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No final dos anos 1970, os estudos sobre o futebol eram escassos no país, e alguns autores pioneiros, como os antropólogos José Carlos Rodrigues e Roberto DaMatta, denunciavam o descaso das ciências sociais com um tema tão importante. Rodrigues tinha publicado em 1978, na Revista Comum da Facha (Faculdades Integradas Hélio Alonso), o artigo “O Rei e o Rito”, que se tratava de uma análise sobre a despedida de Pelé da seleção Brasileira. Logo no início de seu artigo, ele apontava o abismo existente entre a popularidade do futebol no país e a negligência de estudos acadêmicos. DaMatta, um pouco depois de ter publicado seu clássico “Carnavais, Malandros e Heróis”, em 1978, organizou em 1982 a coletânea, também clássica, “Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira”. Em artigo que abre a coletânea, intitulado “Esporte na sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro”, DaMatta critica o descaso e a visão do futebol como “ópio do povo”, apesar de não mencionar os artigos que assim tratavam esse esporte.

De qualquer modo, uma rápida busca por artigos acadêmicos neste período nos revela tanto o descaso como a visão do futebol como “ópio” do povo. Além dos trabalhos de Rodrigues e DaMatta, tínhamos as dissertações de mestrado de Simoni Guedes “Futebol-Instituição Zero”, defendida em 1977 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRJ, e a de Ricardo Benzaquen de Araújo, “Os Gênios da Pelota – Um Estudo do Futebol como Profissão”, defendida em 1980 no mesmo programa. Estes dois não tratavam o futebol como “narcótico” da população e partiam de pesquisas empíricas sobre seus temas. Infelizmente, ambos não foram publicados em livros.  Mas eram exceções em suas formas de tratar do objeto.

Na revista Encontros com a Civilização Brasileira, número 5, de 1978, encontramos dois artigos que poderiam fazer parte da menção de Roberto DaMatta aos que viam o futebol como um alienador das massas. Joel Rufino dos Santos em “Na CBD até o papagaio bate continência” critica o que ele chamou de “militarização” da seleção brasileira de futebol e a falta de negros na equipe. Jacob Klintowitz em “A Implantação de um modelo alienígena exótico e outras questões pertinentes: a seleção brasileira de futebol – 1978”, publicado na mesma revista, aponta que “foi adotada na seleção-78 uma linha expressiva não brasileira” e, assim como Santos, denuncia a “militarização” da seleção, critica o excesso de “obediência”, a falta de “dribles” e a “linguagem tecnocrata”.

Nos anos 1980, mais precisamente a partir da publicação do livro Universo do Futebol, o campo acadêmico em tornos dos estudos sobre o futebol no Brasil começa a surgir e a se consolidar. Mais ainda: o tom “apocalíptico” do final dos anos 1970 começa a ganhar outros contornos. O futebol passa a ser visto, principalmente sob a influência de DaMatta, como um “drama” da vida social brasileira, uma porta de entrada privilegiada, porque abrangente e informal, para se entender o país.

Hoje em dia, o campo está consolidado. Pode ser que os que trabalham com a temática ainda sofram algum tipo de preconceito por pesquisar algo que não seria “sério”, mas isso estaria reduzido a alguns casos isolados. Uma das demonstrações de crescimento do campo no país se verifica na criação e expansão de grupos de trabalho e núcleos de pesquisa sobre o fenômeno esportivo em congressos científicos como, por exemplo, Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, Associação Brasileira de Antropologia, Sociedade Brasileira de Sociologia, entre outros. E, dentro da rubrica “esporte” estariam abrigados os estudos sobre futebol. Não somente aqui, mas fora do país, são muito os congressos com mesas e grupos de trabalho sobre o esporte. Só para citar alguns: International Association for Media and Comunication Reearch, Asociación Latinoamericana de Sociología, Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación , Latin American Studies Association, entre outros.

Quando em 1990, publiquei pela Brasiliense o livro “O que é sociologia do esporte”, onde também falava do descaso da academia com o futebol, não poderia imaginar que duas décadas depois o tema passasse a ter tantos pesquisadores e fosse, de fato, respeitado e levado a sério pela academia. E sem ter ainda noção da “invenção” da internet e do como ela transformaria o cotidiano de muitos, jamais poderia imaginar um portal como o Ludopédio, que presta um serviço ímpar aos estudos sobre o futebol.

Hans Ulrich Gumbrecht, em “Elogio da Beleza Atlética“ (2007), escreveu que muitos intelectuais, mesmo os que gostam de esporte, “se sentem obrigados a interpretar o esporte como um sintoma de tendências altamente indesejáveis”. Creio que foi mais ou menos isso que aconteceu no início da história sobre o futebol como um tema acadêmico no Brasil. Gumbrecht coloca ainda que os intelectuais têm de “aceitar que assistir a um evento esportivo corresponde a uma experiência estética, tal qual apreciar um concerto ou uma pintura.” Pois eu acho que é mais do que isso. As manifestações coletivas oriundas de um esporte como o futebol, onde as paixões clubísticas preponderam sobre a “experiência estética”, são ricas em representações da coletividade e podem nos ajudar a compreender as relações identitárias, de pertencimento, que o ato de torcer provoca nos indivíduos.

Que sigamos em frente, pesquisando, estudando e debatendo academicamente temas relacionados ao futebol.

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio