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Nos EUA, aumentou a dependência em ferramentas de organização como planejadores diários

Às vezes parece que nunca há tempo suficiente — insuficiente para dormir ou para se divertir, insuficiente para cozinhar ou para se exercitar.

Existe um termo relativamente novo para descrever essa sensação: fome de tempo, ou a sensação de ter muito o que fazer sem tempo o bastante para fazê-lo.

Para conseguir estruturar o pouco de tempo que sentimos ter, uma estratégia comum é o agendamento. Na verdade, tem aumentado a dependência em ferramentas de organização como planejadores diários. Em duas pesquisas recentes, 51% dos entrevistados disseram usar regularmente seu aplicativo de calendário, enquanto 63% dos funcionários de escritórios consideravam calendários “muito importantes”.

A ideia é que manter um cronograma fará com que você seja mais eficiente. Quando você aloca seu tempo, seu dia é organizado em uma série de compromissos, encontros e chamadas, enquanto o tempo livre é bloqueado para outras atividades ou tarefas.

Mas, em uma série de oito estudos, Gabriela Tonietto, Steve Nowlis e eu descobrimos que às vezes um cronograma pode sair pela culatra — e, na verdade, fazer com que você seja menos produtivo.

Um compromisso se aproxima — e o tempo ‘encolhe’

Muito do lado negativo de estabelecer um cronograma está relacionado à antecipação de um encontro ou compromisso. Quando sabemos que um encontro ou telefonema programado se aproxima, isso pode nos trazer a sensação de que temos menos tempo para fazer o que precisamos.

Em um estudo, perguntamos a participantes de uma conferência acadêmica se eles iriam ao pronunciamento presidencial que iria ocorrer cerca de uma hora depois. Alguns disseram que iriam, e outros disseram que não. Aqueles que planejavam ir relataram que a hora anterior ao evento pareceu mais curta.

Acreditamos que quando um compromisso se aproxima, direcionamos nossa atenção a ele, seja nos preparando mentalmente ou simplesmente temendo-o

Em outro estudo, pedimos à metade dos participantes que imaginasse que um amigo iria chegar em uma hora. À outra metade foi pedido que imaginasse não ter planos. Pedimos a todos os participantes que dissessem quantos minutos eles “subjetivamente” sentiam poder gastar lendo durante aquela mesma hora.

Aqueles que deveriam imaginar que um amigo estava para chegar relataram que a hora logo antes da visita só tinha 40 minutos para serem usados para leitura. Aqueles que deveriam se imaginar sem planos sentiram como se tivessem 49 minutos para ler.

Então a presença de uma atividade futura parece ter diminuído a sensação de quanto tempo as pessoas têm para fazer algo.

Por que isso aconteceria?

Acreditamos que quando há um compromisso se aproximando, direcionamos nossa atenção a ele, seja nos preparando mentalmente ou simplesmente temendo-o. Isto faz com que o futuro encontro pareça mais substancial; como resultado, o intervalo de tempo que leva até a atividade marcada parece limitado e insuficiente.

Livre para fazer… menos?

Acontece que, no fim, a quantidade de tempo até um evento agendado é a mesma.

Então, achar que você tem menos tempo não deveria ser importante, certo? Mas é. O sentimento por si só pode influenciar o que as pessoas decidem fazer.

Sabemos que quando alguma coisa é escassa, as pessoas a consideram mais valiosa e são menos propensas a se separar dela.

O mesmo vale para o tempo. Se o tempo parece limitado, as pessoas tendem a usar menos dele — mesmo quando é do seu interesse.

Então, em outro estudo, demos a participantes um calendário vazio para o dia seguinte e pedimos a eles que o preenchessem, com o máximo de precisão possível, com o que haviam programado (incluindo tempos de preparação e transição). Isso permitiu que calculássemos corretamente quanto tempo livre eles tinham entre cada evento planejado.

Demos então aos participantes a oportunidade de participar de um segundo estudo. Todo mundo fez uma escolha entre participar de um estudo online de 30 minutos que renderia US$ 2,50 ou se inscrever em um estudo online de 45 minutos para receber US$ 5. Cada um aconteceria durante uma janela com duração de uma hora.

Do nosso lado, escolhemos estrategicamente a janela de uma hora para os participantes. Dissemos à metade deles que o estudo aconteceria no período de uma hora antes do evento que tinham marcado. A outra metade iria participar do estudo durante um período de tempo que concluía com uma folga de meia hora antes do evento marcado.

Descobrimos que os participantes do primeiro grupo estavam muito menos propensos a escolher o estudo mais longo, mas mais lucrativo — mesmo tendo tempo mais do que suficiente para completar o estudo.

Em outro estudo, ponderamos se a simples lembrança de um evento próximo teria um efeito similar.

Antes de começar um estudo não relacionado, dissemos à metade dos participantes que eles teriam cerca de cinco minutos para fazer o que quisessem. Dissemos à outra metade que eles tinham cerca de cinco minutos antes que “déssemos início”.

Para aqueles no segundo grupo, a simples menção de “começar algo” foi o suficiente para mudar seu comportamento. Descobrimos que eles se engajaram em menos atividades de maneira significativa, como responder e-mails ou checar as redes sociais, nesse curto período de cinco minutos.

Você tem menos fome do que pensa

Alguns podem pensar que a fome de tempo surge porque há muita coisa para fazer e tempo insuficiente.

Enquanto isso às vezes certamente pode ser o caso, nossos resultados sugerem que a falha também está em nossa própria percepção do que sentimos que pode ser feito com o tempo que temos. Em outras palavras, é importante perceber que podemos estar contribuindo para nossa fome de tempo.

Se você ama programar e planejar seus dias, um truque poderia ser o planejamento de eventos ou tarefas uma depois da outra, o que o deixará com nacos maiores de tempo livre. Várias horas ininterruptas de tempo livre parecerá durar mais, especialmente se não há nada agendado se aproximando.

Pode ser eficaz lembrar a si mesmo que o tempo não é tão curto quanto parece. Mesmo se você não acha que terá tempo o suficiente para terminar algo, você sempre pode começar uma tarefa e terminá-la depois.

Como disse Aristóteles uma vez: “Bem começado é metade feito”.

Selin Malkoc é professora-associada de marketing na universidade estadual de Ohio

The Conversation