Foto: Dion Tavenier/Unsplash

Gelo em derretimento em Jökulsárlón, lago glacial da Islândia
Gelo em derretimento em Jökulsárlón, lago glacial da Islândia

Existe uma crise de confiança na ciência hoje. Muitas pessoas – incluindo políticos e, sim, até mesmo presidentes – expressam dúvidas publicamente a respeito da validade de descobertas científicas. Enquanto isso, instituições científicas e publicações manifestam preocupações sobre a crescente falta de confiança do público na ciência. Como é possível que a ciência, cujos produtos permeiam nossas vidas diárias, fazendo com que sejam mais confortáveis de inúmeras maneiras, suscite tais atitudes negativas entre uma parte substancial da população? Entender porque as pessoas desconfiam da ciência será de grande ajuda no entendimento do que precisa ser feito para que as pessoas levem a ciência mais a sério.

A ideologia política é vista por muitos pesquisadores como o principal culpado do ceticismo em relação à ciência. O sociólogo Gordon Gauchat já mostrou que conservadores políticos nos Estados Unidos têm confiado menos na ciência, uma tendência que começou na década de 1970. E uma porção de pesquisas recentes conduzidas por psicólogos sociais e políticos têm mostrado consistentemente que o ceticismo em relação às mudanças climáticas em particular costuma ser encontrado entre aqueles situados no lado conservador do espectro político. Entretanto, não é apenas a ideologia política que explica o ceticismo em relação à ciência.

As mesmas pesquisas que observaram os efeitos da ideologia política nas atitudes em relação às mudanças climáticas também descobriram que ideologia política não ajuda tanto a prever o ceticismo em relação a outros tópicos de pesquisa controversos. O trabalho do cientista cognitivo Stephan Lewandowsky, assim como a pesquisa conduzida pelo psicólogo Sydney Scott, não constataram nenhuma relação entre ideologia política e atitudes em relação à modificação genética. Lewandowsky também não encontrou nenhuma relação clara entre conservadorismo político e ceticismo quanto a vacinas.

Então há mais que apenas conservadorismo político por trás do ceticismo em relação à ciência. Mas o quê? É importante mapear de forma sistemática quais fatores contribuem ou não para o ceticismo e a falta de confiança na ciência para que consigamos explicações mais precisas sobre por que um número crescente de indivíduos rejeita a noção das mudanças climáticas causadas pelo homem, ou temem que comer produtos geneticamente modificados seja perigoso, ou acreditam que vacinas causem autismo.

Uma relação observada entre conservadorismo político e confiança na ciência pode na realidade ser causada por outra variável, por exemplo, religiosidade

Meus colegas e eu recentemente publicamos um conjunto de estudos que investigou a confiança e o ceticismo em relação à ciência. Uma das mensagens que levamos da pesquisa é de que é importante não tratar todas as formas de ceticismo como uma coisa só. E embora certamente não tenhamos sido os primeiros a olhar para além da ideologia política, notamos duas importantes lacunas na literatura. Primeiro, a religiosidade até agora foi curiosamente pouco pesquisada como precursora do ceticismo em relação à ciência, talvez porque a ideologia política tenha atraído tanto a atenção. Segundo, falta nas pesquisas atuais uma investigação sistemática sobre formas diversas de ceticismo, junto com medidas mais gerais de confiança na ciência. Tentamos corrigir as duas omissões.

As pessoas podem ser céticas ou desconfiadas com relação à ciência por motivos diferentes, seja por causa de uma descoberta específica de uma disciplina (por exemplo, “O clima não está aquecendo, mas eu acredito na evolução”), ou sobre a ciência em geral (“A ciência é apenas uma entre muitas opiniões”). Identificamos quatro principais indicadores de aceitação da ciência e de dúvida da ciência: ideologia política; religiosidade; moralidade; e sabedoria a respeito da ciência. Essas variáveis tendiam a se correlacionar entre si – em alguns casos, com bastante intensidade –, o que significa que são potencialmente confundíveis. Para ilustrar, uma relação observada entre conservadorismo político e confiança na ciência pode na realidade ser causada por outra variável, por exemplo, religiosidade. Sem medir todos os construtos simultaneamente, é difícil avaliar corretamente qual o valor preditivo de cada um.

Então, investigamos a heterogeneidade do ceticismo em relação à ciência entre amostras de participantes norte-americanos (um estudo transnacional de larga escala do ceticismo com a ciência na Europa virá depois). Fornecemos aos participantes declarações sobre mudanças climáticas (por exemplo, “emissões humanas de CO2 causam mudanças climáticas”), modificação genética (por exemplo, “comida geneticamente modificada é uma tecnologia segura e confiável”) e vacinação (por exemplo, “acredito que vacinas têm efeitos colaterais negativos que superam os benefícios da vacinação em crianças”). Participantes podiam indicar até que ponto concordavam ou discordavam com essas declarações. Também medimos a fé geral dos participantes na ciência, e incluímos uma tarefa em que podiam indicar quanto dinheiro federal deveria ser gasto na ciência, em comparação com outras áreas. Medimos o impacto da ideologia política, religiosidade, preocupações morais e conhecimento científico (medido com um teste de educação científica, consistindo de itens falsos ou verdadeiros, tais como “Toda radioatividade é feita por humanos” e “O centro da Terra é muito quente”) nas reações do participantes a essas várias medidas.

A ideologia política não teve um papel significativo na maior parte das nossas avaliações. A única forma de ceticismo com ciência que se destacava de forma consistente entre os respondentes politicamente conservadores em nossos estudos foi, previsivelmente, ceticismo com relação às mudanças climáticas. Mas e outras formas de ceticismo, ou ceticismo com a ciência em geral?

Ceticismo com relação à modificação genética não se relacionava à ideologia política ou crenças religiosas, embora tivesse correlação com conhecimento científico: quanto pior as pessoas iam no teste de educação científica, mais céticas elas eram em relação à comida transgênica. Ceticismo com relação a vacinas também não tinha nenhuma relação com ideologia política, mas era mais forte entre participantes religiosos, e particularmente relacionado a preocupações morais a respeito da naturalidade da vacinação.

Para além do ceticismo específico a uma área, o que observamos sobre uma confiança geral na ciência, e a vontade de apoiar a ciência de forma mais ampla? Os resultados eram bastante claros: a confiança na ciência era, de longe, menor entre os religiosos. Particularmente, a ortodoxia religiosa era um indicativo negativo forte de fé na ciência e os participantes ortodoxos também eram os menos positivos quanto ao investimento de dinheiro federal na ciência. Mas repare aqui outra vez que a ideologia política não contribuiu com qualquer variação significativa sobre e além da religiosidade.

A partir desses estudos existem algumas lições a ser aprendidas sobre a atual crise de fé que assola a ciência. Ceticismo com relação à ciência é bastante diverso. Ademais, a desconfiança da ciência não tem muito a ver com ideologia política, à exceção de ceticismo com relação às mudanças climáticas, que se constata ser consistentemente motivado por política. Além disso, esses resultados sugerem que o ceticismo com a ciência não pode simplesmente ser remediado aumentando o conhecimento das pessoas sobre a ciência. O impacto da educação científica no ceticismo com relação à ciência, na confiança na ciência e na disposição de apoiá-la foi pequeno, com exceção da modificação genética. Algumas pessoas relutam em aceitar descobertas científicas específicas, por razões diversas. Quando o objetivo é combater ceticismo e aumentar a confiança na ciência, um bom ponto de partida é reconhecer que o ceticismo com a ciência vem em várias formas.

Bastiaan T Rutjens é professor-assistente no departamento de Psicologia da Universidade de Amsterdã, na Holanda

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