Foto: Lucy Nicholson/Reuters

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Desejos das mulheres são vistos como secundários em relação aos dos homens

O movimento #MeToo obteve enorme sucesso em despertar a conscientização a respeito de assédio e agressão sexuais. O esforço enfrentou reações, tais como tuítes recentes de Donald Trump defendendo que vidas foram arruinadas pelas acusações – e que não há recuperação para aqueles acusados falsamente.

Enquanto acusações maniqueístas desse tipo podem sufocar o diálogo construtivo, outras narrativas podem evidenciar áreas cinzentas que inspiram questões importantes a respeito de gênero ou sexo indesejado.

Um exemplo é a queixa pública de uma mulher que, usando o pseudônimo “Grace”, descreveu um encontro sexual indesejado com o ator Aziz Ansari. Em um artigo publicado na revista on-line Babe, Grace relata um encontro que ela depois viria a entender como violação sexual. Grace conta que realizou sexo oral em Ansari depois de seus repetidos pedidos por penetração, que ela considerou inapropriados. Críticos acusaram Grace de diminuir a credibilidade do movimento #MeToo ao se retratar como vítima depois de se arrepender de sua participação consensual em uma atividade sexual indesejada.

A história de Grace inspira a pergunta: “Por que uma jovem participaria voluntariamente de uma atividade sexual que pessoalmente não deseja?”

Consentimento sexual e desejo não são a mesma coisa

Para responder a essa questão, é importante entender que sexo consensual e sexo desejado não são sempre sinônimos. Tanto homens como mulheres jovens podem concordar em se envolver em atividades sexuais que pessoalmente não desejam. Entretanto, narrativas culturais em torno de relacionamentos heterossexuais podem fazer com que isso seja uma realidade mais frequente para mulheres do que para homens.

Jovens adultos estão moldando seus relacionamentos sexuais em um momento único, em que conversas sobre sexo, poder e violência estão mudando de maneiras importantes

Representações culturais de sexualidade heterossexual frequentemente retratam homens jovens como tendo desejo sexual mais forte do que jovens mulheres. Espera-se que homens façam investidas sexuais em cima das mulheres – e espera-se que as mulheres apenas respondam a essas investidas. O desejo e o prazer sexual de jovens mulheres são vistos como secundários em relação aos desejos dos jovens homens. Isso pode fazer com que jovens mulheres aceitem investidas indesejadas e participem em sexo indesejado com o propósito de agradar um parceiro masculino.

Como já defendeu a psicóloga Deborah Tolman, mensagens culturais que retratam jovens mulheres como objetos do desejo de jovens homens, em vez de sujeitos que possuem seu próprio desejo, podem tornar as mulheres vulneráveis às vontades de outros.

O perigo de não se reconhecer o desejo

Jovens mulheres que não enxergam seus próprios desejos e vontades como uma razão adequada para se envolver em atividade sexual têm pouca probabilidade de interpretar sua falta de desejo como razão para recusar atividade sexual em um cenário qualquer. Elas podem distanciar sua justificativa para atividade sexual da exploração de seus próprios desejos, movendo-a em direção à satisfação dos desejos do parceiro masculino.

Como socióloga que estuda poder e sexualidade, testei essa hipótese com dados de uma amostra de mais de 7.000 mulheres universitárias heterossexuais que relataram seu encontro mais recente. Descobri que quase um terço das jovens mulheres da amostra declararam priorizar o prazer sexual de seu parceiro em vez do seu próprio. Essas mulheres acreditavam que era mais importante satisfazer seus parceiros do que seus parceiros as satisfazerem.

Cerca de metade das mulheres na amostra reportaram que era importante que o sexo fosse prazeroso tanto para o parceiro como para elas mesmas.

Ao comparar esses dois grupos de mulheres, descobri que as mulheres que valorizavam de maneira igual o prazer de seu parceiro e o seu tinham 35% menos chance de desempenhar atos sexuais indesejados só para satisfazer o parceiro. Elas tinham menos chances de realizar estimulação oral ou manual sem estarem interessadas no sexo, apenas porque sentiam que deveriam satisfazer sexualmente seu parceiro.

Com relação a investidas sexuais, descobri que mais de 60% das mulheres na amostra relataram que seu parceiro iniciou a maior parte da atividade sexual durante seu último encontro. Cerca de 10% das mulheres reportaram que eram elas as que iniciavam a maior parte da atividade sexual. Minha comparação desses dois grupos de mulheres revelou que aquelas que iniciaram a maior parte da atividade sexual em seu encontro mais recente tinham 34% menos chance de desempenhar atos sexuais indesejados para satisfazer seu parceiro – e 63% menos chance de ceder a pressões verbais por sexo.

Mudando as discussões sobre consentimento sexual e desejo

Atualmente, jovens adultos estão moldando seus relacionamentos sexuais em um momento único, em que conversas sobre sexo, poder e violência estão mudando de maneiras importantes.

Faculdades e universidades pelos Estados Unidos estão se distanciando de uma abordagem “não é não” para “sim é sim” quando se trata de prevenção de ataques sexuais. A ênfase aqui é no consentimento como um sinal verde em vez da recusa como sinal vermelho para a atividade sexual. Tais programas precisam estar atentos à complicada natureza do consentimento sexual entre jovens adultos de uma maneira que distinga consentimento de desejo.

Reconhecer jovens mulheres como sujeitos sexuais com desejos próprios pode protegê-las de consentir atividades sexuais indesejadas com o propósito de satisfazer um parceiro.

Afinal, como podem as jovens mulheres efetivamente dizer não para o sexo quando não podem, com sinceridade, dizer sim?

Heather Hensman Kettrey é pesquisadora associada na Peabody Research Institute, Universidade Vanderbilt

The Conversation