Curtir está na moda, sobretudo nas redes sociais. A curtição e seus equivalentes ainda não foram tema de abordagem filosófica ou filológica aprofundada, embora sejam objeto recorrente das crônicas cotidianas. Para evitar devaneios excessivos fui me socorrer no Houaiss; um suporte básico e providencial. Ele sugere ao menos dois módulos de significação para o verbo “curtir” e o substantivo correlato. O primeiro, associado ao tratamento a que são submetidos determinados produtos – couro, roupa, bebida, etc – visando alterar a textura, o sabor, a durabilidade ou outra característica original. O segundo módulo, aparentemente descolado do primeiro, remete à noção de êxtase, prazer e sensação agradável.

A conexão entre um sentido e outro – ou a razão pela qual curtir veio a ser veiculado a um prazer e, sobretudo, a uma experiência sensorial – parece ter sido inspirada pela agência do elemento intermediário, responsável pela ação transformadora. Esta associação, até que se prove o contrário, é notadamente brasileira e considerando-se que a incorporação do segundo sentido ao dicionário data dos anos de 1970, é razoável supor que o verbo curtir e o substantivo curtição sejam produtos de uma conexão hippie ou aparentada. Se a hipótese dessa conexão vier a ser confirmada, haveria de ser necessária uma longa digressão, pois os efeitos desejados com a curtição à base de alucinógenos ou similares lembram mais a índole contemporânea dos slow movements do que o frenesi das redes sociais, em particular do Facebook, que tem um recurso específico para essa modalidade de interação.

O “curtir” – a tradução de “like” – possibilita, atualmente, meia dúzia de opções distintas a partir de emojis correspondentes. Uma reportagem do portal UOL, “Botão curtir faz dez anos…”, conta um pouco da história banal desta invenção pelo FriendFeed – uma plataforma incorporada pelo Facebook. A razão da criação do dispositivo, segundo a empresa, não deixa dúvidas quanto à sua finalidade: “nossos usuários disseram que queriam uma forma ultra rápida de mostrar apreço para publicações engraçadas/interessantes/úteis de seus amigos”. Eu acrescentaria uma funcionalidade a mais, a contabilização, como essencial para o entendimento do sucesso do curtir enquanto um fenômeno típico das redes sociais, que acaba se disseminando na sociabilidade convencional cada vez mais permeada pelo trânsito entre os universos on e offline.

Em texto anterior, intitulado “do fosso ao selfie”, usei como mote o surgimento e esvanecimento do fosso – a trincheira que separa as arquibancadas do campo – para ilustrar o processo de reconfiguração dos estádios e dos dispositivos de governamentalidade dos torcedores. Havia prometido retornar ao tema, e o faço agora, procurando estabelecer algumas conexões mais pontuais entre a obsolescência do fosso e a reconfiguração do perfil, da disposição e, sobretudo, da atitude do público nos estádios. O argumento central não é tanto acerca da mudança acima sugerida, pois sobre ela muito já se falou, mas sobre o agenciamento dessa transformação e, particularmente, de como ela estabelece uma coerência entre dada sensibilidade, o torcer nas arenas, e os modos de governo correspondentes, um torcer controlado ou autocontrolado. Saíram de cena – ou quase – certos dispositivos de guerra, como o fosso e a tropa de choque, e entraram outros, como as câmeras, a compartimentação e a individualização dos espaços, o consumo controlado e a conectividade, entre outros, cujo objetivo seria a dissipação da energia suscitada por uma modalidade de emoção potente, associada a um pertencimento coletivo e performatizada por ocasião dos jogos.

Foto: Bruno Domingos/Mowa Press

Torcedores chilenos antes do jogo do Brasil contra a Holanda, 12 de Julho 2014
 

É preciso cercar este tema com cautela. Há muitos trabalhos acadêmicos, incluindo-se teses e dissertações, tratando do assunto sob diversos pontos de vistas, incluindo-se aqueles, mais recentes, que revelam a agência dos torcedores na negociação do padrão Fifa, de modo a acomodar certas formas de torcer que haviam sido preteridas no projeto original, como é o caso da remoção de cadeiras em certos setores das arenas a fim de acomodar as torcidas organizadas. Um dos raros trabalhos que apresenta dados a este respeito é a tese de Getúlio Reale Jr, que realizou um survey no Estádio Olímpico, do Grêmio, pouco antes do seu fechamento, em 2012, e o repetiu na Arena, em 2014. Os dados são até certo ponto surpreendentes, pois a troca de estádio não implicou uma mudança radical no perfil geral do público, sugerindo que a elitização foi um processo gradativo, com duas décadas de duração ao menos, e a arenização a sua consolidação, talvez o ápice.

A arenização constituiria, portanto, um dispositivo entre outros de um processo mais amplo de elitização, embora a história mais alargada do futebol nos revele uma sucessão espiralada entre popularização e elitização. O “folk football” que existiu em diversos contextos europeus até meados do século 19, foi etiquetado pelos ingleses que em seguida o exportaram, tendo a diáspora promovido uma repopularização suportada e incrementada pela escalada do nacionalismo nas primeiras décadas do século 20. A partir de meados deste século o futebol passaria por uma nova elitização, inicialmente de forma mais lenta e em seguida mais intensa, a partir da década de 1980, sendo tal transformação agenciada pelo mercado. Assim poderia ser resumida a história social do futebol se ele fosse visto de fora e de longe, como uma luneta, por exemplo. Todavia, observando-o com uma lupa, podemos especificar alguns contornos mais pontuais, que de todo o modo não contrariam a síntese anterior. Se a lupa fosse usada para mirar as arenas contemporâneas – erigidas de acordo com a lógica do mercado – em contraste com os antigos estádios – feitos para servir os interesses do Estado-Nação -, provavelmente apontaria os espaços mais sensíveis em relação às mudanças como sendo aqueles localizados mais próximos do campo.

Há muita publicidade em torno dos camarotes, mas eles talvez sejam mais significativos para o marketing do que para a antropologia, pois não chegam a constituir uma novidade radical. Espaços destinados a abrigar e destacar um segmento elitizado de público existiram desde os primeiros estádios, quando estes ainda eram muito precários. Os camarotes atuais bem poderiam ser comparados aos pavilhões de outrora, com a ressalva de que agora eles são acessados mediante contrapartida monetária e, ao menos em tese, destinados a uma elite endinheirada. Os espaços equivalentes de outrora eram concebidos para salvaguardar os notáveis de todas as matizes, incluindo-se os dirigentes dos próprios clubes, políticos, empresários e celebridades. Seguindo este raciocínio, a mudança mais radical decorrente da arenização teria ocorrido com aqueles espaços situados próximos do campo, designados como “geral”, “popular”, “[arquibancada] inferior”, “coreia” e assim por diante, pois neste caso houve uma inversão de classe.

De todas as designações acima referidas a mais significativa é a de “geral”, porque flerta com a imprecisão e com a ambivalência; uma “coisa”, portanto. E é justamente por ser impreciso que tal espaço se tornou sinônimo de controvérsias. As “gerais” abrigavam as classes populares ou, na perspectiva dos marxistas, as classes trabalhadoras, e ressoavam ali os códigos morais, estéticos e os padrões de consumo correspondentes. Para a antropologia e outras ciências sociais – como a historiografia, sobretudo – as “gerais” constituíam a quintessência do torcer. Quase sempre que se fez uma generalização sobre o significado do torcer, usou-se e ainda se usa tais espaços como referentes. Durante certo período dizia-se que os torcedores eram alienados, e certamente não era às elites dirigentes ou às classes altas que se tinha em mente com tal acusação. A partir da década de 1970 este discurso foi perdendo força e, entre nós, brasileiros, a virada ocorreria nas décadas seguintes, quando se passou a falar dos estádios como espaços democráticos e representativos da cultura popular. Tais manifestações, incluindo-se as torcidas organizadas, originárias das “gerais”, passaram a ser exaltadas pela efervescência criativa, tanto do ponto de vista estético quanto político.

Paradoxalmente, no entanto, uma outra modalidade discursiva foi emergindo, identificada com as agências de mercado e propalada pela mídia esportiva, dirigentes de clubes e federações, atletas, entre outros. A ideia de que o futebol deveria ser tratado como um negócio – “profissionalismo” foi uma espécie de eufemismo bem bolado – impregnou-se gradativamente na opinião pública, em que pese os revezes na execução do plano, tributados à incapacidade dos dirigentes de posicionarem adequadamente suas locomotivas nos trilhos do mercado. É fato que o dinheiro esteve presente no futebol desde suas origens modernas, inicialmente como negação, nos tempos do amadorismo, e mais tarde admitido e legalizado, com o advento da profissionalização dos jogadores, algo próximo aos anos de 1930. Mas é com a popularização das transmissões televisivas, nas décadas de 1970 e 1980, e o incremento da publicidade vinda a reboque, que o futebol galgou um outro estágio mercadológico. É nesse contexto que sucederam inúmeras e significativas transformações, incluindo-se a profissionalização da formação de jogadores – estou me referindo ao Brasil, que ocupa um lugar específico neste mercado, o de fornecedor de pés-de-obra -, as mudanças na legislação trabalhista e no estatuto das entidades esportivas, a organização de um calendário estável – graças à intervenção das empresas de televisão e de algumas delas em particular – e, por fim, como a cereja do bolo, a arenização – só possível, no Brasil, graças ao financiamento público.

Os estádios que até então eram usados para arrecadar dinheiro para os clubes, através da bilheteria, passaram a ser alvos da publicidade e na sequência o marketing investiu contra os espaços dos torcedores propriamente ditos. O estádio como um todo – desde a sua localização até o seu nome – e cada qual dos seus espaços interiores passaram a ser pensados a partir de uma lógica monetária. As “gerais” e seu público tornaram-se, gradativamente, um inconveniente a ser extirpado, restando-lhe como consolo o acesso aos espetáculos de forma indireta, através do rádio e da televisão. Este tipo de posição raramente é explicitada, mas o discurso em prol do conforto e da segurança não veio acompanhado da ideia de direitos ou de cidadania, mas da majoração dos preços – afinal, teríamos agora um espetáculo de “alto nível”. As “gerais” passaram a ser rotuladas como uma ameaça, e não como um espaço dinâmico e criativo. Aquela gente tão próxima do campo, à espreita de uma oportunidade para invadi-lo, haveria de ser civilizada; ou removida, como de fato aconteceu. Aliás, as “gerais” também se caracterizavam pela ausência de consumo ou por um gasto de coisas bastardas – as camisetas compradas dos camelôs, a cachaça trazida na garrafa de água mineral, etc – e não podendo expropriar ainda mais esta gente – não por escrúpulo moral, mas por impossibilidade econômica mesmo – a solução mais simples e eficaz foi eliminá-la sumariamente.

Esta parte dos estádios era ruidosa e libertária, capaz de expressar seu amor ao clube e aos atletas de forma efusiva ou de dirigir-lhes os impropérios mais grotescos, criando o céu e o inferno com gestos e palavras. Só os “geraldinos” eram capazes de criar um espetáculo outro, para preencher a audição, sobretudo quando o jogo era de tão baixa qualidade que se poderia dispensar o olhar. O gozo das “gerais”, que em termos de conforto poderia ser um inferno, estava no fato de que dali se podia participar das ações, como por exemplo, através de xingamentos dirigidos aos árbitros, jogadores, repórteres e até aos mascotes do clube. Torcer poderia entorpecer; eis a verdade. O ápice era, sem dúvidas, a transposição para dentro de campo quando da final exitosa de um campeonato, ocasião em que nem mesmo o fosso era eficaz.

Agora, acabaram aquelas comemorações desvairadas, de torcedores atravessando o gramado ajoelhados como forma de retribuir aos deuses pelo título com os sacrifícios devidos. Não mais veremos moleques escalando as traves, em êxtase, como se assim pudessem estar mais perto do céu. Ou homens correndo para abraçar e beijar outros homens, usurpando-lhes as vestimentas num dos mais eloquentes cerimoniais antropofágicos modernos. Isso tudo é memória. Talvez tenhamos algo parecido na várzea, em algum campeonato desorganizado Brasil afora ou nesses casos esporádicos em que a conquista ocorre fora do próprio estádio e o reencontro com o público se faz pelas ruas das cidades, como aconteceu recentemente em Porto Alegre, por ocasião da conquista da Libertadores da América pelo Grêmio – uma noite de insônia, de buzinas e bebedeira; e uma manhã e meia tarde de correria atrás da delegação que circulava montada num trio elétrico.

As torcidas organizadas são um subproduto das “gerais”, no que elas têm de bom e de ruim – não vem ao caso separar o joio do trigo. Elas foram capazes de organizar – no sentido de depurar e aprimorar – as manifestações estéticas e políticas dispersas que constituíram, por longas décadas, as gerais. Logo apareceram os líderes, que capturaram aquela anarquia extática e acabaram, em certo sentido, predando a criatividade e a imaginação dos coletivos constituídos ad hoc. Entre outras coisas, passaram a usar estrategicamente tais repertórios nas lutas políticas em benefício próprio, como é o caso daquelas travadas nos bastidores dos clubes.

