Foto: Stephen Jaffe/Reuters

Greenspan
Alan Greenspan, quando era presidente do banco central americano, em foto de 1995
 

Duas perguntas: é bom ou ruim que atletas profissionais ganhem 400 vezes mais do que enfermeiras; e a teoria das cordas é um beco sem saída? Cada pergunta vai ao cerne de sua disciplina. Entretanto, enquanto você provavelmente respondeu à primeira, você saberia opinar sobre as perspectivas da teoria das cordas apenas se tivesse estudado física.

Isso incomoda os economistas, que se perguntam por que todo mundo se sente à vontade para participar de debates econômicos em vez de deixá-los para os especialistas, como fazem com a física e a medicina. O que economistas não costumam admitir é que, em uma variedade de tópicos que examinam, eles frequentemente tiveram de responder à pergunta antes de começarem seus estudos. Cientistas supostamente têm de chegar às suas conclusões depois de pesquisar e avaliar as evidências, mas, em economia, conclusões podem vir primeiro, com economistas gravitando na direção de uma tese que se encaixa em sua visão moral do mundo.

Não deveria ser surpresa. A economia sempre tem sido um exercício ético e social, sendo seu propósito a produção de regras pelas quais uma comunidade organiza sua produção. Não é acidental que Adam Smith, cujo trabalho em “A riqueza das nações” (1776) é frequentemente visto como o texto fundador da economia, tenha sido um filósofo moral. Entretanto, mesmo depois, o Santo Graal dos economistas consistiu em fazer de sua arte uma ciência, usando-a para revelar os códigos supostamente enterrados no coração da existência humana. Eles experimentaram com a matemática e ponderaram a revolução na biologia de Charles Darwin, mas demoraria até o fim do século 19 para que a economia finalmente encontrasse um modelo para si. Ela o encontrou na física.

Alfred Marshall, um dos arquitetos da “revolução marginalista” que inaugurou a economia moderna, sem dúvida tinha uma predisposição para se inclinar em direção a uma visão física do mundo. Um ex-seminarista que gostava de desacelerar fazendo longas caminhadas pelas Highlands escocesas, ele era sem dúvida atraído pela visão de um universo que fosse inerentemente ordeiro. Entretanto, os marginalistas tinham outro motivo para adotar uma visão de mundo vinda da física. A física emergia na época como a mais canônica das ciências. Como modelo, não tinha rival. Além disso, em algumas suposições básicas, o modelo físico parecia se transferir de modo elegante ao comportamento humano.

Agora é possível olhar para trás e perceber a arrogância equivocada da década de 90, em que Greenspan contribuiu para uma bolha especulativa que quase destruiu a economia mundial e a reforma fracassada da União Soviética retirou sete anos da expectativa de vida do país

Pense, por exemplo, naquela aula de transferência de energia do ensino médio. Você afunda um pedaço de ferro quente em um balde de água fria, o vapor sobe, a barra esfria e a água aquece até que os dois acabem atingindo a mesma temperatura: equilíbrio. Bem, você pode igualmente pensar no ferro quente como um dono de loja, no balde de água como um cliente e na energia como dinheiro. O item que o lojista tem de vender é quente – todo mundo quer  – mas, enquanto cliente, sua carteira vazia faz de você um balde de água fria. Ou o lojista diminui o preço para chegar a um equilíbrio com você, ou espera até que um cliente mais quente, com uma carteira cheia, entre na loja. Dessa forma, a bolsa irá ser vendida a um preço de equilíbrio mais satisfatório para o lojista.

É meio assim que marginalistas conceberam transações de mercado. Alguns dos marginalistas pioneiros chegaram ao ponto de explicitamente conectar prazer, ou o que chamavam de “utilidade”, à energia. A partir disso, foi um pequeno salto para dizer que transações de mercado revelavam as leis da natureza. Na década de 1930, Lionel Robbins apresentou os mandamentos básicos da disciplina quando disse que as premissas nas quais a economia se baseava derivavam da “dedução de pressupostos simples que refletiam fatos muito elementares da experiência geral”, e eram assim “tão universais quanto as leis da matemática ou da mecânica, e pouco capazes de ‘suspensão’”.

