Foto: Pedro Martins/Mowa Press

 

Gilberto Freyre foi provavelmente o mais influente intelectual que se deparou com a problemática do futebol na sociedade brasileira. Entretanto, ao contrário do que se possa pensar, ele nunca escreveu uma obra de fôlego sobre o tema. O futebol foi abordado em artigos para jornais e revistas, seminários, prefácios de livros de terceiros, introduções e fragmentos esparsos.

Na década de 1930, ele já era um autor consagrado. Os seus textos possibilitaram uma visão original dos fundamentos do povo brasileiro ao estudar a participação do negro, do índio e do colonizador português na formação de uma sociedade ajustada às condições do meio tropical e da economia latifundiária. A sua mensagem de um Brasil antirracista representou um divisor de águas no processo cultural brasileiro, influenciando a ideologia oficial do Estado Novo ao compor a figura da democracia racial.

Entretanto, se a obra foi fundamental para combater os pensamentos racistas que predominavam no início do século 20; por outro lado, atenuou as duras contradições que separavam senhores e escravos no período colonial. As lutas sociais eram diluídas em meio à adaptabilidade do português nos trópicos, à sua plasticidade racial e à pluralidade e confraternização entre as raças existentes no Brasil.

Para o sociólogo Renato Ortiz, a ideia de pluralidade em Freyre encobria uma ideologia de harmonia. Diversidade significava unicamente diferenciação, o que eliminava a priori os aspectos de antagonismos e de conflitos da sociedade. As partes eram distintas, mas se encontravam harmonicamente unidas pelo discurso que as englobava. Assim, a senzala não representava um antagonismo à casa-grande, mas simplesmente impunha uma diferenciação que era muitas vezes complementar no quadro da sociedade global. Dentro dessa perspectiva os conflitos se resolviam no interior do próprio conceito de diferenciação, que pressupunha a existência de uma sociedade harmônica e equilibrada. A ideologia do sincretismo exprimia um universo isento de contradições, uma vez que a síntese oriunda do contato cultural transcendia as divergências reais que porventura pudesse existir.

Daí a ênfase da análise recair sobre os aspectos positivos das culturas, ou seja, as suas contribuições para uma cultura sincrética. Nos seus inúmeros textos, os mais diversos assuntos eram abordados, como as feições sexuais da vida familiar, a música, a língua, a cozinha, a capoeira e obviamente o futebol. Ainda em 1929, Freyre já tratara do “esporte bretão” em artigos escritos para o jornal pernambucano A Província. Eram crônicas de costumes da sociedade da época. Podia ser sobre a moda dos recifenses em utilizar roupas de banho ou de futebol no cotidiano, ou sobre a violência das partidas de futebol disputadas no Rio de Janeiro.

Em “Casa-Grande & Senzala” (1933), Freyre menciona os jogos com bola praticados pelos meninos ameríndios, a da bola de borracha usada num jogo de cabeçada. Porém, foi em “Sobrados & Mucambos” (1936) que fez a primeira intervenção mais sistemática do jogo de futebol. Ao observar a simpatia e a cordialidade do brasileiro, principalmente do mulato, disse que não parecia ter origem principalmente étnica. Para ele, “o riso abundante” no mulato brasileiro era antes fruto de uma especialização social e que teria se desenvolvido principalmente dentro das condições de sua ascensão social: “condições de ascensão através da vida livre e não apenas nas senzalas e nos haréns dos engenhos”. E era dentro dessas condições de busca de ascensão social que poderia ser identificado nas gerações mais novas de brasileiros “a ascensão do mulato não só mais claro, como mais escuro, entre os atletas, os nadadores, os jogadores de foot-ball”, que eram naquele momento, “quase todos mestiços”.

Nesse trecho, o autor plantava a semente onde pouco depois iria germinar o fundamental artigo “Foot-ball mulato”, escrito no Diário de Pernambuco em 1938, durante a disputa da Copa do Mundo da França. Na competição, a equipe brasileira contou com negros, mulatos e brancos como Leônidas da Silva, Domingos da Guia, Romeu Pellicciari e Tim. No primeiro jogo, ganhou dos poloneses por 6 a 5 e, no segundo, empatou com os tchecoslovacos por um gol. Na época, após um empate no tempo normal e na prorrogação, havia a disputa de uma nova partida 48 horas depois. Apesar do nervosismo dominante no Brasil, entre os torcedores que ouviam a partida ao vivo através da voz do speaker Gagliano Neto, a seleção não decepcionou. Ganhou dos adversários por 2 a 1.

