Foto: FMSC/Creative Commons

Crianças africanas alimentadas pela ONG Feed My Starving Children
Crianças africanas alimentadas pela ONG Feed My Starving Children

Em uma série de fotos desconcertantes, crianças indianas pobres foram colocadas para posar em frente a mesas elegantes, cobertas de comida de mentira. Um fotógrafo italiano premiado, Alessio Mamo, fez os cliques em 2011, como parte de um projeto chamado “Dreaming Food” (sonhando com comida, em tradução livre). Depois que a World Press Photo Foundation compartilhou as fotos no Instagram, uma amarga controvérsia disseminou-se. Muitos as consideraram antiéticas e ofensivas.

Em seu pedido de desculpas, Mamo descreveu seu desejo de falar sobre o “desperdício de comida, de uma forma provocadora”, a uma audiência ocidental.

Apesar desses riscos, como especialista em direito público, estou ciente de que imagens de sofrimento fazem parte das campanhas em defesa dos direitos humanos. E a liberdade de expressão, incluindo a de representação visual, é protegida por um tratado da ONU e em muitas constituições de países.

Ao mesmo tempo, entretanto, defendo limitações éticas sobre o direito de tirar essas fotos.

Questões morais

A controvérsia a respeito da tal “pornografia da pobreza” das imagens de Mamo não é inédita. Essas questões já foram levantadas antes, em outras ocasiões.

Um desses casos é a foto em preto e branco de Florence Owens Thompson, que se tornou a imagem icônica da “Migrant Mother” (mãe imigrante) durante a Depressão [após a crise de 1929].  A fotógrafa Dorothea Lange fez o registro para a Administração do Reassentamento, uma agência federal do New Deal americano encarregada de ajudar as famílias pobres a se mudar. Mostrou Thompson, com seus filhos, vivendo na pobreza.

A família sobrevivia às custas de vegetais congelados e pássaros que caçavam. A imagem pretendia construir apoio a políticas de bem-estar social.  

A foto levantou algumas questões morais.

Ao passo que Lange ganhou fama, ninguém sabia o nome da mulher retratada. Foi só décadas depois que Thompson foi localizada e concordou em contar sua história. Como se sabe, Thompson não ganhou nada com “Migrant Mother” e continuou trabalhando duro para sustentar a família. Como ela disse depois, “Não ganhei nada com isso. Queria que ela não tivesse tirado uma foto minha… Ela não perguntou meu nome. Disse que não venderia as fotos. Que me mandaria uma cópia. Ela nunca enviou”.

Thompson sentiu-se “amargurada, brava e alienada”, a respeito da “comoditização” de sua imagem, escreveram os acadêmicos Robert Hariman e John Louis Lucaites, em um estudo sobre imagens impactantes.

Thompson foi a garota propaganda da Depressão, e ela se orgulhou de ter sido. Sua foto beneficiou muita gente. Mas, como ela perguntou a um repórter, “que bem que isso me fez?”

Qual é a função de um fotógrafo?

Outro exemplo notável é uma foto de 1993, clicada pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter, de uma menina sudanesa com um abutre empoleirado próximo a ela. A icônica imagem chamou a atenção do público, por trazer o foco para o sofrimento das crianças em época de fome.

Diferentemente de outras imagens que costumam mostrar crianças com “moscas ao redor dos olhos”, essa destacou o dilema de uma vítima vulnerável da fome, rastejando em direção a um posto de comida em Ayod, no Sudão do Sul.

A imagem rendeu a Carter um prêmio Pulitzer em 1994, mas também desencadeou uma avalanche de críticas. Apesar de Carter ter assustado o abutre para longe, ele não carregou a menina ao posto de comida mais próximo. O destino dela permanece desconhecido.

Em uma resenha crítica sobre a imagem, os especialistas Arthur e Ruth Kleinman perguntaram: por que o fotógrafo permitiu que a ave predatória se aproximasse tanto da criança? Por que não há parentes da menina por perto? E o que ele fez depois de tirar a foto?

