Foto: Danny Moloshok /REUTERS

Em 2009, pessoas discutem em frente à prefeitura de Alhambra, na Califórnia, sobre a reforma na saúde pública
Em 2009, pessoas discutem em frente à prefeitura de Alhambra, na Califórnia, sobre a reforma na saúde pública
 

As pessoas discordam o tempo todo, mas nem todas as divergências levam aos mesmos níveis de estresse.

Ainda que as pessoas possam ser apaixonadas por suas equipes esportivas favoritas, elas podem discutir sobre qual time de basquete é o melhor sem destruir amizades. No ambiente de trabalho, colegas podem muitas vezes disputar estratégias e abordagens sem arriscar um rompimento de longo prazo.

Conversas sobre política, por outro lado, parecem ter se tornado especialmente desafiadoras nos últimos tempos. Casos de alta tensão durante jantares de Ação de Graças e amizades desfeitas no Facebook tornaram-se lugares comuns.

Por que isso acontece?

Nossa pesquisa - e pesquisas relacionadas na área de psicologia política - sugere duas amplas explicações.

Primeiro, nosso trabalho mostra que tópicos que dividem opiniões - assuntos que são polarizantes, ou sobre os quais não há consenso na sociedade - podem provocar sentimentos de ansiedade e ameaça. Ou seja, o simples ato de apresentar esses temas parece colocar as pessoas na defensiva.

Segundo, uma pesquisa sobre convicção moral, feita pela psicóloga Linda Skitka e seus colegas, sugere que atitudes ligadas aos valores morais podem contribuir para um distanciamento social. Em outras palavras, se alguém resume sua própria posição sobre um assunto a uma questão de certo e errado, ou do bem contra o mal, é menos provável que ela queira interagir com uma pessoa de quem discorda.

Um gatilho automático de ansiedade

Em nossa pesquisa, definimos tópicos divisivos, que dividem opiniões, como aqueles sobre os quais não há um consenso claro.

Por exemplo, quase todo mundo apoia segurança alimentar; mas se você levantar questões como aborto ou pena de morte, verá as pessoas se posicionando em campos opostos.

As pessoas também gostam de ter uma ideia geral de onde os outros se posicionam, antes de começarem a debater a respeito. Se você está conversando com um desconhecido, não há como saber suas posições sobre um tópico divisivo. Tal situação cria uma incerteza que pode ser desconfortável.

Com essa estrutura em mente, o cientista comportamental Joseph Simons e eu projetamos uma série de estudos, a fim de explorar como isso se dá.

No primeiro teste, simplesmente pedimos aos indivíduos que vissem uma lista de 60 questões da sociedade (variando de água potável à escravidão) e estimamos qual porcentagem estaria a favor daquele tema. Os participantes também pontuaram o quanto se sentiriam ansiosos, ameaçados, interessados ou relaxados ao discutirem aquele tema.

Como esperado, as pessoas acharam que se sentiriam mais ansiosas e ameaçadas quando discutissem um tópico considerado mais divisivo. (Em algumas circunstâncias - por exemplo, quando não tinham uma atitude forte sobre o assunto - elas de alguma forma estavam mais interessadas em discutir esses tópicos.)

Em um segundo teste, investigamos a experiência de ameaça em um nível inconsciente. Ou seja, tópicos divisivos provocam ansiedade automaticamente?

Conduzimos um experimento baseado em uma descoberta da área da psicologia, de que as pessoas nem sempre reconhecem a origem de suas respostas emocionais. Sentimentos evocados por um evento ou um objeto podem transitar para um juízo de valor não relacionado a ele. Neste estudo, os participantes foram apresentados a um tópico popular (por exemplo, apoio aos veteranos de guerra), um tópico impopular (alto desemprego) ou a um tópico divisivo (pesquisa com células-tronco). Eles então viam uma imagem neutra de um rosto, gerada por computador, e tinham de avaliar rapidamente quão ameaçador aquele rosto parecia.

As pessoas eram mais inclinadas a achar que o rosto parecia ameaçador se estivessem pensando no tópico divisivo. (Tópicos impopulares tiveram efeito similar.)

Um terceiro painel replicou esses efeitos usando resultados fictícios de uma pesquisa sobre publicidade de medicamentos direto ao consumidor. Dissemos a alguns participantes que havia um alto consenso público apoiando esse tipo de propaganda, e aos outros que havia muita discordância. Especificamente, dissemos a eles que 20%, 50% ou 80% do público eram a favor desses anúncios.

As pessoas então imaginaram uma discussão sobre o assunto e relataram como se sentiriam. Como em estudos anteriores, aqueles que foram informados de que havia mais discordância tenderam a se sentir mais ameaçados ou ansiosos com a perspectiva de discutir o tema.

‘Certo e errado’ acrescenta uma camada de complicação

Um obstáculo social adicional vai além da mera discordância. Pense em dois indivíduos que se opõem à pena de morte.

Uma delas pode pensar que a pena de morte é moralmente errada, enquanto a outra pode acreditar que ela é ineficiente para deter a criminalidade. Embora ambos defendam fortemente suas posições, o primeiro age com convicção moral.

A pesquisa de Skitka e seus colegas destaca as consequências sociais desses “mandatos morais”. Quando se trata de uma questão de certo ou errado, as pessoas se tornam menos tolerantes com aqueles com visões contrárias. Em específico, indivíduos com fortes convicções morais tendem a não querer se associar àqueles com quem discordam em determinados assuntos. Esse distanciamento social refletiu-se nas respostas à pesquisa - “ficaria feliz em ser amigo desta pessoa” - e também em distanciamento físico, como colocar uma cadeira mais longe da pessoa de quem discorda.

É claro, ninguém nunca vai concordar em todos os assuntos. Mas é importante que as pessoas saibam como os outros pensam, a fim de chegarem a um acordo.

Infelizmente, é mais difícil se chegar a um acordo ou consenso se as pessoas começarem a conversa sentindo-se ameaçadas. E se os indivíduos sentem que alguém que detém uma visão contrária é simplesmente uma má pessoa, o diálogo pode nem acontecer. 

No final das contas, não importa se você está conversando com um estranho ou um amigo; a possibilidade de excluí-lo ou de evitá-lo aumenta quando um tópico divisivo é levantado. 

Não há solução fácil. Às vezes, levantar esses temas pode revelar diferenças irreconciliáveis. Em outras ocasiões, a disposição de abordar com tranquilidade temas difíceis - enquanto realmente se ouve o outro lado - pode ajudar as pessoas a encontrar um terreno comum ou promover mudanças.

Também pode ser útil dar um passo para trás. Um desacordo sobre um único assunto - mesmo que seja um problema moral - não é necessariamente um motivo para terminar uma amizade. Por outro lado, concentrar-se em outros vínculos e valores compartilhados pode resgatar ou fortalecer o relacionamento.

Melanie Green é professora associada de Comunicação da State University de Nova York, em Buffalo.

The Conversation