As “gerais” eram o lugar dos excessos, agora banidos das arenas, sob o pretexto que era preciso extirpar a violência. As torcidas organizadas lograram se reinserir nas arenas, porque são grupos politicamente articulados. O que foi banido, no fim das contas, foi a paixão anárquica, dos torcedores anônimos. Agora temos fãs, uma versão ligth dos fanáticos, gente que nem sempre torce, mas curte o jogo, a arena, o passeio em família, o banheiro asseado, fazer selfies, curtir os selfies alheios e coisas do gênero, como desejado pelo marketing. É um universo das afetações amenas, da curtição e dos códigos etiquetados, razão pela qual as manifestações explícitas de racismo e homofobia tendem à diminuição. Do ponto de vista da governamentalidade, agora a cargo de empresas privadas, este é o perfil de público desejável, que não dá trabalho, apenas lucro, e pode ser deixado às margens do campo acompanhado por uma vigilância branda.

A estratégia foi dispersar a paixão, desfocando o interesse no jogo, nos jogadores, nos adversários, na arbitragem ou nos torcedores que estavam no entorno. Propiciar a interação com os coletivos que se encontram distantes dos estádios tornou-se essencial dentro desta nova política, porque isso ajuda a dissipar as emoções mais intensas. O selfie não atesta apenas que a pessoa está no local dos eventos, senão que propicia uma comunicação com o mundo exterior, em geral uma dada rede social para a qual as imagens são enviadas. Logo será preciso checar quantas curtidas tem o selfie, se alguém postou um comentário e se eventualmente viralizou. E como as redes sociais tendem a ser redes de iguais, de pessoas com perfis selecionados de afins, esvaiu-se aquela oportunidade, tão característica do modo de torcer nas gerais, de abertura para a alteridade, a quintessência do pertencimento clubístico, que na verdade é um despertencimento. Ou seja, desdenhou-se o despreender-se de si, da casa, da rotina, para reencontrar-se com estranhos e reconstituir uma experiência junto a uma coletividade irmanada por uma causa banal e ao mesmo tempo essencial.

A transição do “fosso ao selfie” é uma transição radical, de um modelo de sociedade disciplinar para um modelo de autocontrole, embora possa ter ocorrido de forma gradativa. Na linguagem do marketing, a quem coube agenciar estas transformações, é a transição do fanático ao fã. O fosso era uma aberração; uma forma de governo dos que supostamente não tem governo de si, talvez menos porque lhes falte o controle e mais porque lhes apraz o descontrole eventual. Havia inconvenientes nisso tudo, não há o que contestar. Mas havia algo extraordinário, pois ninguém ali era um indivíduo – um sacrossanto indivíduo! – porque a coletividade promovia a transição à categoria de pessoa, a de torcedor de um clube tal ou qual. E o torcedor, o das “gerais” pelo menos, habita um mundo de alteridades, de outridades radicais, pouco importando que sejam estereotipadas – elas funcionam assim mesmo; são eficazes em suscitar o ódio, a raiva e seus contrários. O que os estádios perderam com as gerais foi esta possibilidade de experimentar o jogo – mais do que o espetáculo – na sua radicalidade.

Nick Hornby escreveu, em Febre de Bola, que ninguém vai ao estádio para experimentar ser ele mesmo; o que se quer é transcendência. É isso que aproxima o futebol – eu diria o clubismo – da religião, do amor, da arte, dos sonhos, das drogas, enfim, de todas aquelas experiências que suscitam o trânsito por universos alternativos. Francamente, não sei muito bem definir a modalidade de transcendência com a qual estão relacionados o selfie, a cadeira numerada e tantos outros consumos típicos das arenas. Até poderia especular, mas por hora é suficiente dizer que são radicalmente distintos de torcer nas gerais.

A arenização seria, por acaso, a liquefação dos estádios e do torcer? Não estou certo se Bauman me autorizaria a analogia, mas a ideia de que curtir é algo diferente de torcer me persegue. Se o que temos agora, onde antes eram as gerais, não é uma “torcida líquida”, então eu vou seguir a intuição “geraldina”, a quem não necessito pedir autorização, para dizer que temos uma “torcida aguada”.

 

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio