos seres questionaria se o prazer benigno é uma coisa boa. O desacordo logo se infiltra, no entanto, se você perguntar se algumas formas de prazer são melhores que outras. Importa se nossos prazeres são espirituais ou carnais, intelectuais ou estúpidos? Ou todos os prazeres são praticamente os mesmos?

O utilitarismo, como uma filosofia moral, coloca o prazer no centro das atenções, argumentando que as ações seriam boas na medida em que aumentam a felicidade e reduzem o sofrimento, e seriam más se provocassem o contrário. Ainda assim, os primeiros utilitaristas não entravam em acordo se os tipos de prazer tinham de ser ranqueados. Jeremy Bentham acreditava que todas as fontes de prazer têm igual importância. “Preconceitos à parte”, escreveu em “The Rationale of Reward” (1825), “o jogo de push-pin [brincadeira infantil comum na Inglaterra entre os séculos 16 e 19] tem valor igual ao das artes e ciências da música e da poesia”. Seu discípulo John Stuart Mill discordava dele, afirmando na obra “Utilitarismo” (1863) que “é melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco satisfeito; melhor ser Sócrates insatisfeito que um tolo satisfeito”.

Mill estabelecia uma distinção entre prazeres “superiores” e inferiores. É uma diferenciação difícil de cravar, mas acompanha mais ou menos a distinção entre capacidades consideradas exclusivas dos seres humanos e aquelas que compartilhamos com outros animais. Prazeres mais elevados dependem de capacidades distintamente humanas, que têm um elemento cognitivo mais complexo, exigindo habilidades como pensamento racional, autoconsciência ou uso da linguagem. Prazeres inferiores, por contraste, exigem mera senciência. Humanos e outros animais gostam de se aquecer ao sol, comer algo saboroso ou fazer sexo. Apenas os humanos se envolvem em arte, filosofia e assim por diante.

Mill certamente não foi o primeiro a propor esta diferenciação. Aristóteles, entre outros, acreditava que os sentidos do tato e do paladar eram “servis e embrutecedores”; os prazeres do comer eram “como os brutos também compartilham” e bem menos valiosos que aqueles que dependem de uma mente humana mais desenvolvida. No entanto, muitos continuariam ao lado de Bentham, afirmando que, na verdade, não somos tão intelectuais ou elevados assim, e que também podemos nos aceitar enquanto brutos que somos, moldados pela bioquímica e pelos impulsos animais.

A dificuldade em resolver essa discordância sobre os tipos de prazer não significa que a gente reluta em aceitar a resposta correta. É que estamos fazendo a pergunta errada. Todo o debate pressupõe uma divisão clara entre o intelectual e o corpóreo, entre o humano e o animal, algo que não é mais defensável. Hoje em dia, poucos de nós somos dualistas de carteirinha que acreditam que somos feitos de mentes imateriais e corpos materiais. Temos evidência científica suficiente da importância da bioquímica e dos hormônios em tudo que fazemos e pensamos. Não obstante, suposições dualistas ainda moldam nosso pensamento. Então, o que acontece se levarmos a sério a ideia de que o físico e o mental são inseparáveis, que somos seres plenamente incorporados? O que significaria esse fato para nossas ideias sobre prazer?

A mesa do jantar é um bom lugar para começar. Junto com o sexo, comida é considerada o prazer inferior quintessencial. Todos os animais se alimentam, usando os sentidos do olfato e do paladar. Não requer nenhuma cognição complexa para concluir que algo é delicioso. Filósofos geralmente assumem que sentir prazer em comer é saciar um desejo primitivo. Então, por exemplo, Platão acreditava que cozinhar nunca poderia ser considerado uma forma de arte, porque “nunca considera nem a natureza nem a razão desse prazer ao qual se dedica, mas se encaminha direto ao seu fim”.

Platão e seus sucessores, entretanto, falharam em dar crédito a algo que o escritor Jean Anthelme Brillat-Savarin capturou de forma concisa em “A fisiologia do gosto” (1825): “animais se alimentam; o homem come; só o homem de espírito sabe comer”. Brillat-Savarin criou uma distinção entre a mera alimentação animal, que é a ingestão de comida como combustível, e o ato humano de comer, que pode e deve envolver mais do que um desejo carnal básico. Comer é um ato complexo. Juntar ingredientes simplesmente exige raciocínio, já que o que compramos exige não só planejamento mas afeta o bem-estar de criadores, produtores, animais e o planeta. Cozinhar envolve o conhecimento de ingredientes, a aplicação de talentos, o balanço de diferentes sabores e texturas, considerações sobre nutrição, atenção ao ordenamento das refeições ou ao lugar de uma comida no ritmo do dia. Comer, no seu melhor, reúne todas essas coisas, acrescentando uma apreciação estética sobre o resultado final.

Comer ilustra como a diferença entre prazeres superiores e inferiores não está ligada ao que se gosta, mas como você gosta. Lançar-se à comida como um porco em um cocho é um tipo de prazer inferior. Preparar o alimento e comê-lo usando o poder da reflexão e atenção que só um ser humano possui torna-se um prazer superior. Essa forma de prazer superior não precisa ser intelectual, no sentido acadêmico. Um chef talentoso pode julgar o equilíbrio de sabores e texturas de forma intuitiva; um cozinheiro amador pode pensar sobre do que seus convidados certamente irão gostar. O que torna um prazer superior é o fato de que ele envolve habilidades humanas mais complexas. Ele expressa mais do que um desejo bruto de satisfazer uma vontade.

Para todo tipo de prazer, não deve ser difícil notar que o como é mais importante que o quê. Além disso, os prazeres mais elevados não usam a esmo nossas capacidades humanas distintivas, mas os usam para um fim valioso. Alguém que vai à ópera para ser vista com um novo vestido não está experimentando os prazeres elevados da música, mas satisfazendo os prazeres inferiores da vaidade. Alguém que lê Dr. Seuss com um ouvido atento à linguagem tem prazer maior do que aquele que recita mecanicamente o texto de “A Terra Árida”, sem ter qualquer conhecimento do que de T.S. Eliot estava fazendo.

Mesmo o sexo, talvez o prazer humano mais primal, pode ser apreciado de formas elevadas e outras nem tanto. Para adaptar Brillat-Savarin, animais copulam, humanos fazem amor. Na intensidade da excitação sexual e no orgasmo, pode não parecer que nossas capacidades humanas evoluídas estejam cumprindo seu papel. Mas sexo é altamente contextual, e muda de figura dependendo se é parte integrante de um relacionamento entre dois seres humanos, por mais breve que seja, ou se é a mera satisfação de um impulso brutal.

Mill estava certo, portanto, em acreditar que prazeres vêm em formas superiores e inferiores, mas errado em acreditar que podemos distingui-los com base naquilo em que sentimos prazer. O importante é como os apreciamos, o que significa que prazeres superiores ou inferiores não são categorias distintas, mas formam um contínuo. Penso que a persistência dessa falsa distinção entre prazeres superiores/inferiores decorre do fato de que algumas coisas são mais passíveis de apreciação elevada do que outras. A arte é tipicamente apreciada de maneiras que envolvem a mente, comida muitas vezes é consumida de forma animalesca. Isso nos levou a confundir associação com identidade.

O erro também trai uma visão falsa da natureza humana, que enxerga nossos aspectos intelectuais ou espirituais como atributos que verdadeiramente nos tornam humanos, e nossos corpos como veículos embaraçosos para carregá-los. Quando aprendemos a ter prazer nas coisas corporais de maneiras que envolvem nossos corações e mentes, assim como nossos cinco sentidos, desistimos da ilusão de que somos almas presas em bobinas mortais e aprendemos a ser totalmente humanos. Nós não somos nem anjos acima dos prazeres do corpo nem bestas grosseiras seguindo-os servilmente, mas todos psicossomáticos que trazem coração, mente, corpo e alma para tudo o que fazemos.

Julian Baggini é escritor e filósofo. Deve lançar “How the world thinks: a global history of philosophy” (Como o mundo pensa: uma história global da filosofia, em tradução livre) em outubro de 2018.