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Katzenmusik Charivari Rough Music, ilustração de Jean Grandville (século 19)
Katzenmusik Charivari Rough Music, ilustração de Jean Grandville (século 19)
 

O novo filme “Um lugar silencioso” é a história envolvente de uma família que se esforça para evitar ser ouvida por monstros de ouvidos hipersensíveis. Condicionados pelo medo, eles entendem que o menor ruído provocará uma resposta violenta – e, provavelmente, a morte.

O público tem ido em massa mergulhar os pés nesse terror silencioso, e está adorando: o filme arrecadou mais de US$ 100 milhões nas bilheterias e foi avaliado com 95% de aceitação no Rotten Tomatoes [site que compila avaliações de filmes feitas por críticos nos EUA].

Assim como fábulas e contos de fadas que encenam fobias culturais ou ansiedades, o filme encontra identificação com o público porque algo sobre ele soa verdadeiro. Por centenas de anos, a cultura ocidental tem travado uma guerra contra o barulho.

No entanto, a história dessa busca pela quietude, que explorei escavando arquivos, revela um paradoxo: quanto mais tempo e dinheiro as pessoas gastam tentando evitar o som, mais sensíveis a ele elas ficam.

Fique quieto – estou pensando!

Desde que as pessoas moram perto umas das outras, elas vêm reclamando dos ruídos produzidos pelos vizinhos e ansiando por silêncio.

Em 1660, o filósofo francês Blaise Pascal especulou: “a única causa da infelicidade do homem é ele não saber ficar quieto em seu quarto”. Pascal certamente sabia que isso é mais difícil do que parece.

Mas, em tempos modernos, o problema parece ter piorado exponencialmente. Durante a Revolução Industrial, as pessoas se aglomeraram em cidades com fornos de fábricas que rugiam e apitos de trem que gritavam. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer chamou a cacofonia de “tortura para intelectuais”, defendendo que os pensadores precisavam de quietude para fazer um bom trabalho. Apenas os estúpidos, ele pensou, tolerariam o barulho.

Charles Dickens descreveu sentir-se “assediado, preocupado, cansado, quase levado à loucura pelo barulho dos músicos de rua” em Londres. Em 1856, o jornal The Times fez eco ao seu aborrecimento em relação à “atmosfera barulhenta, confusa e de dispersão” e pediu ao Parlamento para legislar por “um pouco de silêncio”.

Parece que quanto mais as pessoas reclamavam do barulho, mais sensíveis a ele se tornavam. Tome o polemista escocês Thomas Carlyle, que foi morar em Londres em 1831: “Fiquei mais irritado com os barulhos” escreveu ele, “que têm livre acesso pelas minhas janelas abertas”.

Ele ficava tão irritado com vendedores de rua barulhentos que gastou uma fortuna para tornar o estúdio em sua casa à prova de som. Não deu certo. Seus ouvidos hipersensíveis captavam o menor ruído como uma tortura e ele foi forçado a se mudar para o campo.

Guerra ao barulho

No século 20, governos de todo o mundo se engajaram em uma guerra interminável contra pessoas e coisas barulhentas. Depois de silenciar, com sucesso, os rebocadores que atormentavam a varanda de sua mansão em Riverside Avenue, Julia Barnett Rice, esposa do investidor Isaac Rice, fundou a Sociedade para a Supressão do Ruído Desnecessário em Nova York, a fim de combater o que chamou de “uma das maiores ameaças da vida na cidade”.

Com mais de 40 governadores entre seus membros e Mark Twain como seu porta-voz, o grupo usou sua influência política para estabelecer “zonas de silêncio” ao redor de hospitais e escolas. Violar uma zona de silêncio era penalizado com multa, prisão ou ambos.

Mas concentrar-se no barulho só a tornou mais sensível a ele. Como Carlyle, Rice recorreu a arquitetos para construir um lugar silencioso no subsolo de casa, onde o marido, Isaac, podia solucionar suas jogadas de xadrez em paz.

Inspiradas por Rice, organizações antirruído surgiram no mundo todo. Após a Primeira Guerra Mundial, com todos os ouvidos europeus ainda zunindo do barulho das bombas, a cultura transnacional contra o barulho decolou para valer.

