Foto: Rémi Walle /Unsplashed

gratidão
A gratidão ocupa posição privilegiada entre muitas das tradições religiosas do mundo
 

A gratidão pode ser mais benéfica do que costumamos supor. Um estudo recente pediu que pessoas escrevessem uma nota de agradecimento para alguém e depois estimassem o quão surpreso e feliz o recebedor ficaria. Invariavelmente, o impacto foi subestimado. Outro estudo avaliou os benefícios para a saúde de se escrever bilhetes de obrigado. Os pesquisadores descobriram que escrever apenas três notas de obrigado ao longo de três semanas melhorava a satisfação com a vida, aumentava sentimentos de felicidade e reduziria sintomas de depressão.

Enquanto a pesquisa sobre gratidão é relativamente nova, os princípios envolvidos são muito antigos. Alunos meus de um curso de filosofia política na Universidade de Indiana estão lendo “Robinson Crusoe”, o livro escrito há 300 anos por Daniel Defoe, frequentemente considerado o primeiro romance publicado em inglês. Abandonado em uma ilha desconhecida, sem nenhuma perspectiva aparente de salvamento ou fuga, Crusoe tem muito a lamentar. Mas, em vez de ceder ao desespero, ele faz uma lista de coisas pelas quais é agradecido, incluindo o fato de ser o único sobrevivente do naufrágio e de ter conseguido resgatar muitos itens úteis dos destroços.

A obra-prima de Defoe, tida como um dos maiores romances do mundo, fornece um retrato da gratidão em ação que continua oportuno e relevante hoje, como sempre foi. É também um retrato do qual a psicologia contemporânea e a medicina estão apenas começando a se aproximar. Em resumo, para a maior parte de nós, é muito mais útil focar nas coisas da vida pelas quais podemos agradecer do que se inclinar na direção do ressentimento e da lamentação.

Os benefícios da gratidão

Quando focamos nas coisas que lamentamos, tais como relacionamentos fracassados, disputas familiares e reveses na carreira e nas finanças, tendemos a nos tornar mais arrependidos. Por outro lado, quando focamos nas coisas pelas quais somos agradecidos, um sentido maior de felicidade tende a impregnar nossas vidas. E enquanto ninguém defenderia cultivar uma falsa sensação de benção, existem cada vez mais evidências de que contabilizar nossas graças é um dos melhores hábitos que podemos desenvolver para promover nossa saúde mental e física.

Faz tempo que a gratidão ocupa uma posição privilegiada entre muitas das tradições religiosas do mundo. Por exemplo, o Livro dos Salmos da Bíblia aconselha gratidão que seja duradoura e completa, dizendo: “Eu lhe agradecerei para sempre” e “com todo o meu coração”. Martinho Lutero escreve sobre gratidão como sendo o coração do Evangelho, retratando-a não apenas como uma atitude, mas como virtude a ser colocada em prática. O Alcorão recomenda a gratidão, afirmando:  “Quem quer que agradeça, beneficia sua própria alma”.

Estudos científicos recentes apoiam esses ensinamentos antigos. Indivíduos que regularmente realizam exercícios de gratidão, tais como contar suas graças e expressar sua gratidão aos outros, exibem crescente satisfação com relacionamentos e menos sintomas de doença física. E os benefícios não são apenas psicológicos e físicos. Talvez sejam também morais — aqueles que praticam a gratidão também enxergam suas vidas de modo menos materialista e evitam mais a inveja.

Por que a gratidão é boa para você

Existem múltiplas explicações para os benefícios da gratidão. Uma é o fato de que expressar gratidão encoraja os outros a continuarem sendo generosos, promovendo assim um ciclo virtuoso de bondade em relacionamentos. Da mesma maneira, pessoas agradecidas talvez fiquem mais propensas a retribuir com seus próprios atos de bondade. Falando de modo mais amplo, uma comunidade em que as pessoas se sentem agradecidas umas com as outras tem mais chance de ser um lugar agradável para se viver do que uma caracterizada por suspeição e ressentimento mútuos.

Os efeitos benéficos da gratidão podem ir ainda mais longe. Por exemplo, quando muitas pessoas se sentem bem sobre o que outra pessoa fez por elas, elas sentem um senso de elevação, com um consequente reforço da sua consideração pela humanidade. Alguns se inspiram a tentar se tornar também pessoas melhores, fazendo mais para ajudar a trazer o melhor nos outros e trazendo mais bondade para o mundo à sua volta.

