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Um estudo avaliou se as pessoas percebem sentimentos crescentes de autenticidade por toda a vida

É uma exortação comum: viva de modo autêntico. Mas o que significa exatamente a autenticidade? Como conceito psicológico, a autenticidade simplesmente significa aceitar quem você é de verdade, a nível fundamental, e agir de acordo com seus próprios valores e crenças. Muitos psicólogos sociais, como eu, também acolhem a abordagem da pessoa leiga em relação à definição. Em outras palavras: autenticidade não é um julgamento subjetivo. Só nós sabemos quando estamos nos comportando de modo autêntico ou não.

Com o passar do tempo as pessoas se julgam mais ou menos autênticas? Estou inclinada a achar que as pessoas acreditam estarem se aproximando de sua verdadeira identidade conforme passa o tempo. Afinal, a maioria de nós gostaria de pensar que estamos crescendo e mudando de maneiras positivas. E o constante bombardeio de mensagens para que sejamos “verdadeiros conosco” pode sugerir que alguma força nos previna de expressar inteiramente quem somos de verdade. Conforme ficamos mais velhos, talvez sintamos mais liberdade de assumir nossa real identidade — a liberdade de superar o que quer que nos faça esconder por trás de uma fachada e caminhar em direção ao que entendemos como nossa verdadeira identidade.

Em nossa pesquisa recente, minha colega Rebecca Schlegel e eu estabelecemos como objetivo testar se as pessoas acreditam que seu senso de autenticidade muda durante a vida. Motivadas pela intuição de que encontrar e expressar a verdadeira identidade de uma pessoa é uma meta comum, nossa expectativa era de que ela iria progredir ao longo do tempo. As pessoas se veriam como mais próximas de suas verdadeiras identidades com o passar do tempo.

Existem também diferentes formas que mudanças na autenticidade podem tomar. Uma possibilidade é uma simples progressão linear de autenticidade, em que as pessoas se percebem como se aproximando de seu verdadeiro eu a cada dia, semana, mês, ano e década. Isso se baseia na tendência que temos de nos colocar para cima: é um desejo forte e natural de enxergarmos a nós mesmos de modo positivo. Por outro lado, é possível que as pessoas percebam uma progressão autêntica e logo depois um platô. É o que os pesquisadores chamam de ilusão de “fim da história”, em que as pessoas acreditam terem se tornado mais autênticas em comparação ao passado e, a partir de certo momento, tenderiam a mudar menos. Irão alcançar um “pico de autenticidade” durante a vida. Testamos essas possibilidades conflitantes em um conjunto de estudos publicados na revista acadêmica Self and Identity.

Não pensamos em nós mesmos como seres estagnados. As pessoas têm expectativas positivas de que estão constantemente se movendo na direção de se tornar seu verdadeiro eu, e dão imenso valor a saber e expressar quem realmente são

Em nosso primeiro estudo, participantes de uma grande universidade deveriam pensar sobre como suas verdadeiras identidades se relacionavam com três autoconceitos temporais: identidade passada (quem eram quando se formaram no ensino médio), identidade atual (quem são agora), e identidade futura (quem serão no fim do semestre acadêmico). Receberam então representações pictóricas que consistiam em oito pares de diagramas de Venn, que mostravam uma quantidade crescente de intersecção entre seu “verdadeiro eu” e os autoconceitos temporais. Quanto maior a intersecção entre os dois círculos, mais cada autoconceito temporal incluiu o verdadeiro autoconceito de cada um.

Participantes tinham de reportar qual era a menos verdadeira intersecção de identidade com sua identidade passada, seguida da identidade atual e da identidade futura. Em outras palavras, as pessoas acreditam estar se tornando mais autênticas ao longo do tempo e que isso continuará no futuro. Isso é particularmente notável, olhando do nosso lugar estratégico, uma vez que essas autoavaliações foram feitas ao longo de um curto período de tempo nas vidas das pessoas (isto é, de cinco a seis meses).

Em nosso segundo estudo, examinamos se as pessoas percebem sentimentos crescentes de autenticidade por toda sua vida. Recrutamos um leque de participantes de diversas idades do Mechanical Turk, da Amazon [site que direciona pessoas para trabalhos diversos], e pedimos que pensassem sobre sua vida como se fosse um livro ou romance, organizando períodos de sua história de vida em capítulos, como um livro, e completando medidas de identidade verdadeira e autenticidade para os capítulos futuros.

O tempo acabou sendo associado a percepções maiores de autenticidade. O padrão era cúbico por natureza, o que significa que percepções de autenticidade aumentaram bruscamente nos capítulos logo antes do capítulo atual, e continuaram a aumentar pelos primeiros capítulos futuros. Embora esse movimento tenha sido de certa forma inesperado, eu pessoalmente suspeito que ele reflita um período de autoexploração em que as pessoas estão procurando e talvez conseguindo “se encontrar”. Assim como nas descobertas do nosso primeiro estudo, as pessoas tendem a acreditar que estão se aproximando de suas verdadeiras identidades ao longo de suas vidas. Evidências de ambos os estudos favorecem a explicação da automelhoria da autenticidade percebida ao longo do tempo.

Uma vez que autenticidade é um julgamento subjetivo sobre o quanto as ações diárias de uma pessoa refletem os valores e crenças de sua verdadeira identidade, esses estudos sugerem que o senso de autenticidade percebido por nós está constantemente mudando. Não pensamos em nós mesmos como seres estagnados. Além disso, as pessoas têm expectativas positivas de que estão constantemente se movendo na direção de se tornar seu verdadeiro eu, e dão imenso valor a saber e expressar quem realmente são, tanto que acreditam que sua futura identidade será uma versão mais autêntica de sua identidade atual, e que sua identidade atual é mais genuína do que sua identidade do passado. Finalmente, é importante notar que nossa amostra consistia apenas de participantes dos Estados Unidos. Enquanto a autenticidade pode ser pensada como sendo uma noção particularmente ocidental, pesquisas prévias mostraram que a experiência de autenticidade plena (ou não-plena) é similar em culturas ocidentais e orientais. Significa que é provável que esses sentimentos de progressão da autenticidade com o passar do tempo sejam universais.

A autenticidade continuará a ser um termo em voga por muitos séculos, e as pessoas nunca deixarão de promover a importância da identidade verdadeira e autêntica de uma pessoa. A única possibilidade de isso não acontecer talvez seja quando nossa revisão subjetiva da autenticidade finalmente disser que estamos o mais perto possível de quem enxergamos ser.

Elizabeth Seto é diretora do Laboratório de pensamentos e observações de identidade e existenciais (Seto) e professora-assistente de psicologia no Colby College, no Maine (EUA).

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