Ah sim, experiência geral. O que Albert Einstein supostamente disse sobre bom senso? Uma coisa engraçada aconteceu no caminho para ela se tornar uma ciência: a economia raramente testou suas premissas empiricamente. Apenas recentemente tem havido uma investigação séria sobre seus pressupostos básicos. Muito frequentemente, eles têm se mostrado deficientes.

Diferentemente da física, não existem leis universais e imutáveis da economia. Você não pode negar a existência da gravidade. Mas como prova a recorrência de bolhas especulativas, você pode liberar “espíritos animais” para que comportamento humano e os próprios preços desafiem a gravidade econômica. Mude o contexto social – em linguagem econômica, mude a estrutura de incentivo – e as pessoas irão alterar seu comportamento para se adaptarem ao novo quadro.

Isso é algo que a “inveja de exatas” não consegue capturar – que a natureza social dos seres humanos torna quaisquer leis a respeito do comportamento provisórias e contextuais. De fato, o próprio termo “ciência social” talvez seja melhor visto como um oxímoro. Nos primeiros anos do revival neoclássico, nos anos 1970, o ganhador do prêmio Nobel Wassily Leontief advertiu contra o movimento que havia começado na economia em direção ao que foi posteriormente chamado de “inveja de exatas”. Observando que dados humanos diferiam daqueles das ciências naturais por causa de sua natureza fluida, Leontief disse que economistas fariam melhor se passassem menos tempo aperfeiçoando sua matemática e mais tempo mergulhando nos dados com ímpeto e sem restrições.

Ele também reconheceu que seu aviso provavelmente iria encontrar pouca receptividade. O apogeu do “cientificismo” veio nos anos 1990, uma década em que economistas como Alan Greenspan foram celebrados como gurus, Bill Clinton descrevia a globalização como uma força da natureza à qual os governos tinham de se submeter, e especialistas “geniozinhos” tais como Jeffrey Sachs voavam de um país a outro para prestar consultoria a antigos comunistas sobre como realinhar seus países com essa suposta ordem natural.

Agora, é possível olhar para trás e perceber a arrogância equivocada daquela década, uma em que Greenspan contribuiu para uma bolha especulativa que quase destruiu a economia mundial e a reforma fracassada da União Soviética retirou sete anos da expectativa do país. Muitos economistas, incluindo Sachs, se defendem dizendo que seus conselhos não foram seguidos: política ruim interferindo na boa economia.

Mas isso apenas justifica o argumento de Leontief. Economias são construções sociais. Isso necessariamente envolve política. É precisamente porque políticas econômicas as afetam de modo tão profundo que as pessoas se interessam muito mais por elas do que por debates da física. O método dos economistas na virada do século foi analisar conjuntos de dados à procura de padrões – economia a 9.000 metros de altitude (às vezes, literalmente). Tivessem eles seguido os conselhos de Leontief, e gasto mais tempo no solo se familiarizando com seus assuntos, talvez tivessem sido capazes de antecipar as maneiras com que a política iria afetar seus modelos.

Diante dessa cegueira intencional, a atual reação contra economistas é compreensível. Como resposta, uma “revolução dos dados” levou muitos economistas a trabalhar mais duro com eles, enquanto participam de debates públicos a respeito da praticidade de seu trabalho. Menos ciência, mais social. É a receita para uma economia que pode ainda redimir os especialistas.

John Rapley é um economista político na Universidade de Cambridge, jornalista e um dos criadores do Instituto de Pesquisa de Políticas do Caribe, na Jamaica. Ele é também autor de “Twilight of the Money Gods: Economics as a Religion and How it all Went Wrong” (Crepúsculo dos deuses do dinheiro: economia como religião, e como deu tudo errado, em tradução livre) (2017).