Foto: Radu Sigheti/Reuters

mulheres nigerianas
Diferentes culturas podem ter estilos de pensamento diversos
 

A disciplina acadêmica da psicologia foi desenvolvida em grande parte na América do Norte e Europa. Alguns defenderiam que ela é incrivelmente bem-sucedida no entendimento do que impulsiona o comportamento humano e os processos mentais. Há muito tempo acredita-se que esses são universais. Mas, em décadas recentes, alguns pesquisadores começaram a questionar essa abordagem, argumentando que muitos fenômenos psicológicos são moldados pela cultura em que vivemos.

Claramente, humanos são similares em muitas maneiras — compartilhamos a mesma fisiologia e temos as mesmas necessidades básicas, tais como nutrição, segurança e sexualidade. Então, qual o efeito que a cultura realmente pode ter em aspectos fundamentais da nossa psiquê, tais como percepção, cognição e personalidade? Vamos dar uma olhada na evidência existente.

Geralmente, psicólogos experimentais estudam comportamento em um grupo pequeno de pessoas, pressupondo que isso pode ser generalizado para a população humana de modo mais amplo. Se a população é considerada homogênea, então tais inferências podem de fato ser feitas a partir de uma amostra aleatória.

Entretanto, esse não é o caso. Faz tempo que psicólogos têm se apoiado desproporcionalmente em estudantes universitários para conduzir seus estudos, apenas porque estão facilmente disponíveis para os pesquisadores nas universidades. Mais dramático ainda é o fato de que mais de 90% dos participantes de estudos psicológicos vêm de países ocidentais, com bons níveis de educação, industrializados, ricos e democráticos (em inglês, as iniciais destas categorias formam o acrônimo W.E.I.R.D.; também em inglês, “weird” é “estranho”). Claramente, nenhum desses países é uma amostra aleatória ou representativa da população humana.

Estilos de pensamento

Avalie quais destes objetos formam um par: um panda, um macaco e uma banana. Entrevistados de países ocidentais geralmente selecionam o macaco e o panda, porque ambos são animais. É uma indicação de um modo de pensar analítico, em que objetos são em grande parte compreendidos separadamente do seu contexto.

Em comparação, participantes de países orientais frequentemente selecionaram o macaco e a banana, porque esses objetos pertencem ao mesmo ambiente e se relacionam (macacos comem bananas). É um modo de pensar holístico, em que objeto e contexto são vistos como inter-relacionados.

Em muitas partes do mundo, as pessoas se descrevem primeiramente como parte de diferentes relações sociais e fortemente conectadas com as outras

Em uma demonstração clássica de diferenças culturais em estilos de pensamento, uma série de cenas animadas foi mostrada a participantes do Japão e dos EUA. Com duração de cerca de 20 segundos, cada cena mostrou várias criaturas aquáticas, vegetação e rochas em um ambiente subaquático. Em uma tarefa de memória subsequente, os dois grupos de participantes lembraram dos objetos salientes e dos peixes grandes em igual medida. Mas os participantes japoneses eram melhores que os americanos em lembrar informações do cenário, tais como a cor da água. Isso ocorre porque o pensamento holístico foca no cenário e no contexto tanto quanto no que está em primeiro plano.

Isso claramente demonstra como diferenças culturais podem afetar algo tão fundamental quanto a memória – qualquer teoria a respeito deveria levar isso em conta. Estudos subsequentes mostraram que diferenças culturais em estilos de pensamento estão por toda parte na cognição – afetando memória, atenção, percepção, raciocínio e como falamos e pensamos.

O eu

Se você tivesse que se descrever, o que diria? Você se descreveria em termos de características pessoais – ser inteligente ou engraçado – ou usaria preferências como “eu amo pizza”?  Ou talvez você optaria por se basear em relações sociais, dizendo algo como “sou um pai”? Psicólogos sociais sustentam faz tempo que pessoas têm maior probabilidade de descrever a si mesmo e aos outros em termos de características pessoais estáveis.

Entretanto, a maneira como as pessoas se descrevem parece estar ligada à cultura. Indivíduos do mundo ocidental têm mais chance de se enxergar como indivíduos livres, autônomos e únicos, possuidores de um conjunto de características fixas. Mas, em muitas outras partes do mundo, as pessoas se descrevem primeiramente como parte de diferentes relações sociais e fortemente conectadas com as outras. Isso é mais prevalente na Ásia, África e América Latina. Essas diferenças estão disseminadas e já foram ligadas a diferenças em relações sociais, motivação e criação.

A diferença na auto-definição já foi demonstrada até no nível cerebral. Em um estudo com ressonância magnética funcional (fMRI), participantes chineses e americanos tinham de dizer quão bem diferentes adjetivos os representavam. Eles também tinham de pensar sobre o quão bem as qualidades representavam sua mãe (as mães não participaram do estudo), enquanto eram examinados.

Entre os participantes americanos, havia uma clara diferença nas reações cerebrais entre pensar sobre o eu e a mãe no “córtex medial pré-frontal”, que é a região do cérebro tipicamente associada com apresentações de si mesmo. Entretanto, nos participantes chineses, havia pouca diferença entre o eu e a mãe, sugerindo que a auto-apresentação tinha uma grande sobreposição com a apresentação de um parente próximo.

Saúde mental

Outro terreno que foi originalmente dominado por estudos baseados em amostras de W.E.I.R.D. é a saúde mental. Entretanto, a cultura pode afetar nosso entendimento da saúde mental de diferentes maneiras. Devido à existência de diferenças culturais no comportamento, o quadro – baseado na detecção de comportamentos anormais ou não-normativos – não é completo. O que pode ser visto como normal em uma cultura (modéstia) pode ser visto como fora do normal em outra (fobia social).

Além disso, algumas síndromes culturalmente específicas foram identificadas. Pessoas que sofrem de “koro” (tipicamente da Ásia) são homens que acreditam erroneamente que seus órgãos genitais estão encolhendo e irão desaparecer. Hikikomori (tipicamente do Japão) é uma condição que descreve indivíduos reclusos que se abstêm da vida social. Enquanto isso, a síndrome do “mau-olhado” (típica de países mediterrâneos) é a crença de que a inveja ou outras formas de olhar maldoso dão azar para quem o recebe.

A existência desse tipo de síndrome ligada à cultura foi reconhecida recentemente pela Organização Mundial da Saúde e pela Associação Psiquiátrica Americana, uma vez que algumas delas foram incluídas em suas respectivas classificações de doenças mentais.

Claramente, a cultura tem um efeito grande em como nos vemos e em como somos vistos por outros – estamos apenas começando a entender o que acontece. Este campo, agora conhecido como “psicologia intercultural”, é cada vez mais ensinado em universidades em todo o mundo. A questão é o quanto ela irá informar a psicologia em seu avanço – alguns a veem como uma dimensão a mais, enquanto para outros ela é parte integral e central da construção de teorias.

Com mais pesquisas, poderemos bem descobrir que diferenças culturais se espalham por ainda mais áreas em que antes se acreditava que o comportamento humano era universal. Mas apenas sabendo sobre esses efeitos poderemos ser capazes de identificar as bases primordiais da mente humana compartilhadas por todos nós.

Nicolas Geeraert é professor-sênior do departamento de psicologia da Universidade de Essex (Reino Unido)

The Conversation