Tecnologias barulhentas entraram na mira em cidades de todo o mundo, como a buzina de automóvel Klaxon, que Paris, Londres e Chicago proibiram por decreto na década de 1920. Na década de 1930, o prefeito de Nova York, Fiorello La Guardia, lançou uma campanha por “noites sem ruído”, amparada por dispositivos para medir ruído espalhados pela cidade. Nova York aprovou dezenas de leis nas décadas seguintes para amordaçar os piores criminosos, e cidades do mundo todo seguiram o exemplo. Na década de 1970, os governos tratavam o ruído como uma poluição ambiental, passível de ser regulada como qualquer subproduto industrial.

Os aviões foram forçados a voar mais alto e mais lentamente em áreas povoadas, enquanto as fábricas eram obrigadas a mitigar o ruído que produziam. Em Nova York, o Departamento de Defesa do Meio Ambiente – auxiliado por uma van cheia de aparelhos de medição de som com a mensagem “barulho te deixa nervoso e grosseiro” na lateral – foi atrás de “produtores de barulho” como parte da “Operação Soundtrap”.

Depois de o prefeito Michael Bloomberg instituir novos códigos de ruído em 2007 para garantir “paz e tranquilidade merecidas”, a cidade instalou dispositivos de escuta hipersensíveis para monitorar o ambiente sonoro e os cidadãos foram encorajados a ligar para o 311 para relatar violações.

Consumindo tranquilidade

Ainda assim, legislar contra os barulhentos raramente satisfazia nosso crescente desejo por tranquilidade, assim surgiram produtos e tecnologias para atender à demanda de consumidores cada vez mais sensíveis. No início do século 20, cortinas de abafamento de som, pisos isolantes, divisórias e ventiladores impediam a entrada de ruídos vindos do lado de fora, ao mesmo tempo em que evitavam que os sons incomodassem os vizinhos ou a polícia.

Mas, como Carlyle, Rice e a família de “Um lugar silencioso” descobriram, criar um mundo à prova de ruído é praticamente impossível. De fato, como Hugo Gernsback aprendeu, com sua invenção de 1925, o Isolador - um capacete de chumbo com furos de visualização conectados a um respirador - era inviável. 

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O Isolador, capacete criado por Hugo Gernsback para aumentar o foco e a concentração
O Isolador, capacete criado por Hugo Gernsback para aumentar o foco e a concentração
 

Não importa quão bem pensado é o design, o som indesejado continua a fazer parte da vida cotidiana.

Incapazes de reprimir o barulho, consumidores inquietos começaram a tentar disfarçá-lo, comprando bugigangas como a máquina de ruído branco Sleepmate que auxilia no sono, ou ouvindo em seus aparelhos de som gravações que reproduzem sons da natureza, de ondas quebrando ou o farfalhar de folhas na floresta.

Hoje a indústria da tranquilidade é um mercado internacional em expansão. Existem centenas de aplicativos e tecnologias criados por engenheiros psicoacústicos, incluindo produtos de cancelamento de ruído com algoritmos adaptativos que detectam sons externos e produzem ondas sonoras antifase, tornando-os inaudíveis.

Fones de ouvido como o Beats, do Dr. Dre, prometem uma vida “Acima dos Ruídos”; o Cadillac “Cabine Silenciosa”, que afirma proteger as pessoas do “silencioso filme de terror que existe lá fora”.

Os esforços de marketing para esses produtos tentam nos convencer de que barulho é algo intolerável, e que a única maneira de ser feliz é calando os outros e seus sons indesejáveis. Essa mesma ilusão é retratada em “Um Lugar Silencioso”. O único momento de alívio em todo o “silencioso filme de horror” é quando Evelyn e Lee estão unidas por um fone de ouvido, balançando suavemente ao som de sua própria música, silenciando o mundo fora de seus fones.

Em um anúncio da Sony para seus fones de ouvido com cancelamento de ruído, a empresa retrata um mundo no qual o consumidor existe em uma bolha sonora, em uma paisagem urbana estranhamente vazia.

Já que alguns podem se sentir contentes em seus casulos acústicos pré-fabricados, quanto mais as pessoas se acostumarem à vida sem sons indesejados, mais elas se parecerão com a família retratada em “Um lugar silencioso”. Para ouvidos hipersensibilizados, o mundo se torna algo barulhento e hostil.

Talvez mais do que qualquer espécie alienígena, o verdadeiro monstro é justamente essa intolerante quietude.

Matthew Jordan é professor associado de Estudos de Mídia da Universidade  Estadual da Pensilvânia

The Conversation