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Na série 'The Americans', um casal de espiões russos tem de conviver com visões que repudiam
 

Muitas das nossas escolhas têm o potencial de mudar o modo como pensamos sobre o mundo. Frequentemente, as escolhas feitas são por algum tipo de melhoria: para nos ensinar algo, aumentar o entendimento ou aprimorar jeitos de pensar. O que acontece, entretanto, quando uma escolha promete alterar nossa perspectiva cognitiva de maneiras que consideramos prejudiciais em vez de benéficas?

Pense, por exemplo, em Elizabeth e Philip Jennings na série de TV “The Americans” (2013). Eles são espiões russos na década de 1980 que têm de viver nos Estados Unidos e realizar atos de espionagem. Para fazer seu trabalho, precisam perder bastante tempo se associando com pessoas cuja visão de mundo consideram abominável. Precisam construir relacionamentos próximos com muitas dessas pessoas, e isso significa se expor às suas ideias e, frequentemente, agir como se concordassem com essas ideias. Faz muito sentido para uma pessoa com tal atribuição se preocupar com o fato de que, ao cumpri-la, poderá se tornar mais simpática a algumas ideias falsas ou abjetas do que é hoje – não porque ela aprendeu que essas ideias podem ser corretas, mas porque o tempo gasto encontrando essas ideias e fingindo abraçá-las pode fazer com que ela desaprenda, ao menos até certo ponto, um pouco do que ela atualmente entende sobre o mundo.

Não é difícil imaginar outros casos que possam ter esse tipo de estrutura. Talvez o documentário que um amigo te convida a assistir traz uma mensagem que você considera perigosamente falsa. Talvez uma disciplina que você está pensando em estudar envolve pressupostos ideológicos que você rejeita. E assim por diante. Em tais casos, o modo como uma escolha iria alterar sua perspectiva cognitiva é vista como um resultado final negativo. A escolha pode parecer boa mesmo assim – se ela também significa fazer seu trabalho, digamos, ou passar tempo com um amigo que precisa da sua companhia. Mas a perda potencial de sabedoria ou entendimento – o potencial ofuscamento do seu modo de pensar sobre o mundo – é algo que você preferiria evitar se pudesse.

O que permanece preocupante é que a pessoa que age sem consciência, a partir de uma mera crença, pode ainda acreditar que efetivamente tem conhecimento sobre a coisa em questão: que, digamos, as mudanças climáticas são um embuste ou que a Terra tem menos de 10 mil anos de idade

Mas espere. Será mesmo que essa é a maneira certa de pensar sobre esse tipo de situação? Imagine um cético das mudanças climáticas considerando se faz um curso de oceanografia. Suponha que essa pessoa pense: “As mudanças climáticas são um embuste, e se eu me matricular nesse curso ficarei mais inclinado a acreditar nas mudanças climáticas, então talvez eu devesse fazer outra coisa com meu tempo”. Temos palavras para esse tipo de pessoa: dogmática, ideológica, obtusa, com medo da verdade. Esse não é o tipo de pessoa que você deveria querer ser. Mas qual é a diferença entre essa pessoa e o espião que imaginamos, que considera recusar uma missão por causa da maneira como ela poderia confundir seu entendimento da falsidade de certas visões abomináveis?

Esses casos nos trazem um dilema. Quando consideramos como uma certa escolha iria alterar nossa sabedoria, entendimento ou modos de pensar, fazemos isso de acordo com a perspectiva cognitiva que temos exatamente agora. Significa que é segundo a nossa perspectiva cognitiva corrente que determinamos se uma escolha irá resultar em uma melhoria ou um enfraquecimento daquela mesma perspectiva. E essa maneira de proceder parece privilegiar nossa perspectiva atual de modos que são dogmáticos ou obtusos: talvez possamos perder a chance de melhorar nossa situação cognitiva simplesmente porque, de acordo com nosso pensamento corrente, essa melhoria implica uma perda. Entretanto, parece irresponsável se livrar totalmente desse tipo de precaução cognitiva. Qual o limite, entretanto, e quanto é apropriada a precaução? E é correto confiar na sua perspectiva cognitiva corrente, na medida em que você pensa em uma resposta a tais questões? (se não, em qual outra perspectiva você irá confiar?).

O dilema é inescapável, mas apenas quando se abandona uma atraente presunção sobre o tipo de compreensão que temos sobre as razões que orientam nossas ações. Imagine alguém que acredita que sua mercearia local está aberta hoje, então vai até lá comprar leite. Mas a loja não está aberta, afinal – ela não percebeu que hoje era feriado. Mesmo que a loja esteja fechada, seu comportamento ainda tem algum sentido. Ela está indo à loja porque pensa que ela está aberta – não porque está de fato aberta. Faz sentido para essa pessoa ir à loja, mas ela não teria uma razão tão boa para ir lá se não apenas pensasse, mas de fato soubesse que a loja estava aberta. Se esse fosse o caso ela poderia ir à loja porque ela está aberta, não apenas porque ela acredita que esteja. Essa é a distinção que se deve ter em mente.

Agora vamos revisitar os casos do espião e do cético do clima. Vamos supor que a espiã tenha de se infiltrar em um grupo de extremistas de ódio. Ela deveria aceitar a missão? Se a espiã sabe que as opiniões dos extremistas são falsas e abomináveis, ela pode rejeitar a missão por causa dessa falsidade e abominação. E isso se parece de fato com um bom motivo: as visões dos extremistas são abomináveis, e a missão arrisca tornar o espião mais simpático a tais visões, então ela deveria pedir uma outra tarefa.

Entretanto, o mesmo não pode ser dito do cético. O cético não sabe que as mudanças climáticas são um embuste, já que elas simplesmente não são um embuste. Então ele não pode escolher evitar um curso porque as mudanças climáticas são um embuste mais do que a pessoa que imaginamos antes poderia ir à loja porque ela está aberta. Em vez disso, o máximo que o cético pode fazer é evitar o curso porque ele acha que as mudanças climáticas são um embuste – uma escolha que faz sentido, mas não uma que se baseia em um motivo tão bom quanto o cético teria se ele não achasse, mas em vez disso soubesse que isso era verdade.

Se isso está no caminho certo, então a diferença crucial entre a pessoa dogmática ou obtusa e a pessoa que pratica uma precaução cognitiva adequada pode ser que o segundo tipo de pessoa sabe, enquanto a primeira apenas acredita, que a escolha que ela decide contra é aquela que seria prejudicial à sua perspectiva cognitiva. A pessoa que sabe que uma escolha irá prejudicar sua perspectiva pode decidir contra ela simplesmente porque irá fazer isso, enquanto que a pessoa que simplesmente acredita nisso pode fazer a escolha apenas porque é no que credita.

O que permanece preocupante é que a pessoa que age sem consciência, a partir de uma mera crença, pode ainda acreditar que sabe sobre a coisa em questão: que, digamos, as mudanças climáticas são um embuste ou que a Terra tem menos de 10 mil anos de idade. Neste caso, ela irá acreditar que suas chances são fundamentadas nos fatos, e não apenas em suas crenças a respeito delas. Ela irá agir por um tipo pior de razão do que o tipo de razão que ela acredita ter. E o que poderia nos assegurar, quando praticamos a precaução cognitiva de modo a evitar o que achamos ser um possível enfraquecimento do nosso entendimento ou uma perda do nosso entendimento dos fatos, que não estamos nesta situação também?

John Schwenkler é um professor-associado de filosofia na universidade estadual da Flórida, e editor do blog Brains

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