Foto: Carlo Allegri/Reuters

candy crush
Aplicativos como Candy Crush e HQ Trivia são acusados de sabotar a produtividade no trabalho
 

Quando Branca de Neve cantou “Aprenda uma canção” (que, em inglês, se chama “Assobie enquanto trabalha”), ela estava participando de uma longa tradição de usar o entretenimento para lidar com as dificuldades do trabalho.

Naquele mesmo ano, donos de fábricas no Reino Unido se interessaram em investigar se a música poderia melhorar a produtividade. Eles investiram em pesquisa para determinar as melhores canções para esse fim. Os trabalhadores aprovaram a mudança, encarando-a como um alívio para a monotonia entorpecente da era mecanizada.

Atualmente, smartphones e a internet desempenham esse papel em grande parte, dando a trabalhadores uma variedade de distrações diárias.

Empresas de mídia já perceberam isso e estão investindo cada vez mais no desenvolvimento do que eu chamo de “economia da procrastinação”, focada no desenvolvimento de produtos projetados para aqueles momentos em que pegamos nossos telefones ou navegamos na internet em busca de alguns minutos de distração.

Pode ser durante o percurso entre sua casa e o trabalho ou quando você está em uma sala de espera. Mas o local de trabalho é um lugar especialmente fértil para essas mídias projetadas para desviar a atenção das pessoas da tarefa que estão realizando.

Isso não significa necessariamente que estejamos compulsivamente checando nossos telefones em detrimento de nossa habilidade de fazer bem nosso trabalho. Por mais atraente que seja o Candy Crush, ele não se compara a um salário regular. Não; em vez disso, esses novos produtos podem realçar a camaradagem e se somar às várias maneiras com as quais, por anos, trabalhadores têm enfrentado o dia de trabalho.

Se dispersando da tarefa à mão

Seja o rádio na sala de descanso ou um livro no banheiro, a mídia exerce há anos uma função nos dias úteis.

A era digital transformou a labuta: a linha de montagem deu lugar ao cubículo; e o trabalho passou a exigir engajamento constante com o computador. Esses mesmos computadores também trouxeram sua forma de distração: a internet. Durante um dia de trabalho, empregados agora podem facilmente acessar seus sites de notícias favoritos ou bater papo com amigos.

Pesquisas sobre o uso do computador no trabalho já mostraram que pausas curtas para navegar na internet durante o dia têm benefícios restauradores que melhoram a produtividade

Um desenvolvimento particularmente engenhoso da era é o “botão do chefe”, um truque de computador que transforma uma janela de chat ou videogame em uma planilha anônima. Empregadores combateram essa tendência instalando programas de monitoramento que proíbem a navegação em certos sites.

Com uma ajuda da indústria da tecnologia, empregados encontraram uma nova saída com seus smartphones. Um bom exemplo de como as empresas de celular se posicionaram como aliadas do trabalhador é um comercial de 2009 para o (hoje extinto) Windows Phone que mostrava um empregado entediado convidando aplicativos com forma humana para uma reunião.

Agora trabalhadores têm distrações como o game show de celular ao vivo HQ Trivia à sua disposição. Essa competição diária de conhecimentos gerais atrai cerca de um milhão de jogadores toda tarde de dia útil às 3 da tarde (horário de Nova York). O jogo leva cerca de 15 minutos, com os participantes respondendo 12 perguntas na tentativa de ganhar prêmios em dinheiro.

Esse aplicativo de game show é um exemplo perfeito da economia da procrastinação: ele pede a participantes que planejem seu dia em torno de uma distração rápida, com hora marcada, em que anunciantes pagam para patrociná-la.

‘Lanchando’ pedacinhos de mídia

Uma suposição implícita sobre estas invenções é que elas acabam com a produtividade. Entretanto, pesquisas sobre o uso do computador no trabalho já mostraram que pausas curtas para navegar na internet durante o dia têm benefícios restauradores que melhoram a produtividade, aliviam o estresse, ou preenchem a inatividade entre projetos. Socializar on-line também pode consumir menos tempo que papear com um colega.

Daí existem aqueles que dizem que as formas antigas de procrastinação – passar tempo na sala de descanso, papear no bebedouro – eram melhores porque construíam camaradagem. Críticos dos smartphones frequentemente apontam para as maneiras como eles nos isolam uns dos outros, nos sugando para nossas bolhas.

Mas resulta que esses produtos mais novos da economia da procrastinação podem ajudar a construir a camaradagem. Uma vez que muito conteúdo de mídia digital está disponível sob demanda, colegas podem assistir juntos clipes e episódios curtos. No passado, eles só poderiam ser assistidos em casa. Em minhas observações etnográficas de locais de trabalho modernos, descobri que pessoas frequentemente sincronizam suas horas de intervalo com colegas. Eles então usam seus tablets ou smartphones para selecionar um programa que todos podem curtir e assistir juntos durante a pausa.

Mesmo o HQ Trivia pode unir as pessoas. Seus apresentadores frequentemente promovem o jogo como uma atividade de grupo, uma vez que questões tendem a ser tão desafiadoras que são cada vez mais difíceis de serem corretamente respondidas por só uma pessoa. Professores já pausaram aulas para jogar como grupo, e alguns locais de trabalho transformaram o game show em um exercício de construção de equipe.

HQ é apenas um exemplo no cardápio do que alguns apelidaram de “snacks de mídia”. Eles incluem jogos como Words with Friends, que podem ser jogados em rápidas incursões. Poderia se aplicar também a serviços de assinatura como Netflix, que estão oferecendo especiais de comédia stand-up cada vez mais curtos, que se encaixam confortavelmente nos ritmos do dia, ou talks shows noturnos que dividem segmentos em pequenos pedaços para serem consumidos de forma rápida pelas pessoas no YouTube.

A economia da procrastinação tornou jogos móveis simples em produtos lucrativos. Ela pode fazer um serviço de assinatura se tornar uma fonte vital de conteúdo em casa e no local de trabalho. E a melhor parte? As telas de smartphone são tão pequenas que nem é preciso ter o “botão do chefe”.

Ethan Tussey é professor associado na Escola de Cinema, Mídia e Teatro na Universidade Estadual da Geórgia

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