Os brasileiros estavam vibrando. A apreensão resultante das duas partidas contra os tchecoslovacos propiciou manifestações de entusiasmo e nacionalismo poucas vezes observadas até então. No Rio de Janeiro, moças e rapazes, saindo em bandos rumorosos dos escritórios centrais, vinham para a Avenida Central e se abandonavam às mais contagiosas demonstrações de alegria. E faziam roda como crianças ao coro de “Brasil!, Brasil!, Brasil!”. Em São Paulo, milhares de admiradores do futebol brasileiro passaram a externar a sua exuberante alegria nas ruas e praças públicas. Em Recife ouviam-se apitos de fábricas, foguetes, sirenes. Alguns jovens organizaram uma passeata, conduzindo o pavilhão nacional debaixo de entusiásticas aclamações. Em Salvador, Fortaleza, Porto Alegre, Belo Horizonte, em todo o Brasil, a população expressava a sua alegria através de festas, fogos, balões, passeatas, hinos e bandeira nacionais. “Era o Brasil que vibrava. Todos se confundiam nas exclamações de entusiasmos”.

A imprensa não tinha mais dúvida, o futebol tinha realizado o velho sonho de muitos, de ver o Brasil sem divisões entre classes sociais, entre estados e entre raças. As autoridades públicas procuraram acompanhar a emoção popular. O ministro Gustavo Capanema, Alzira Vargas, Lourival Fontes e a Presidência da República mandaram telegramas de felicitações após o jogo. Alguns intelectuais também procuraram fazer comentários e análises sobre o desempenho dos jogadores. Um artigo não assinado do Diário de Pernambuco, assim afirmava: “Pode-se dizer que os foot-ballers brasileiros fizeram […] mais pelo Brasil e pelo seu renome do que toda e qualquer propaganda paga, que acaso se tenha feito”. E concluía que numa época em que se fazia a apologia das raças puras, “os mestiços brasileiros não derrotaram apenas a Tchecoslováquia, encostaram na parede os Gobineau e os Rosenberg”, que queriam “impor ao mundo o primado dos arianos, como um artigo de fé”.

Dois dias depois, Gilberto Freyre publicava no mesmo Diário de Pernambuco o artigo “Foot-ball mulato”. O “futebol mulato” era uma expressão da formação social brasileira, “rebelde a excessos de ordenação interna e externa; a excessos de uniformização, de geometrização, de estandartização”; a totalitarismos que fizessem desaparecer a variação individual ou espontaneidade pessoal. O mulatismo brasileiro se fazia marcar por um gosto de flexão, de surpresa, de floreio que lembrava passos de danças e de capoeiragem. Mas sobretudo de dança. Dança dionisíaca. Dança que permitia “o improviso, a diversidade, a espontaneidade individual. Dança lírica”. Para Freyre, “o mulato brasileiro deseuropeizou o futebol dando-lhe curvas arredondadas e graças de dança”. E “foi precisamente o que sentiu o cronista europeu que chamou aos jogadores brasileiros de ‘bailarinos da bola’”.

Assim, através do contraste entre o estilo de jogo dos europeus e dos atletas brasileiros, “dionisíacos” em essência, Freyre já associava o futebol com a nação que se pretendia construir. Era fácil relacionar a seleção brasileira de futebol com as características do povo brasileiro. Era como se, através do futebol, pudéssemos observar e analisar as características, a formação e os problemas do povo. O estilo dos jogadores seria um reflexo dessas qualidades, numa transposição muito particular de substituir a “seleção de jogadores brasileiros de futebol” pelo “Brasil”, pelo “povo brasileiro”.

Em 1945, no livro “Sociologia”, Freyre formulou com mais precisão a sua interpretação do mulatismo brasileiro. Na seção “Sociologia psicológica e as teorias Gestalt de ‘situações vitais’”, procurou desenvolver uma associação dos conceitos apresentados no artigo de 1938 com a obra “Patterns of Culture” (1935), da antropóloga norte-americana Ruth Benedict. A brasilidade ficou definida a partir da contraposição entre um padrão de cultura “apolínea”, formal, racional e ponderada, que seria própria dos europeus; de outro padrão considerado “dionisíaco”, individualista, emocional, impulsivo, típico da índole mulata. Sentia-se nesse contraste o choque do mulatismo brasileiro com o arianismo europeu. Freyre deixava claro que mulatismo e arianismo não eram considerados expressões étnicas, mas expressões psicossociais condicionadas por influências sócio-históricas. Numa sociedade, o todo não era a “simples soma de suas partes mas o resultado de um modo único de arranjo e inter-relação de partes de que resulta nova entidade”.

Assim, era preciso descobrir as fontes emocionais e intelectuais de uma determinada sociedade ou grupo através de uma sociologia fundamentalmente psicológica. Daí a utilização das categorias “apolíneo” e “dionisíaco” como formas de caracterização psicossocial ou psicocultural de culturas, de pessoas e de grupos sociais.

Era isso que ocorria com a adaptação de danças ou jogos de outros tipos de cultura à configuração psicossocial diferente. As danças ou jogos necessariamente sofreriam recriações ou deformações. O inglês dançava a rumba, tornando-a antes apolínea que dionisíaca. Já o mestiço brasileiro, o baiano, o carioca, o mulato sacudido do litoral, jogava um futebol que não era mais o jogo apolíneo dos britânicos, mas uma quase dança dionisíaca. Texto fundamental para o entendimento do “futebol mulato”, onde “apolíneo” e “dionisíaco” foram definidos como categorias básicas para o entendimento não somente do futebol, mas também da sociedade brasileira.

Foto: Divulgação/Ludopédio

Lance do jogo entre as seleções do Brasil e da Polônia na Copa de 1938
 

Em 1947 foi publicado mais um texto clássico: o prefácio do livro “O Negro no Foot-ball Brasileiro”, do jornalista Mário Filho. Nele, ampliou as concepções desenvolvidas anteriormente, para quem a transformação do futebol em esporte nacional possibilitou a sublimação dos elementos irracionais da formação social e cultural do brasileiro, substituindo práticas mais primitivas e funcionando como uma parte fundamental do processo civilizatório da sociedade brasileira. Sem o futebol, “o cangaceirismo teria provavelmente evoluído para um gangsterismo urbano, com São Paulo degradada numa sub-Chicago de Al Capones Ítalo-Brasileiros”. Já a capoeiragem “teria, provavelmente voltado a enfrentar a polícia das cidades sob a forma de conflitos mais sérios”. O samba teria ficado “tão particularmente primitivo, africano, irracional que suas modernas estilizações seriam desconhecidas, com prejuízo para a nossa cultura e para o seu vigor híbrido”. A malandragem “teria se conservado inteiramente um mal ou uma inconveniência. E ao sublimar o que havia de mais primitivo, mais jovem, mais elementar na cultura brasileira, era natural que o futebol, no Brasil, engrandecesse o negro, o descendente de negro, o mulato, o cafuzo, o mestiço. Assim, de esporte da elite que tentava reproduzir os padrões europeus para um esporte mestiço com características próprias, o futebol representava a confirmação da ideologia da democratização racial.

O prefácio de “O Negro no Foot-ball Brasileiro” e o artigo “Foot-ball mulato” são os textos mais difundidos e citados de Freyre sobre o futebol; e, juntamente com a seção “Sociologia psicológica e as teorias Gestalt de ‘situações vitais’” do livro Sociologia, completam o quadro de textos seminais do modelo de “futebol mulato” proposto pelo autor.

Também não podemos esquecer que as teorias freyrianas foram popularizadas – e também distorcidas – por setores importantes da imprensa esportiva, com destaque para Mário Filho. Ainda em 1946, o jornalista fazia questão de afirmar que quem estava na geral, na arquibancada, na cadeira numerada, pertencia à mesma multidão. Para ele, a paixão do povo tinha de ser como o povo, de todas as cores, de todas as condições sociais. “O preto igual ao branco, o pobre igual ao rico”. Era uma evidente referência à obra freyriana e à ideologia da democracia racial.

Nos anos seguintes, Freyre escreveu artigos acadêmicos revisando as influências africanas e inglesas no futebol do Brasil; estudou a miscigenação e os esportes em diferentes sociedades; procurou relacionar folclore com esportes; e realizou uma série de crônicas jornalísticas onde associava o futebol a um determinado acontecimento, como a participação da seleção brasileira numa Copa do Mundo.

Aos poucos, nas décadas de 1960 e 1970, o conceito “futebol mulato” foi sendo substituído por outro, menos autoral e mais flexível, na preferência de jornalistas e intelectuais. Entrava em cena a categoria “futebol arte”. Para Ortiz, era o momento em que as teorias desenvolvidas por Freyre tenderiam a sair do lugar, já que o capitalismo brasileiro já havia atingido novas formas de produção que estavam, em parte, desconectadas com o ideário freyriano.

Entretanto, passados tantos anos, a força e influência das ideias de Freyre para o futebol brasileiro podem ser sentidas ainda hoje, no início do século 21. Apesar das críticas às metanarrativas e da crise de identidade do chamado sujeito pós-moderno, se observarmos as temáticas desenvolvidas nos centros de pesquisas e as matérias publicadas na imprensa esportiva, principalmente em épocas de Copa do Mundo, a discussão sobre a “essência” do futebol brasileiro permanece.

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio