Foto: Mauro Horita/Mowa Press

Torcedores do Brasil com a imagem de Pelé e bandeira da Rússia
 

O gesto de Xhaka e Shaqiri, simbolizando a bandeira da Albânia, nos gols marcados na vitória da Suíça sobre a Sérvia, puseram em evidência simbologias que extravasam o suposto papel do futebol, e seus atores hoje, apenas como mero instrumento do business. De fato, a própria Copa do Mundo (como evento transnacional) é transmitida para boa parte do planeta, evidenciando a riqueza e variedade de cores, performances, comportamentos, sentimentos, enfim possibilidades de tipos sociais sobre a experiência do futebol que vai muito além dos propósitos da “indústria do entretenimento”: as identidades.

Se ao longo dos anos a profissionalização e a globalização provocaram uma segmentação mais clara entre o ethos de torcedores (ainda com laços de afetividade ligados às tradições, embora crescentemente consumistas, com os clubes) em relação aos jogadores (laços de profissionalismo com os clubes), no plano do torcedor alguns traços de pertencimento permaneceram e outros novos se tornaram comuns, entre diferentes “tipos de torcedores” ao redor do mundo. Neste artigo, me proponho a falar brevemente sobre um desses traços, que não é estático mas que sofre e sofreu metamorfoses ao longo do tempo, sobretudo com o chamado processo de globalização: a lealdade.

Um dos elementos chave para discussão da transformação das identidades no futebol é expressa pelo referido termo. Argumenta-se que a lealdade, a forma de ligação entre o clube e sua comunidade, estaria se alterando (ou pelo menos dividindo cada vez mais espaço) de uma forma mais tradicional e holista para uma forma cada vez mais consumidora e individualista. De um tipo de “amor” tradicional, romântico e eterno estaríamos nos mudando para “amores” simpáticos, utilitários e efêmeros. Esse processo, entretanto, não seria linear e aconteceria (ainda) demarcado por várias especificidades.

Para conceituar a forma tradicional de lealdade no futebol, pode se compará-la ao mesmo sentimento consagrado pelas religiões, que motivam coesão social, autoridade moral, princípios de coletivismo em que o “nós” prevalece sobre o “eu”, promovendo afetividade e devoção das pessoas em torno de um símbolo e de uma coletividade.

Argumenta-se que nas sociedades modernas, os indivíduos permaneceriam com demandas de coesão social, pertencimentos comunitários, sociabilidades, enfim, permaneceriam com demandas desse tipo de solidariedade. Por consequência: permaneceriam demandas de ritualidade e fé a partir de símbolos transcendentais que exprimissem afetivamente esse pertencimento. Essa função seria preenchida pelo futebol nas sociedades dos séculos 20 e 21 (quando não pela própria religião), de forma análoga à religião, que assim promoveria os rituais esportivos, catárticos e estados de êxtase nos estádios de futebol, através da adoração dos clubes e seus jogadores.

Arlei Damo, destacaria esse tipo de lealdade e solidariedade pelo termo “clubismo”, e sugere suas raízes em reminiscências da cultura do patriarcalismo, de sociedades tradicionais e menos complexas que as industriais, a qual seria baseada nos laços pessoais, nos laços de sangue e de confiança entre homens. Este tipo de pertencimento se iniciaria a partir de uma escolha, muitas vezes influenciada e mediada pelos laços de proximidade e pessoalidade do indivíduo (pais que levam para uma primeira partida no estádio, amigos que dão uma camisa de presente). Seria, enfim, um pertencimento social que promoveria um cotidiano engajado emocionalmente e caracterizado: “por uma forte conotação exclusivista (dito único e imutável), um tipo anacrônico se pensado em relação à modernidade e, sobretudo, à contemporaneidade, em que sobressaem as escolhas do tipo mutável, reversível, instrumental e assim por diante”.

As partidas de futebol se organizariam, assim, no interior de circuitos em que haveria enfrentamento de clubismos. Os enfrentamentos mais destacados seriam os chamados dérbis, os quais conformariam e confrontariam formas de pertencimentos opostas por categorias e questões sociais (classe e etnia, por exemplo) estas geralmente e historicamente tensionadas na sociedade, realimentadas no dia a dia, e drenadas da sociedade para a configuração esportiva, fomentando ainda mais o clubismo de envolvimento.

