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Estudos mostram que fazer uma pessoa se sentir mal pode ser útil
 

Imagine que alguém com quem você se importa está procrastinando quando tem pela frente um exame importante. Se a pessoa não passar no teste, não conseguirá ir à universidade, uma possibilidade que terá grande consequência em sua vida. Se o encorajamento positivo não funciona, você pode inverter a estratégia, fazendo seu amigo se sentir tão mal, preocupado e com medo que a única estratégia possível será ele começar a estudar loucamente.

Às vezes, a única maneira de ajudar alguém parece ser por meio de uma abordagem cruel ou maldosa – uma estratégia que pode deixar o “ajudante” se sentindo culpado e errado. Novas pesquisas da minha equipe na universidade Liverpool Hope, no Reino Unido, ajudaram a entender como esse processo funciona.

Tipicamente, relacionamos emoções positivas com consequências positivas, e existem pesquisas que sustentam isso. Numerosos estudos sobre regulação de emoções interpessoais – o modo como uma pessoa pode mudar ou influenciar as emoções de outra – enfatizam o valor de aumentar as emoções positivas e diminuir as negativas. Outros estudos mostram que fazer uma pessoa se sentir mal pode ser útil: a raiva é conveniente quando se confronta um trapaceiro e magoar os sentimentos de uma pessoa pode dar a elas vantagem em um jogo.

Agora, minha equipe documentou o uso rotineiro da crueldade por motivos altruísticos. Para validar o fenômeno, hipotetizamos a necessidade de três condições: a motivação de piorar o humor de alguém precisa ser altruísta; a emoção negativa causada na outra pessoa deveria ajudá-la a atingir uma meta específica; e a pessoa causando a dor precisa sentir empatia por aquele que a sofre.

Para testar o que chamamos de “piora de efeito altruísta”, recrutamos 140 adultos e dissemos que eles seriam pareados com outro participante, anônimo, para jogar um videogame, concorrendo a um possível prêmio de 50 libras em cupons da Amazon. Na realidade, não havia “parceiro” nenhum. Antes de jogar, os participantes deveriam ler uma declaração pessoal claramente escrita pelo oponente sobre um fim de romance doloroso. Foi pedido a alguns participantes que se colocassem no lugar de seus oponentes; outros foram instruídos a permanecer distantes, manipulando assim o grau de empatia sentido com relação ao suposto concorrente. Participantes jogaram um de dois videogames: num deles, “Soldier of fortune”, os jogadores tinham de matar o maior número de inimigos possível e o objetivo era confrontacional; em outro, “Escape dead island”, os jogadores tinham de fugir de um quarto cheio de zumbis sem serem mortos. A meta era se esquivar.

Intuitivamente, os seres humanos têm um excelente senso de qual emoção negativa irá funcionar melhor como motivador

Depois de praticarem sozinhos por cinco minutos, os participantes tinham de decidir como o jogo seria apresentado a seus oponentes. Aqueles que sentiam uma empatia mais forte em relação a seus oponentes pediram que os responsáveis pelo experimento deixassem o oponente com raiva para o jogo confrontacional e com medo para o jogo de fuga – os dois estados mentais que dariam ao oponente uma chance maior de ganhar o prêmio.

Nosso estudo mostra que a tendência de fazer outro se sentir mal para ajudá-lo a se dar bem é muito mais prevalente quando o provocador sente empatia. Além disso, descobrimos que o uso dessa técnica não é aleatório, o que foi especialmente surpreendente. No jogo de atirar, participantes com empatia escolheram música e imagens que tinham o propósito de induzir à raiva; no jogo de zumbi, escolheram música e imagens que poderiam levar ao medo. Em ambos os casos, esses efeitos deram aos oponentes um incentivo para vencer a prova.

Resumindo: intuitivamente, os seres humanos têm um excelente senso de qual emoção negativa irá funcionar melhor como motivador. E as ações dos participantes eram absolutamente altruístas: eles escolheram induzir emoções que sabiam que ajudariam seus oponentes a ter um bom desempenho nos jogos enquanto reduziam sua própria chance de um prêmio.

Restam ainda muitas questões: esse processo estaria presente durante a infância e a adolescência? Se não estiver, quais os fatores que contribuem para o seu desenvolvimento? Quais estratégias as pessoas usam para piorar os humores dos outros em interações reais? Um estudo olhou para o fenômeno entre estranhos, mas o que acontece quando o protagonista e o oponente são amigos próximos ou membros da mesma família? Outras pesquisas sugerem que, naquela circunstância, a motivação para usar a estratégia poderia ser ainda mais pronunciada. Estudos que se valem de diários ou vídeos, enquanto isso, podem jogar luz em como a piora de efeito interpessoal altruísta opera na vida real.

Finalmente, quais são os limites da piora de efeito – a pessoa mais bem-intencionada, altruísta, pode acabar fazendo mal a alguém? Talvez ser cruel não seja necessário e estejamos equivocados em pensar que a outra pessoa precisa se sentir mal para conseguir ficar bem a longo prazo. Ou pode ser que o resultado que queremos irá na verdade piorar a vida da outra pessoa. Para voltar à história que abriu este texto, talvez o amigo entre na faculdade depois de ser cutucado, mas descubra que a faculdade é o caminho errado para ele. Ou talvez o amigo seja vulnerável e a estratégia que o ajuda a atingir seu objetivo também diminua sua felicidade e autoestima, provocando uma espiral descendente mesmo assim.

Mesmo se a crueldade for eficaz, seria realmente a estratégia mais eficaz de todas? Em nosso estudo original, os participantes não tinham a opção de induzir emoções positivas no oponente ostensivo. Assim, não tivemos como testar se os participantes que vivenciaram uma preocupação empática maior poderiam ter preferido incrementar o bem-estar de seus oponentes por meio de emoções positivas ou felizes. Nossa pesquisa continua, mas uma coisa está clara: ter empatia com os outros conduz não apenas à ajuda e apoio mas também à crueldade. Apenas por meio de mais estudos iremos determinar quanto – e se – a crueldade pode ser eficaz e sem riscos para nossos amigos e pessoas que amamos.

Belén López-Pérez é professora de psicologia na universidade Liverpool Hope, no Reino Unido

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