Rita Levi-Montalcini (1909-2012) cresceu em Turim, cidade a duas horas de carro de Bérgamo, na Itália.

Embora nunca tenhamos nos encontrado, minha formação inicial em patologia cerebral (ela foi neurobióloga do desenvolvimento) e o fato de ela ter sido uma proeminente defensora pública da ciência (e apoiadora do BergamoScienza) significam que eu estava bem ciente de sua existência.

Levi-Montalcini foi co-receptora (com Stanley Cohen, da Universidade Vanderbilt) do Nobel de Fisiologia ou Medicina, em 1986, e também foi designada senadora vitalícia pelo presidente da Itália (desde 2001) no Senado do Parlamento da República Italiana.

Não há dúvida de que Levi-Montalcini se pronunciou fortemente em defesa de olhar para as políticas públicas pelo prisma da evidência real – embora, como qualquer cientista que lide diretamente com políticos, deva ter havido um alto nível de incompreensão mútua.

Apesar disso, dado que muitas das profundas mudanças em nosso mundo são impulsionadas pela ciência e pela tecnologia, juntamente com os desafios éticos que um novo conhecimento suscita, tanto na política quanto na lei, encontrar algum modo de introduzir pelo menos uma pequena medida de compreensão científica no âmbito da política parece uma ideia razoável. 

Pelo menos até recentemente, a Grã-Bretanha nomeou importantes cientistas (incluindo Bob May, educado no colégio Sydney Boys e na Universidade de Sydney, e Alec Broers, treinado na Geelong Grammar e na Universidade de Melbourne) para a Câmara dos Lordes.

Poucos cientistas profissionais vão perseguir o desafio de almejar cargos eletivos, embora a alemã Angela Merkel, PhD em física, seja uma notável exceção.

Outros três médicos com PhD, Rush Holt, Bill Foster e Vernon Ehlers, faziam parte do 110º congresso americano eleito (2007-2009).

Qualificada primeiramente como médica, Levi-Montalcini foi demitida de seu cargo de professora assistente de anatomia na Universidade de Turim quando o Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini aprovou uma lei, em 1938, que proibia todos os judeus de desempenharem atividades acadêmicas.

Tendo alguns recursos familiares, e talvez como resultado da sorte e de uma mudança de Turim para Florença, ela e sua irmã gêmea Paola (uma artista conhecida) evitaram o destino de serem transportadas para Auschwitz.

Meu colega cientista e escritor, o químico industrial Primo Levi, não o evitou, e descreveu em “É isto um homem?” como sobreviveu àquele ordálio, em razão de suas habilidades tecnológicas.

Continuando seu trabalho de investigação em um laboratório montado no próprio quarto, Levi-Montalcini passou grande parte da Segunda Guerra Mundial focada nos fatores que determinam o crescimento neural em embriões de galinha. Mesmo em tempos de guerra, era possível obter ovos de galinhas fertilizados!

Em meu campo de estudo, uma boa quantidade de pesquisas importantes em virologia e imunologia foi feita inicialmente com embriões de galinha (especialmente por Sir Macfarlane Burnet, como descrevi em “Sentinel Chickens: what birds tell us about our health and our world” ou “Galinhas sentinela: o que os pássaros nos dizem sobre a nossa saúde e o nosso mundo”). Mas eu estava apenas perifericamente ciente do trabalho de Levi-Montalcini com o desenvolvimento de filhotes até que, buscando reconhecer suas realizações no início da minha palestra em Bergamo, examinei sua carreira mais de perto.

Como sempre acontece quando leio sobre as vidas e as contribuições dos principais biólogos de uma época anterior, encontro um registro de dedicação e clareza intelectual baseadas em experiências e insights simples e elegantes. Ela estava continuando com uma grande tradição italiana.  

A ciência da embriologia começou no século 17, quando, trabalhando em Bolonha, Marcello Malpighi descreveu a progressão que observou quando examinava embriões de galinha em diferentes estágios de desenvolvimento.

A evolução dos primeiros vertebrados seguiu caminhos parecidos entre pássaros e entre nós e, mesmo em uma época em que a dissecação humana era proibida, a Igreja Católica, que controlava tudo, dificilmente se oporia a que se quebrassem ovos de galinha.

Notavelmente, alguns fundamentalistas religiosos acreditam que a embriologia, nas palavras do congressista republicano dos EUA Paul Broun (2007-2015), “vem direto das profundezas do inferno”!

Posto que essa pesquisa apenas descreve o que realmente está lá, é difícil compreender uma mentalidade que considera nocivas as realidades mais óbvias da biologia. Ironicamente, Broun é médico! 

Depois da liberação do norte da Itália em abril de 1945, Levi-Montalcini ofereceu seus serviços médicos para ajudar os aliados em Florença.

Depois então se mudou para os Estados Unidos para continuar estudando crescimento neural no grupo de pesquisas do eminente biólogo desenvolvimental, o imigrante judeu-alemão Viktor Hamburger na Universidade de Washington em St. Louis. Lá ela também começou sua associação profissional com o bioquímico Stan Cohen, seu co-Prêmio Nobel.

Nomeada como professora titular da Universidade de Washington em 1958, Levi-Montalcini dirigia, em 1961, o Centro de Pesquisas em Neurobiologia de Roma.

A partir de então, enquanto continuava suas colaborações nos EUA, ela prosseguiu com sua pesquisa na Itália.

Peter C. Doherty coordena o Peter Doherty Institute of Infection and Immunity. Ele foi convidado a realizar uma apresentação sobre Rita Levi-Montalcini no BergamoScienza, um festival de ciências na Itália.

Neste trecho de seu novo livro “The Incidental Tourist” (“O turista incidental”), Peter explica como Rita foi uma verdadeira heroína da ciência do século 20.

The Conversation