O clubismo teria sido legado ao futebol, porque teria nascido a partir de formas de sociabilidade burguesa impregnadas, na época, do ideal romântico que inspiraria o caráter amador entre os primeiros clubes (assim, não seria por acaso que os distintivos dos clubes figurariam nas camisas, desde os inícios, no lado esquerdo do peito) e do próprio ideal de olimpismo. Finalmente, ainda que os jogadores tivessem se profissionalizado, este ideal amador persistiria com o público esportivo e mesmo nos círculos diretivos, os quais também continuariam ocupados (ainda por um bom tempo na maior parte dos clubes) por indivíduos ligados aos clubes pela afetividade (ou pelo menos com essa justificativa).

A lealdade tradicional demarcaria assim, por boa parte da história do futebol, a forma de relação predominante entre a comunidade e o clube de futebol. Alguns autores também relacionariam que essa ligação poderia ser mais frequente entre os setores populares do que os setores mais abastados, que pretensamente fruiriam o esporte de forma mais equilibrada e racional e, portanto, sua relação com o clube seria outra, declarando-se mais esclarecida.

O comportamento engajado, também poderia ser relacionado (historicamente) aos estratos mais populares, pois se expressaria por um comportamento mais ativo em termos de performances (visuais, verbais e corporais). Neste caso, os exemplos emblemáticos seriam os barra bravas, ultras, hooligans e torcidas organizadas, mas a própria etimologia que o público esportivo assumiu em diferentes lugares, “entrega” que anterior aos grupos antes citados, estava presente já a referida experiência catártica: por exemplo, “fan” (palavra de raiz religiosa “fanatic”) e “supporter” (palavra que remete ao apoio, à defesa e ao incentivo) na Inglaterra; ou “tifosi” e “tifoso” (termo que remete aquele acometido por uma doença) na Itália.

Em síntese, embora em transformação, essa relação em termos de lealdade, de entrega total, de exclusividade, de abnegação, de sacrifício, de incondicionalidade e eternidade do torcedor ou aficionado em relação ao seu clube, seria uma característica mais ou menos geral, uma permanência e forma de ainda vivenciarmos o esporte.

A lealdade moderna

Uma das chaves que diferenciaria a lealdade tradicional para a lealdade moderna seria justamente como se insere a balança eu/nós nessa relação. Na lealdade moderna a satisfação individual prevalece sobre a satisfação do grupo, enquanto que na lealdade tradicional prevaleceria a satisfação do grupo, do que a individual. A lealdade moderna refletiria a inserção da cultura do consumo nos domínios torcedores, mas também a inserção da “ética capitalista” nos círculos gestores, uma vez que foram também a partir de iniciativas dos clubes (das TVs e indústrias que se associaram ao esporte), para expandir o seu público, que se buscou dar espaço e induzir cada vez mais uma conduta consumista de busca de satisfação individual em um intervalo de tempo mais curto, sem compromissos mais duradouros com as tradições das agremiações (embora a ideia de fidelização também faça parte dos objetivos dessa lógica mercantilista). Esse tipo de relação do público esportivo com o clube tem uma historicidade, a qual se apresenta a seguir.

O fim da Segunda Guerra demarca a consolidação dos Estados Unidos como potência mundial, e logo a reconstrução da Europa ocidental alinhada ao projeto capitalista, a partir do Plano Marshall. Nessa época, a sociedade americana já era uma sociedade urbana, que tinha experimentado aumento da renda média dos seus trabalhadores (devido a tecnologia e crescimento econômico do país), a expansão do crédito, o barateamento dos bens de consumo e o próprio aumento do tempo de lazer das camadas mais humildes. Isso ocorria em inter-relação com o projeto de Welfare State (Estado de Bem-Estar) e a posição já socialmente consolidada das mídias de massa. É esse o cenário em que ascende a sociedade de consumo. A partir da década de 1950, a aquisição de automóvel, casa própria, eletrodomésticos e a frequência ao cinema serão itens, entre outros, que vão demarcar a cultura cotidiana do norte-americano comum, "o american way of life".

O consumo, como estilo de vida, a partir de então cada vez mais vai adentrar a vida das pessoas, protagonizado e oferecido a partir das mídias de massa e vivenciado intensamente no tempo livre, o “tempo de entretenimento”. A invenção do televisor e sua disseminação social é um capítulo primordial destacado nesse processo. Esse estilo de vida, que reúne produção em escala industrial e consumo em massa de bens culturais, logo vai se expandir para a Europa e, na sequência, por boa parte do mundo, incorporando o esporte de forma geral, reconfigurando suas bases, a maneira de experenciá-lo e a reconfiguração do seu público. O esporte de alto rendimento que ascende com a sociedade de consumo em massa, que é baseado em práticas mercantis e na adoção de paradigmas empresariais na sua estrutura organizativa, que se associa, se apresenta e se distribui nas mídias de massa, sem limites territoriais e muitas vezes em transmissões via satélite, sob o formato de espetáculo, pode ser sintetizado como esporte espetáculo.

Será nos Estados Unidos que esse paradigma vai dar os seus primeiros passos e obter amplo sucesso (como no futebol americano, beisebol e basquete, por exemplo) configurando, nessa época, já grupos de interesse mais complexos em torno do desporto, somados a um público com uma relação mais consumista com o espetáculo, ao esporte produzido sob a ótica empresarial, ao conceito de ligas e os clubes como franquias. Mesmo na tentativa (que acabou não se consolidando) de implantação de uma liga futebolística, a NASL (1968), as bases serão dadas já sobre o paradigma do esporte espetáculo.

Por outro lado, no futebol tradicional propriamente dito, será na década de 1970, sobretudo a partir da gestão de João Havelange na Fifa que haverá uma associação crescente com empresas de patrocínio (como a Adidas e a Coca-Cola) e televisões: a Copa de 1970 efetivamente “inaugura” o público televisivo via satélite, sendo transmitida ao vivo para vários países. É nesse contexto que os clubes mais destacados vão buscar cada vez mais o formato empresarial e a formação de ligas, promovendo uma ruptura no modelo tradicional híbrido de clubes, aqueles que conjugavam gestão amadora e regime profissional dos atletas. É nesse contexto, também, que o público esportivo se fragmenta, sobretudo se desterritorializa (com a ascensão da TV e das transmissões internacionais), e vai começar a ser repensado em termos estratégicos e otimização de lucros. É também nesse cenário que ascende o público consumidor de futebol, ou a lealdade moderna, conforme aludimos.

Portanto sob a perspectiva da lealdade, o futebol apresentou, em boa parte da sua história, um público esportivo predominante de torcedores que desenvolveram um ligação incondicional (de cunho patriarcal ou religioso) com o clube, enquanto que mais recentemente uma nova forma de lealdade começou a adentrar a configuração esportiva, a qual poderia ser caracterizada apenas por um simpatia com o clube, e pelo desenvolvimento de uma relação mais consumista com o clube centrada na satisfação individual e efêmera em primeiro plano.

Cumpre notar que a relação de simpatia, tampouco parece ser algo novo no desporto. O que efetivamente se destaca como novo é a disseminação dessa forma de pertencimento no desporto, associada a cultura do consumo e a hiperconectividade, fenômenos muito próprios da globalização.

Foto: Pedro Martins/Mowa Press

Torcedores durante jogo da seleção.
 

 

Os tipos de torcedores atuais: fanáticos, seguidores, fans e flâneurs

Duas referências destacadas para entender a transformação torcedora, em termos identitários, durante a globalização são Stewart & Nicholson (2003) e Giulianotti (2012). Stewart e Nicholson promovem uma revisão sobre a temática, mas trazem categorias detalhadas mais na direção do marketing esportivo, que objetivam uma análise principalmente detida sobre o comportamento torcedor em termos de consumo. De todo modo, destacam que análises dicotômicas são superficiais, e que as ferramentas mais sofisticadas de análise são aquelas que abordam os torcedores em subtipos multidimensionais de características, e se completam somente na especificidade das experiências. Giulianotti, por seu turno, elaborou uma categorização dos tipos torcedores mais afinado com a sociologia, debruçando-se mais sobre clubes profissionais que incorporaram estruturas corporativas de gestão, e se tornaram protagonistas na configuração mundial. É este modelo que vamos apresentar a seguir.

O sociólogo inglês pensa esta identidade torcedora (em transformação) envolvendo à lealdade outros elementos e sugere a constituição do torcer e suas variações em quatro diferentes aspectos:

  • um primeiro aspecto seria o nível de pertencimento que o indivíduo partilha com o clube;
  • o segundo, seria o tipo de solidariedade que tem com os círculos sociais do clube (se mais densa ou mais fina);
  • o terceiro seria a relação que estabelece com o clube;
  • e o quarto aspecto seria em que espaço se daria a relação torcedor/clube.

Assim, Giulianotti estabelece quatro tipos ideais pra pensar nos torcedores, de acordo com os aspectos antes destacados no período: fanáticos, seguidores, fãs e flaneurs.

O fanático/supporter

Remeteria ao tipo de torcedor caracterizado pelo apego às tradições do clube, e com uma relação afetiva muito forte com ele. Poderia ser descrito como fanático, desenvolvendo um investimento pessoal e emocional a longo prazo com a instituição e também com os jogadores do clube. Muito das suas relações sociais, da sua personalidade individual e pública seriam moldadas pelo pertencimento clubístico, o que reforçaria o pertencimento. Sua relação com o estádio e espaços do clube se estenderia para além das partidas e geralmente seria demarcada também por uma afetividade semelhante a religiosa, associada a sua própria biografia. Esses laços poderiam ser reforçados (mas não superados) pelo investimento mercantilista deste torcedor (comprando ações ou produtos do clube), que neste caso poderia também desenvolver um compromisso mais consciente de apoio financeiro ao clube (como um sentimento de solidariedade financeira) e menos pela busca de satisfação individual consumista. Seria uma relação semelhante à familiar, eterna e incondicional, em que o indivíduo se sente como uma parte constitutiva do clube. Nesse caso, o clube geralmente também seria um emblema de identificação da comunidade local, de valores partilhados naquele espaço (cívicos ou étnicos, por exemplo). O fanático/supporter se sentiria recompensado pelos seus sacrifícios em cada momento de vitória, ou outro tipo de satisfação proporcionada pelo clube. Este tipo de torcedor formaria verdadeiras subculturas no entorno dos seus clubes, inclusive com hierarquias entre eles em termos de status: ser considerado “mais torcedor” que a maioria (por exemplo, através de qualquer tipo de ação em benefício do clube) poderia ser revertido em algum tipo de ganho (simbólico, material, afetivo) dentro dos círculos sociais do próprio clube.

O seguidor/follower

Seria um segundo tipo, caracterizado como um torcedor mais apegado as tradições do futebol em geral (como outras culturas clubísticas, jogadores e técnicos), mas com posição mais fria em relação aos clubes de forma específica. Eles se manteriam com os clubes porque isso satisfaria seu pertencimento ao mundo do futebol em geral. Ele se identificaria com os clubes e suas comunidades, por valores sociais e culturais, mais do que sobre o sucesso, mas seus laços seriam mais através das mídias e das novas tecnologias, do que de forma pessoal e local. Poderiam desenvolver formas densas ou finas de solidariedade com os círculos sociais do clube e um exemplo, destacado dessa forma torcedora, seria a simpatia por um segundo (ou mais) clube(s) por torcedores que já seriam fanáticos de um primeiro clube. Essa simpatia seria proporcionada pela identificação com as culturas e valores de determinados clubes, ou por alianças entre torcidas. Poderia também ser chamado de uma “identidade aninhada”, e os seguidores embora não desenvolvam forte afetividade pelos espaços e campo dos clubes, respeitam os locais de jogos dos clubes que simpatiza.