A gratidão pode florescer apenas se as pessoas têm confiança o suficiente em si mesmas e nos outros para permitir que isso aconteça

A gratidão também tende a fortalecer um senso de conexão com os outros. Quando as pessoas querem fazer boas coisas que inspiram gratidão, o nível de dedicação em relacionamentos tende a crescer e os relacionamentos tendem a durar mais. E quando as pessoas se sentem mais conectadas, tendem a optar por passar seu tempo um com o outro e demonstrar seus sentimentos de afeto em ações diárias.

É claro, atos de bondade também podem fomentar desconforto. Por exemplo, se pessoas sentem que não são merecedoras de bondade ou suspeitam que há algum motivo por trás da bondade, os benefícios da gratidão não se realizarão. Do mesmo modo, receber bondade pode fazer surgir um senso de dívida, deixando nos beneficiários uma sensação de que precisam pagar de volta a bondade recebida. A gratidão pode florescer apenas se as pessoas têm confiança o suficiente em si mesmas e nos outros para permitir que isso aconteça.

Outro obstáculo para a gratidão é frequentemente chamado de senso de merecimento. Em vez de sentir um benefício como uma virada boa, as pessoas às vezes o veem como um mero pagamento do que lhes é devido, pelo qual ninguém merece nenhum crédito moral. Ainda que seja importante ver que a justiça está sendo feita, deixar de lado oportunidades por sentimentos genuínos e expressões de generosidade também podem produzir uma comunidade mais impessoal e fragmentada.

Praticando a gratidão

Existe uma série de passos práticos que qualquer um pode adotar para promover um senso de gratidão. Um deles é apenas regularmente dedicar tempo pensando sobre alguém que fez uma diferença, ou talvez escrevendo uma nota de agradecimento ou expressando a gratidão pessoalmente. Outros se encontram em disciplinas religiosas antigas, tais como meditar sobre benefícios recebidos de outra pessoa ou de fato rezar pela saúde e felicidade de um benfeitor.

Para além das benfeitorias recebidas, é também possível focar nas oportunidades de se fazer o bem, tanto aquelas em que se agiu no passado como aquelas pelas quais se almeja no futuro. Algumas pessoas são especialmente gratas não pelo que os outros fizeram para elas, mas pelas chances que tiveram de ajudar os outros. Para que se vislumbre a gratidão da melhor maneira possível, imagine uma pessoa desejando e talvez até rezando por uma oportunidade de fazer a diferença na vida de alguém.

Ao refletir regularmente sobre as coisas em sua vida pelas quais era grato, o Crusoe de Defoe acreditava que se tornou uma pessoa muito melhor do que teria sido se tivesse permanecido na sociedade de onde originalmente saiu para sua viagem.

“Agradeço de maneira humilde e calorosa que Deus tenha tido a satisfação de descobrir para mim que eu poderia ser mais feliz nesta condição solitária do que se estivesse na liberdade da sociedade e de todos os prazeres do mundo… Foi agora que eu comecei racionalmente a sentir o quão mais feliz é essa vida que agora levo, com todas as suas circunstâncias miseráveis, do que a vida perversa, amaldiçoada e abominável que levei durante toda a parte anterior de meus dias.”

Refletindo sobre generosidade e gratidão, o grande técnico de beisebol John Wooden uma vez ofereceu dois conselhos a seus jogadores e estudantes. Primeiro, ele disse, “é impossível ter um dia perfeito, a menos que você tenho feito algo para alguém que nunca conseguirá retribuir”. Ao dizer isso, Wooden procurou promover atos puramente generosos, em oposição àqueles desempenhados com uma expectativa de recompensa. Segundo, ele disse: “agradeça as suas bênçãos todo dia”.

Algumas tradições religiosas incorporam tais práticas ao ritmo da vida diária. Por exemplo, seguidores de algumas religiões oferecem preces de ação de graças toda manhã antes de se levantar e toda noite antes de se deitar. Outros agradecem ao longo do dia, como antes das refeições. Outros eventos especiais menos frequentes, como nascimentos, mortes e casamentos, podem também ser anunciados por tais orações.

Quando Defoe retratou Robinson Crusoe fazendo da ação de graças uma parte diária de sua vida na ilha, ele estava antecipando descobertas nas ciências sociais e medicina que não apareceriam por centenas de anos. Ele também estava refletindo a sabedoria de tradições religiosas e filosóficas que têm início há milhares de anos. A gratidão é um dos estados mentais mais saudáveis e edificantes, e aqueles que a adotam como hábito estão enriquecendo não apenas suas próprias vidas mas também as vidas daqueles à sua volta.

Richard Gunderman é reitor e professor de medicina, artes liberais e filantropia da Universidade de Indiana

The Conversation