Foto: Kaur Martin/Unsplash

bicicleta
Você não precisa de uma representação mental para decidir sair do caminho de uma bicicleta
 

Vamos supor que você recebeu uma oferta de emprego novo em uma cidade diferente e que precisa entender se deve aceitar ou não. Como fará isso? Provavelmente irá pensar sobre o que a oferta de emprego significa para você: como será a nova cidade? Quão satisfatório será o novo emprego? E quanto ao pagamento e outros benefícios? Como tudo isso se compara com onde você mora e trabalha atualmente? Não é trivial, mas no fim você conseguirá tomar uma decisão.

Esse tipo de situação é um enigma fascinante da vida humana – e não apenas por causa das imediatas perspectivas de progresso na carreira e aproveitamento de uma mudança. O que a faz empolgante para cientistas cognitivos é que, ao tomar essa decisão, você mentalmente representa os diferentes fatores que fazem parte dela (como seria aceitar o emprego, qual é sua atual situação e assim por diante) e então age com base nessas representações mentais.

Tais representações mentais apresentam duas características que as fazem objetos interessantes de estudo. Primeiramente, são como modelos internos: intermediários entre o mundo e suas reações ao mundo, e você as usa – em vez do mundo em si – para decidir o que deve fazer. A oferta de emprego não é como um movimento brusco que te tira do caminho como uma bicicleta vindo na sua direção. Para chegar a te fazer sair do lugar, isso só acontece por meio da maneira como ela aparece representada na sua mente.

Em segundo lugar, representações mentais detêm as características tradicionais de “significado”. A mesma oferta de emprego pode ser representada de muitas maneiras diferentes; e você pode se enganar nas maneiras com que representa a vida em uma nova cidade. Talvez a vida na cidade britânica de Maidenhead tenha muito mais para oferecer do que você pensava. Isso é diferente da maior parte das outras coisas no mundo. Por exemplo, a reação química causada por bicarbonato de sódio, ácido cítrico e água não diz respeito a nada e não pode errar sobre nada. Ela apenas é o que é.

Por razões como essas, e outras relacionadas, representações mentais suscitam a questão de como elas poderiam ter evoluído. O mundo biológico geralmente parece muito com uma reação química: é cheio de movimentos de vai e vem sem conteúdo. Isso posto, é razoável especular: existe no mundo biológico pelo menos um lugar para algo como as representações mentais?

Representações mentais permitem que o organismo raciocine sobre qual a coisa certa a fazer. Muito frequentemente, organismos que se apoiam em um sistema de reflexos para gerenciar suas interações com o mundo têm de lidar com muita redundância

Essa questão tem sido muito discutida por filósofos ao longo das últimas décadas. Enquanto continua havendo um debate sobre os detalhes, ficou claro que sim, de fato, existe lugar no mundo biológico para representações mentais – é possível “naturalizar” conteúdo mental. Entretanto, isso não significa que todas as questões nesse contexto foram resolvidas. Pois mesmo que seja possível demonstrar que a evolução de representações mentais é possível, em geral, isso não responde ainda a perguntas sobre por que organismos usariam representações mentais na hora de tomar decisões. O que ganham organismos ao se apoiar em conteúdo mental? Afinal, eles poderiam também se apoiar apenas em um sistema de “movimentos bruscos” (como no caso da bicicleta descrito acima) para que fizessem a coisa certa. Na linguagem da ciência cognitiva: organismos também poderiam – e frequentemente o fazem – se apoiar em reflexos, hábitos ou comportamentos condicionados. Isso posto, por que organismos iriam direcionar sua tomada de decisões através do estágio intermediário da representação mental? Essa questão recebeu muito menos atenção na literatura.

A chave para respondê-la – sugiro eu – é que representações mentais permitem que o organismo raciocine sobre qual a coisa certa a fazer. Muito frequentemente, organismos que se apoiam em um sistema de reflexos para gerenciar suas interações com o mundo têm de lidar com muita redundância. Muitas percepções do mundo pedem a mesma reação comportamental, e muitas reações comportamentais ao mundo são variações em cima de um tema. Assim, se é importante não ser atingido por bicicletas, então muitas visões diferentes (bicicletas vermelhas, bicicletas azuis etc), sons (campainhas, gritos etc), cheiros (borracha, metal etc) e assim por diante precisam ser todos conectados com o ato de se mexer para o lado. Do mesmo modo, há uma boa chance de que organismos que precisam sair do caminho de bicicletas que vêm na sua direção também precisam evitar lambretas, triciclos e scooters. Isso, por sua vez, requer que organismos movidos por reflexos tenham de lidar com um número enorme de disposições comportamentais que contêm muitos padrões.

Por contraste, a dependência de representações mentais permite que o organismo reaja diretamente a esses padrões – por exemplo, ao que existe em comum entre diversas visões, sons e cheiros diferentes – e compute a melhor reação à situação em que se encontra. O organismo pode apenas pensar: existe um objeto grande adiante que se move de maneira relativamente rápida e a melhor coisa a fazer quando se está diante de objetos grandes que se movem rapidamente na sua direção é sair do caminho. Assim, o organismo não tem de armazenar um grande número de disposições comportamentais (“bicicleta vermelha adiante → se mover para o lado”, “bicicleta azul adiante → se mover para o lado”), mas pode apenas raciocinar sobre qual seria a resposta correta. Isso, por sua vez, significa que o organismo pode otimizar sua máquina de tomar decisões.

Isso importa, pois esse tipo de otimização pode ser vantajoso do ponto de vista biológico. Por um lado, provavelmente se correlaciona com eficiência neurobiológica. Um sistema cognitivo mais otimizado tende a ser garantido por um sistema neural mais otimizado. Uma prova em favor disso vem do fato de que, durante períodos de maturação cognitiva – por exemplo, no início da infância ou puberdade –, nossa rede neural é podada: conforme nos tornamos mais sofisticados cognitivamente, sinapses desnecessárias são eliminadas. É bom, uma vez que sistemas neurais são caros de se manter. Por outro lado, esse tipo de otimização permite ajustes mais rápidos a ambientes mudados. Conforme nosso mundo muda – por exemplo, talvez a crescente ubiquidade da inteligência artificial significará que logo não precisaremos saltar fora do caminho de bicicletas, pois elas irão nos circundar – fica muito fácil mudar nosso comportamento. Não teremos de alterar um vasto número de reflexos, mas apenas mudar a maneira com que reagimos a um dado padrão em nossas percepções.

Desse modo, apoiar-se em representações mentais pode, talvez contra-intuitivamente, fazer com que a tomada de decisões seja mais, e não menos, eficiente. E essa – ou pelo menos é o que quero sugerir – é a chave para revelar o mistério de por que as representações mentais evoluíram.

Armin W. Schulz é professor-associado de filosofia na Universidade do Kansas. Ele é autor de “Efficient Cognition: The Evolution of Representational Decision Making” (Cognição eficiente: a evolução da tomada de decisões representativa, em tradução livre) (2018).

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