Os fãs

Seriam aqueles caracterizados como grandes consumidores. Partilhariam de um sentimento de lealdade aos jogadores e clubes, mas intermediado por uma relação consumista (consumo de produtos e compra de pay per view, por exemplo), unidirecional e na chave fã/celebridade. Sua ligação com o clube dar-se-ia motivada mais na busca da superação da barreira sócio espacial com o clube/ídolos, orientada mais para o consumo e satisfação individual. Sua relação afetiva com o clube, seus círculos sociais nucleares e espaços (como o estádio) geralmente seriam distantes. Poderiam transitar em outros subtipos demonstrando solidariedades densas (comparecendo aos jogos e evocando momentaneamente as tradições do clube, por exemplo) ou finas, (mantendo-se à distância através de relações midiáticas e por plataformas tecnológicas, ou apenas comprando produtos). O que demarca o seu traço identitário principal seria a relação utilitária com o clube, que o faz um vulnerável “alvo” do entretenimento e (portanto) a clubes concorrentes ao escolhido inicialmente ou mesmo a outras formas de lazer (que não o futebol): assim quando a “marca” e a “experiência” não correspondem, podem escolher outra forma lúdica de satisfação, embora dificilmente mudem para o clube rival.

O flâneur

Caracterizado pelo perfil altamente consumista e frio, e baixa solidariedade com os círculos sociais do clube. Este tipo de torcedor buscaria (sobretudo) boas sensações de satisfação individual, e ser associado com sucesso no desporto, através da ligação com as vitórias e com os times em evidência, ou a simples simpatia por um dado evento esportivo: buscaria o status e não o pertencimento na associação com o clube. Sua lógica seria a do movimento, do cosmopolitismo banal (cosmopolita como consumidor), de motivações para estar nos últimos padrões da “moda” e o uso das mídias de ponta, não desenvolvendo (portanto) afetividade e compromisso com um lugar (como um clube, campo ou estádio específico). Os símbolos dos clubes seriam utilizados como adorno e seu perfil seria o do “transeunte descompromissado” que passa pelos clubes, ou pelo futebol, como alguém que passa pela vitrine de um shopping procurando por associação com a “última palavra” em vitórias, espetáculos, clubes em evidência, celebridades, luxo, beleza e modernidade. Às vezes, poderia simular o perfil de um fanático quando filmado, ou fazendo selfies para serem postadas em redes sociais.

Segundo Giulianotti (2002), flaneurs e fanáticos seriam opostos necessários: não haveria movimento, lugares para “viajar” e “consumir”, se não existissem pontos mais fixos demarcados pela tradição e permanência. Entretanto, haveria um crescimento de formas torcedoras mais afinadas com o modelo flaneur e diminuição dos fanáticos, em parte motivado pelas próprias diretrizes que passaram a orientar o futebol espetáculo e de alto rendimento, no qual se privilegia a otimização do lucro nos estádios associado a políticas de encarecimento dos ingressos e a preferência do desenvolvimento dos estádios como ambientes mais “passivos e higienizados”, como se viu crescentemente nas Copas do Mundo ou em clubes mais destacados no mundo. Outro ponto destacado é o papel da “conectividade mediatizada”, que cada vez mais se tornou em evidência, e que crescentemente estimularia e sustentaria alianças entre clubes globais e torcedores não fanáticos.

Para arrematar

Entendo essas categorias como ideais que servem mais como ponto de partida para problematizar a transformação torcedora do que propriamente para delimitá-la. É necessário avaliar cada caso de forma específica, dar luz às experiências e fugir da armadilha da monumentalização teórica que se deleita por si mesma. No Brasil, a categoria “torcedor” poderia ser pensada (como ponto de partida para outras análises) em outras subcategorias ideais como “sócio-torcedor”, “torcedor-organizado”, “torcedor de resultado/bilheteria”, “torcedor segregado” (os expulsos dos novos estádios) “torcedoras mulheres” (que cada vez mais, ainda bem, ocupam o futebol), “torcedores crianças”, “torcedores másters”, “família torcedora”, entre tantos outros arranjos possíveis. Percebe-se, também, que a transformação “torcedora” não é a mesma em clubes globais (onde os clubes mantém núcleos fortes de torcida tradicional associado a uma grande disseminação de torcida simpatizante fora de suas fronteiras) e clubes que permaneceram locais (onde a torcida tradicional prevalece e permanecem sustentando os clubes). Aí, obviamente, é preciso avaliar os objetivos principais da análise. De todo modo, me parece que a questão da lealdade atravessa todas elas e é um tema de afetividade que pela força da sua presença e transformação na vida das pessoas, nos últimos anos, é algo que merece uma atenção especial, inclusive podendo irromper de forma mais explícita em formas simbólicas, em algum outro gol dessa Copa do Mundo.

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio