Foto: Jonathan Ernst/Reuters

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Mesmo na era Obama, a retórica da esperança não era universalmente popular
 

No fim dos anos 2000 e início dos 2010, a palavra “esperança” estava por toda parte na política do Ocidente. Enquanto seu uso na campanha presidencial de Barack Obama se tornou icônico, apelar para a esperança não se limitava apenas aos Estados Unidos: o partido de esquerda grego Syriza se apoiou no slogan “a esperança está a caminho”, por exemplo, e muitos outros partidos europeus abraçaram slogans similares. Desde então, entretanto, raramente ouvimos ou vemos “esperança” na esfera pública.

Mesmo em seus tempos áureos, a retórica de esperança não era universalmente popular. Quando em 2010 a candidata a vice-presidente [americana] Sarah Palin perguntou retoricamente “como é que tá funcionando pra você esse papinho de esperança e mudança?”, ela se conectou com um ceticismo disseminado que enxerga a esperança como sendo fora da realidade, até mesmo iludida. O ceticismo de Palin (muitos se surpreenderão em ouvir) tem estado em funcionamento há muito tempo na tradição filosófica. De Platão a René Descartes, muitos filósofos argumentaram que a esperança é mais fraca que a expectativa e a confiança, uma vez que demanda meramente acreditar na possibilidade de um evento, e não em provas de que ele tem chance de acontecer.

Para esses filósofos, a esperança é uma maneira inferior de se identificar com a realidade, adequada apenas quando uma pessoa não tem o conhecimento necessário para formar expectativas “próprias”. O radical filósofo do iluminismo Baruch Espinosa expressa essa opinião quando escreve que a esperança indica “uma falta de conhecimento e uma fraqueza da mente” e que “quanto mais nos esforçarmos para viver segundo a orientação da razão, mais nos esforçamos para sermos independentes da esperança”. De acordo com essa visão, a esperança é particularmente inadequada como guia de ação política. Cidadãos deveriam basear suas decisões em expectativas racionais sobre o que governos podem conquistar, em vez de se deixar motivar por mera esperança.

Esse ceticismo deveria ser levado a sério, pois pode realmente nos levar a um melhor entendimento a respeito da ascensão e queda da retórica da esperança. Existe então espaço para a esperança na política?

Precisamos ser precisos a respeito do tipo de esperança a que nos referimos. Se estamos considerando o que os indivíduos esperam, qualquer política que tenha consequências para as vidas das pessoas estará ligada à esperança de alguma maneira – seja esperança de que essa política tenha êxito ou esperança que fracasse. A geração de tal esperança não é necessariamente boa ou ruim; é simplesmente parte da vida política. Mas quando movimentos políticos prometem entregar esperança, eles claramente não estão falando de esperança nesse sentido genérico. Essa retórica particular da esperança se refere a uma forma mais específica, moralmente atraente e distintamente política.

Segundo algumas visões, cidadãos deveriam basear suas decisões em expectativas racionais sobre o que governos podem conquistar, em vez de se deixar motivar por mera esperança

A esperança política se distingue por duas características. Seu objeto é político: trata-se de esperança por justiça social. E seu caráter é político: é uma atitude coletiva. Enquanto o significado da primeira característica é talvez óbvio, a segunda característica explica por que faz sentido falar da “volta” da esperança à política. Quando movimentos políticos procuram reavivar a esperança, não estão agindo a partir da presunção de que indivíduos não nutrem mais esperança pelas coisas – estão expandindo a ideia de que a esperança atualmente não molda nossa orientação coletiva em direção ao futuro. A promessa de uma “política da esperança” é assim a promessa de que a esperança por justiça social se tornará parte da esfera da ação coletiva, e da própria política.

Ainda assim, permanece a questão se a esperança política é mesmo uma coisa boa. Se uma das tarefas do governo é realizar a justiça social, não seria melhor para os movimentos políticos se eles promovessem expectativas justificadas em vez de mera esperança?

A esfera política tem características particulares, únicas a ela, que impõem limites no que podemos racionalmente esperar. Uma dessas limitações é o que o filósofo moral americano John Rawls descreveu em 1993 como o pluralismo intransponível das “doutrinas abrangentes”. Em sociedades modernas, as pessoas discordam sobre o que tem mais valor, e tais discordâncias frequentemente não conseguem ser resolvidas por meio da discussão racional. Tal pluralismo torna irracional esperar que iremos algum dia chegar a um consenso final nesses assuntos. Considerando que governos não deveriam perseguir fins que não conseguem ser justificados a todos os cidadãos, o máximo que podemos esperar racionalmente da política é a busca daqueles princípios da Justiça sobre os quais todas as pessoas razoáveis podem concordar, tais como direitos humanos básicos, não discriminação e tomada de decisões democráticas. Assim, não podemos esperar racionalmente que governos que respeitam nossa pluralidade busquem ideias de justiça mais exigentes – por exemplo, por meio de políticas de redistribuição ambiciosas que não são justificáveis a todos, mesmo às concepções mais individualistas do bem.

Essa limitação entra em tensão com outra das declarações de Rawls. Ele também argumentou, em 1971, que o bem social mais importante é o autorrespeito. Em uma sociedade liberal, a autoestima dos cidadãos é baseada na sabedoria de que existe um compromisso público com a justiça  – baseado no entendimento de que outros cidadãos os enxergam como merecedores de tratamento justo. Entretanto, se podemos esperar concordância apenas em um conjunto estreito de ideais, essa esperança irá fazer uma contribuição relativamente pequena para a nossa autoestima. Comparado ao possível consenso sobre ideais de justiça mais exigentes, essa expectativa irá fazer relativamente pouco para que enxerguemos outros cidadãos como sendo profundamente comprometidos com a justiça.

Felizmente, não precisamos nos limitar ao que podemos esperar. Mesmo que não justifique esperar mais do que concordância limitada a respeito da justiça, ainda podemos coletivamente esperar que, no futuro, um consenso sobre ideias mais rigorosas de justiça irá emergir. Quando cidadãos coletivamente consideram essa esperança, isso expressa um entendimento compartilhado de que cada membro da sociedade merece ser incluído em um ambicioso projeto de justiça, mesmo que discordemos sobre o que tal projeto deveria ser. Esse conhecimento pode contribuir para o autorrespeito e é portanto um bem social desejável por si só.

Então é racional, talvez até mesmo necessário, recrutar a noção de esperança para atender aos propósitos da justiça. E é por isso que a retórica de esperança praticamente desapareceu. Podemos seriamente empregar a retórica de esperança apenas quando acreditamos que cidadãos possam ser motivados a desenvolver um compromisso compartilhado no sentido de explorar os ambiciosos projetos da justiça social, mesmo quando discordam a respeito de seu conteúdo. Essa crença se tornou cada vez mais improvável à luz de desenvolvimentos recentes que revelam o quão divididas estão as democracias ocidentais. Uma minoria considerável na Europa e nos EUA deixou claro, em resposta à retórica da esperança, que ela discorda não apenas sobre o significado de justiça mas também sobre a própria ideia de que nosso vocabulário de justiça social corrente deveria ser estendido. Pode-se, é claro, ainda esperar individualmente que aqueles que mantêm essa visão podem ser convencidos a mudá-la. Do modo como as coisas estão, entretanto, essa não é uma esperança que seja possível compartilhar.

Titus Stahl é professor-assistente na faculdade de filosofia da Universidade de Groningen, na Holanda

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