Foto: Jorge Silva/Reuters

indicador
Estender um dedo indicador é um gesto instintivo quando se quer mostrar algo
 

Polvos têm braços longos e muita esperteza, mas não apontam. Nem o fazem chimpanzés, gorilas e outros símios, pelo menos não em estado selvagem.

Humanos, por outro lado, são apontadores prodigiosos. Crianças se utilizam do gesto antes que possam tocar, geralmente por volta de um ano de idade. Aos 2, passeiam por aí, dedos indicadores varrendo o mundo como holofotes.

Apontar parece estar na nossa natureza. Quando as pessoas querem chamar a atenção para algo, instintivamente estendem um dedo indicador. Esse gesto tem sido observado por todo o globo, sugerindo ser um impulso humano universal, talvez como bocejar ou rir.

Mas uma pesquisa que eu e meus colaboradores publicamos recentemente mostra que apontar simplesmente não é uma questão de natureza humana. A maneira como apontamos é também uma questão cultural. Esses achados sugerem que cientistas cognitivos ainda têm muito que aprender com outras culturas sobre o porquê dos comportamentos humanos.

Comprimindo e olhando

Em 2009, meu colaborador Rafael Nuñez e eu participamos de um projeto de trabalho de campo no interior remoto da Papua Nova Guiné. O objetivo era estudar a língua e a cultura dos Yupno, um grupo indígena de cerca de 8 mil pessoas.

Enquanto conduzíamos nossas entrevistas, notamos a maneira peculiar com que os Yupno apontavam. Eles comprimiam o nariz enquanto olhavam na direção de onde quer que queriam direcionar sua atenção. Para quem era de fora, poderia facilmente parecer uma expressão de aversão. Mas não há nada de negativo a respeito dela.

Mesmo na cultura americana, apontar não acontece sempre do mesmo jeito. Quando nossas mãos estão cheias e precisamos apontar, balançamos a cabeça

Acontece que este gesto de “apontar o nariz” estava essencialmente sub-documentado. Depois de retornarmos aos Estados Unidos, publicamos algumas observações preliminares usando exemplos de nossos vídeos. Mas o estudo deixou uma porção de questões sem resposta. Uma em particular aparecia repetidamente: apontar com o rosto era apenas uma idiossincrasia pouco frequente, ou será que os Yupno a usavam tanto – ou mais – que apontar com o dedo? Não tínhamos uma boa resposta. 

Outros pesquisadores já haviam contestado o significado de apontar com o rosto. Um deles descartou o gesto como simplesmente uma “alternativa ocasional” a apontar com a mão. Outros defenderam que, em culturas indígenas como os Cuna, do Panamá, ou os Pirahá, do Brasil, apontar com o rosto é na verdade preferível do que apontar com o dedo.

Nenhuma destas alegações, entretanto, veio apoiada por provas coletadas de forma sistemática. Então, quando retornamos ao vale Yupno – agora ao lado de outro colaborador, James Slotta – foi com o objetivo de documentar o modo de apontar dos Yupno de maneira mais rigorosa e, no processo, opinar em uma questão maior: os humanos preferem, universalmente, apontar com suas mãos?

Criamos um simples jogo de comunicação para ser jogado em pares. Uma pessoa senta com cinco panos quadrados no chão à sua frente, formando um sinal de mais. Ao lado, está uma bandeja com alguns pequenos objetos coloridos nela – pufes, cilindros e cubos. A pessoa vê uma foto com oito dos objetos dispostos nos panos quadrados de uma maneira específica. Sua tarefa é dizer ao parceiro como arranjar os objetos de modo a ficar igual à foto. As instruções não mencionam o ato de apontar. Se presume que os jogadores irão espontaneamente apontar de modo a instruir seu parceiro.

Jogamos este jogo com 16 adultos Yupno e então, mais tarde, com 16 universitários na Califórnia. Os Yupno e os americanos apontaram com a mesma frequência. Mas a maneira como apontaram foi outra história. Como se pode adivinhar, os americanos quase sempre usaram as mãos – 95% das vezes, na verdade. Mas os participantes Yupno usaram as mãos muito menos – em apenas 35% das vezes. O resto do tempo eles apontaram com o gesto do nariz comprimido ou só uma mexida de cabeça.

Entre os Yupno, pelo menos, apontar com o rosto não é apenas uma “alternativa ocasional”. Nosso experimento mostra que é como eles reagem ao impulso de apontar.

Questões críticas

Por que os Yupno apontam desta forma? Não sabemos a resposta completa ainda.

Os Yupno valorizam bastante a comunicação discreta, então pode ser que eles usem o rosto para apontar porque é uma maneira menos chamativa do que apontar com os dedos. Ou poderia ter relação com a língua Yupno, que ostenta um conjunto anormalmente grande de demonstrativos (palavras como “este” ou “aquele” são frequentemente usadas junto com o gesto de apontar). Ou poderia ser simplesmente porque as mãos do povo Yupno estão quase sempre ocupadas com tarefas diárias que eles apenas se acostumaram a apontar sem elas.

Mesmo na cultura americana, apontar não acontece sempre do mesmo jeito. Quando nossas mãos estão cheias e precisamos apontar, balançamos a cabeça; se tentamos ser discretos, usamos nossos olhos para direcionar um olhar.

Outras culturas têm convenções mais ostensivas – e, para olhos ocidentais, mais animadas – de apontar sem as mãos. Em partes da América do Sul, Ásia e África, é comum apontar com os lábios. Para fazer isso, você aperta, projeta ou faz um bico com seus lábios, enquanto olha para onde está querendo dirigir sua atenção.

Quando um estudo descobre que outra cultura faz algo de modo diferente, é natural perguntar porque “eles” fazem o que fazem. Mas descobertas multiculturais frequentemente também levantam questões sobre porque “nós” fazemos o que fazemos. Nossa pesquisa não é uma exceção. Apontar com o rosto de uma forma ou outra é algo totalmente comum em comunidades indígenas por todo o mundo. Mas é absolutamente ausente de metrópoles importantes. Você não vê habitantes do Brooklyn comprimindo o nariz para apontar ou londrinos apontando com os lábios. Por que não? Futuros trabalhos podem bem revelar algo que explica a propensão de nossa cultura por usar o dedo indicador.

Nosso estudo não é o primeiro a encorajar o repensar do que é “natural”. Cientistas cognitivos uma vez pressupunham que as pessoas em toda parte preferiam as palavras “esquerda” e “direita” no lugar de “leste” e “oeste” quando se referiam ao espaço. Eles também pensavam que os humanos eram universalmente bons de contar e ruins de descrever cheiros.

Não mais. Em cada caso, agora sabemos que estes comportamentos têm suas raízes na natureza e na cultura. Nossos corpos e cérebros certamente estabelecem limites em nossos comportamentos. Mas estamos ainda tentando descobrir onde estão esses limites.

É aí que uma pesquisa multicultural como a nossa entra. Se quisermos entender de onde vêm nossos comportamentos, precisamos perguntar como esses comportamentos variam de um grupo para o outro. Tão frequentemente – mesmo no caso dos nossos comportamentos mais familiares – há mais nas respostas do que poderíamos supor.

Kensy Cooperrider é um acadêmico com pós-doutorado em Psicologia, Universidade de Chicago

The Conversation