Eles também passaram a dizer que o prêmio Pulitzer foi conquistado “às custas da miséria (e provável morte) de uma menininha sem nome”. Outros chamaram Carter de “predador, tanto quanto o abutre”.

Dois meses depois de receber o Pulitzer, em julho de 1994, Carter tirou a própria vida. Além de circunstâncias pessoais difíceis, seu bilhete de suicídio revelou que ele era assombrado pelas memórias vívidas do sofrimento que testemunhou.

Imagens para caridade

É certo que a fome, a pobreza e desastres precisam de atenção e de ação. O desafio dos jornalistas, como nota o acadêmico David Campbell, é mobilizar a reação pública antes que seja tarde demais.

Essas catástrofes requerem intervenção imediata do governo e de órgãos assistenciais, por meio do que Thomas Keenan e outros especialistas em direitos humanos chamam de “vergonha mobilizadora” –  um modo de fazer pressão para que os Estados ajam e resgatem quem vive em circunstâncias extremas.   

Um esforço como esse é mais eficaz se imagens forem usadas. Como observam Rakiya Omar e Alex de Waal, codiretores de uma nova organização de direitos humanos em Londres, a African Rights:

“A desculpa mais respeitável para mostrar, de forma seletiva, imagens de fome, é que essa ação é necessária para provocar nossa compaixão”

A verdade é que essas imagens impactam, sim. Quando o fotógrafo americano James Nachtwey tirou fotos na Somália, o mundo se condoeu. A Cruz Vermelha afirmou que a mobilização pública resultou na sua maior operação desde a Segunda Guerra Mundial. Ocorreu algo parecido com a imagem feita por Carter, que ajudou a estimular a ajuda ao Sudão.

Apesar disso, como argumenta Campbell, a cobertura da mídia pode reforçar estereótipos negativos por meio de uma iconografia da fome ou imagens daqueles que passam fome em lugares “remotos” como a África. Seu argumento é que indivíduos continuam a mostrar as pessoas de um “modo ideologicamente ocidental”, como chamado pelos Kleinmans.

Nesse enquadramento, as pessoas são mostradas sem contexto, em geral sozinhas, e sem a capacidade de agir de forma independente.

Mudando representações

Maior consciência sobre o poder das imagens em diferentes contextos tem exercido pressão em ONGs e jornalistas para passarem de uma “agenda de piedade” para uma “agenda de dignidade”.

Em 2010, a Anistia Internacional publicou suas diretrizes para uso de fotos, a respeito de regras para imagens que mostram sofrimento. A  Save the Children também elaborou um manual depois de desenvolver uma pesquisa sobre ética da imagem em várias partes do mundo.

Entre as regras explícitas estão evitar nudez, consultar os sujeitos sobre como eles acham que a narrativa deve ser apresentada visualmente, e evitar fotos posadas. Uma grande preocupação é o quanto, algumas vezes, os temas e a cena podem ter sido manipuladas para compor uma imagem.

Isso reflete um desejo de mostrar maior sensibilidade ao status precário de alguns temas em fotografias.

Mas é mais fácil falar do que fazer. Reconhecer que a interpretação voyeurística do sofrimento afastado de nós é ofensivo não significa necessariamente que a prática cessará. Em última análise, o verdadeiro desafio é que imagens eticamente problemáticas que apresentam ao mundo vítimas em estado deplorável são com frequência as que mais capturam a atenção do público.

Finalmente, muito repousa sobre os padrões éticos estritos que os fotógrafos definem para si mesmos. O que eles precisam lembrar é que, muitas vezes, boas intenções não justificam o uso de imagens questionáveis ​​de sofrimento.

Alison Dundes Renteln é professora de ciência política, antropologia, política pública e lei na Universidade do Sul da Califórnia, no Dornsife College of Letters, Arts and Sciences.

The Conversation