Foto: Geoff Why/Creative Commons

A patinadora Nacy Kerrigan em ação

Ao assistir às provas de patinação artística (ou figure skating) nesses últimos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang, Coreia do Sul, nada muito diferente de edições anteriores recentes apareceu. Talvez alguém novo na modalidade, uma coreografia melhorada, uma trilha sonora mais acertada. As vestimentas sempre são uma surpresa à parte, visto que, em geral, o figurino também é um componente importante na apresentação, para qualquer gênero e mesmo para as duplas. Apesar de algumas rusgas entre patinadoras ou entre competidores de diferentes países, até hoje não houve um caso tão dramático e polêmico nesta modalidade quanto o de Tonya Harding e Nancy Kerrigan, datado dos idos dos anos 1990.

Ambas contemporâneas, elas tiveram parte de suas trajetórias como atletas vinculadas à equipe estadunidense de patinação, uma das mais competitivas nos esportes de inverno. Kerrigan já havia figurado nas competições nacionais no final dos anos 1980 e, progressivamente, conseguiu bons resultados: 12º lugar (na temporada 1987-1988), 5º (na de 1988-1989), 4º (na de 1989-1990), 3º (na de 1990-1991), 2º (na de 1991-1992) e 1º (na de 1992-1993).  Harding entrou nos nacionais de patinação um pouco antes e teve uma trajetória não tão regular em termos de rendimento esportivo, mas mesmo assim digna de nota: 6º lugar (na temporada 1985-1986), 5º lugar (na de 1986-1987), 5º (na de 1987-1988), 3º (na de 1988-1989), 7º (na de 1989-1990), 1º (na 1990-1991), 3º (na de 1991-1992) e 4º (na de 1992-1993). Rivais no ringue de patinação, amigas fora dele. Até que um incidente mudou essa situação para sempre.

Em janeiro de 1994, às vésperas do campeonato nacional de patinação em Detroit, numa tarde comum de treinos, Kerrigan foi atacada por alguém com uma barra pesada de metal que, segundo ela, queria quebrar suas pernas. Até hoje se pode assistir à gravação postada no YouTube do curto vídeo dela saindo da sessão de treinos e, segundos após, sentada no chão, chorando e gritando “why? why?” (por quê? por quê?). As cenas e os mistérios decorrentes do ataque abalaram mundo esportivo dos Estados Unidos e deixaram perplexos fãs da carismática patinadora. As especulações já apontavam que, dependendo da gravidade, Kerrigan seria cortada da equipe de patinação que participaria dos Jogos de Inverno de Lillihammer, na Noruega, a ocorrer no mesmo ano. Com Kerrigan fora, quem se daria bem era a rival, e compatriota, Tonya Harding.

De “promessa” da modalidade no país, Harding passou a ser vista como imoral, antidesportiva, desonesta.

Com as investigações policiais do FBI, descobriu-se que os mentores do ataque tinham sido o marido de Harding (Jeff Gillooly) e seu guarda-costas (Shawn Eckhardt), que contrataram dois capangas para “assustarem” a patinadora rival. Harding negou envolvimento no início. No mundo esportivo, ela era uma das melhores patinadoras naqueles anos. Lembro-me de falas jornalísticas da época em programas de esportes do canal Bandeirantes, que ao mesmo tempo em que a elogiavam por ter sido a primeira patinadora nos EUA a realizar o famoso o salto Axel triplo, também a consideravam “agressiva, temperamental e altamente competitiva”.

Nos Jogos Olímpicos de Inverno em Lillihammer, que ocorreram entre 12 e 24 de fevereiro de 1994, Harding teve problemas com os cordões de seus patins e não conseguiu um bom resultado (repetiu a apresentação mediante permissão do júri, mas acabou ficando em 8º lugar). Kerrigan, apesar da apresentação impecável, foi superada por Oksana Baiul e ficou com a medalha de prata.. Meses após os Jogos, Harding procurou a imprensa para dizer-se arrependida por saber da conspiração do marido e não ter avisado a polícia, o que lhe causou a cassação do resultado obtido na 77ª edição do United States Figure Skating Championships (Campeonato Estadunidense de Patinação Artística), da temporada 1993-1994 que a selecionou para Lillihammer. Além disso, a Federação Estadunidense de Patinação cumpriu a ordem judicial de suspendê-la vitaliciamente por concluir que ela sabia da conspiração contra a adversária.

O incidente com Kerrigan ganhou grande repercussão nacional e internacional por meses. Recebeu intensa cobertura de canais de televisão e jornais escritos, todos querendo entender, afinal, o que tinha ocorrido e quem seria responsável pelo ataque. De “promessa” da modalidade no país, Harding passou a ser vista como imoral, antidesportiva, desonesta. Para uma nação que oscila bipolarmente entre “queridinhos” e “odiados”, Harding acabou sendo tratada como vilã, pela mídia esportiva e sociedade norte-americanas.

Coincidência ou não, no início de 2018, em meio aos Jogos de Inverno de Pyeongchang estreou no Brasil o filme “Eu, Tonya” (2017, dirigido por Craig Gillespie), que detalha os fatos do ataque e os desdobramentos a partir dele. O enredo traz os fatos reais, mas é propositalmente sarcástico sobre eles. Não se preocupa com a acurácia, nem com a versão oficial ou “politicamente correta” do ocorrido. Talvez tenha sido intenção do roteirista (Steven Rogers) e do diretor provocarem incertezas quanto a um acontecimento sobre o qual há inúmeras versões.

O que mais vale é o filme ser uma cinebiografia inusitada, não usual, a partir do lado da suposta vilã (Tonya Harding) e não ter a pretensão nem salvacionista, nem acusatória sobre sua figura. Talvez o mérito da obra cinematográfica seja, justamente, ter partido de um episódio real grave dentro da história do esporte e tê-lo decodificado via múltiplas (e possíveis) explicações para o incidente. Apesar de tudo o que ocorreu, temos a impressão de que Tonya foi a maior injustiçada de toda a história.

Portanto, a produção fílmica mostra nas entrelinhas que, mais de duas décadas depois do episódio, não apenas o mistério permanece (se Harding disse a verdade quando confessou não saber da conspiração e do ataque), como ainda incomoda muita gente. Há quem defenda a atleta, argumentando que ela se tornou vítima das circunstâncias (de uma mãe desequilibrada e esquizofrênica e de um marido opressor e violento) e de uma mídia interesseira, numa sociedade hipócrita. Há quem a condene, reforçando o quanto poderia ter sido injusto com Kerrigan se algo grave tivesse ocorrido. Do lado de cá dos espectadores/as esportivos/as, vale saber da história, vale ver o filme!

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio