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Intelectuais freudianos no governo do presidente Gamal Nasser viam a psicanálise como ferramenta de governança
 

O mundo das letras árabes acolheu o pai da psicanálise Sigmund Freud. Romancistas, críticos literários, psicólogos, professores e estudantes leram e releram Freud, um dos pensadores mais controversos do século 20. No Egito, potência da vida cultural árabe, Freud se tornou uma presença muito familiar. Um artigo no Al-Hilal, uma revista cultural popular, notou em 1938 que uma nova geração de estudantes egípcios estava absorvendo Freud e ideias freudianas a respeito do inconsciente e da pulsão sexual.

Durante os bombardeios aéreos alemães contra o Egito em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor egípcio Ali Adham escreveu um artigo sintetizando as ideias de Freud a respeito da pulsão de morte (ou “gharizat al-mawt”, em árabe). Adham observou que, na guerra, gharizat al-mawt era projetado para fora, em direção ao outro – usado não apenas para a satisfação de prazeres sexuais, mas também para a satisfação de agressão e antagonismo. Dois anos depois, o psicólogo acadêmico Yusuf Murad, que depois fundaria uma escola especificamente influenciada pelos métodos e práticas freudianas, publicou o popular livro “Healing the psyche” (Curando a psiquê, em tradução livre) (1943). O texto introduziu os leitores à psicanálise como uma linha de pensamento que fornecia técnicas para a restauração do eu, em especial para as almas que sofriam.

Freud nunca permaneceu apenas no âmbito dos acadêmicos, nem suas ideias ficaram limitadas ao meio universitário. A primeira tradução acadêmica de “Édipo Rei”, de Sófocles, sem a qual qualquer conhecimento de Freud seria incompleto, foi realizada pela escritora de “belle lettres” Taha Husayn em 1939. Foi rapidamente seguida por duas adaptações. Na versão de 1949 do dramaturgo egípcio Tawfiq al-Hakim, o conflito central da peça é refeito como sendo não entre homem e destino, mas entre fato e verdade (oculta), uma leitura decididamente freudiana. Mas foi Naguib Mahfouz, o escritor egípcio ganhador do Nobel, que, mais do que qualquer outro, deu vida ao complexo de Édipo para os leitores árabes. Leitores do magistral “As-sarab” (A miragem, em tradução livre) (1948) foram apresentados a Kamil Ruʾba Laz, o protagonista do romance que é altamente introvertido e eroticamente ligado e obcecado em sua mãe possessiva. O apego de Kamil à mãe, Mahfouz nos conta, era caracterizado por “um afeto nada sadio que excedia seus próprios limites… um tipo de afeto que destrói”. Mahfouz pinta um retrato psicológico complexo do jovem, uma figura perturbada cujo prazer e dor derivam de um mundo isolado, claustrofobicamente arranjado por sua mãe. Em sua juventude, Kamil mergulha em divagações diárias para escapar de uma realidade sufocante. Ele acaba se encontrando, assolado por culpa sexual, incapaz de consumar seu próprio casamento. Não surpreende então que, em 1951, um professor de filosofia de ensino médio tenha proposto exames psicológicos pré-nupciais com o objetivo de prevenir casamentos infelizes devido a complexos de Édipo não resolvidos.

No fim da década de 1940, um professor de psicologia criminal no Cairo defendeu a relevância das teorias de Freud para o entendimento dos motivos por trás de um homicídio

Talvez o uso mais impressionante do complexo de Édipo no Egito seria encontrado não nos romances, mas no tribunal. No fim da década de 1940, Muhammad Fathi, professor de psicologia criminal no Cairo, defendeu apaixonadamente na corte a relevância das teorias de Freud sobre o inconsciente, particularmente para o entendimento dos motivos por trás de um homicídio. Em uma série de artigos dirigidos a um público popular, Fathi argumentou que a psicanálise e a criminologia eram disciplinas inteiramente análogas. A psicanálise, notou Fathi, poderia ajudar a interpretar comportamentos criminosos, as causas mais profundas ou motivos por trás de crimes violentos, e mesmo o comportamento de investigadores da polícia. A psicanálise poderia até nos introduzir àquela mais intrigante das figuras, um tipo de personalidade que Freud chamou de “o criminoso surgido de um senso de culpa”. Tais indivíduos cometeram crimes a partir de um desejo de serem punidos pelos seus impulsos culpados inconscientes. Fathi forneceu exemplos instigantes, tais como o do celibatário aficcionado pela mulher mais velha cujo marido ele tenta assassinar. Tal crime, fosse cometido, iria fornecer o castigo para o desejo inconsciente por incesto e parricídio. Os egípcios debateram acaloradamente as teorias de Fathi. Psicólogos acadêmicos alegaram que ele havia cedido ao grande público e ido longe demais no poder que o complexo de Édipo teria de se relacionar com a intenção criminal. Para os egípcios, valia a pena lutar pelas ideias de Freud.

Significativamente, egípcios e outros árabes leram e discutiram a respeito de Freud muito antes de ele ter sido traduzido para o árabe. Mustafa Ziywar, um dos primeiros tradutores de Freud para o árabe, foi também o primeiro membro árabe do Instituto de Psicanálise de Paris. Ziywar serviria de mentor para inúmeros psicanalistas egípcios que depois teriam carreiras renomadas no Egito, França e outros países da diáspora. Moustapha Safouan, um lacaniano conhecido e aluno de Ziywar, o descreveu como alguém que “juraria por Freud antes de jurar por Deus”. Ziywar supervisionou a série “The Foundations of Psychoanalysis” (As bases da psicanálise, em tradução livre), em que as “Conferências introdutórias à psicanálise” e “Além do princípio de prazer” foram traduzidas no início dos anos 1950 por Ishak Ramzy, seguido da cotradução do estudo autobiográfico de Freud em 1957, e pela importante tradução de Safouan de “A interpretação dos sonhos” (1958), assim como numerosos outros trabalhos fundamentais de Freud. Ziywar trabalhou incansavelmente para que psicanalistas alcançassem um público maior. No fim dos anos 1950, no Cairo, ele chegou a apresentar uma série de populares programas de rádio sobre psicologia, cobrindo problemas do dia a dia como haxixe, jogatina e depressão.

Nas décadas de 1950 e 1960, tais assuntos começaram a ocupar posição central no Egito. O presidente Gamal Abdel Nasser estabeleceu um regime com programas de bem-estar social ambiciosos. Na verdade, o grupo Oficiais Livres do qual Nasser emergiu havia explorado teorias psicológicas antes de assumir o poder na revolução de 1952, considerando-as úteis para o teste psicológico de oficiais do exército e pilotos. Depois, com o estabelecimento do Centro Nacional para Pesquisa Sociológica e Criminológica em meados da década de 1950, cientistas sociais pegaram uma variedade de problemas sociais e culturais como seus objetos de estudo, frequentemente trazendo a psicanálise para perto. Por exemplo, dois estudos de grande escala foram realizados sobre a prostituição e o uso de haxixe no Cairo, entre 1957 e 1960, e de 1960 a 1964, respectivamente. O segundo estudo foi supervisionado pelo próprio Ziywar.

Para alguns intelectuais freudianos no novo estado independente egípcio (mas de forma alguma para todos), a psicanálise se tornou uma ferramenta de governança capaz de criar um novo sujeito pós-colonial, livre dos males sociais e psicológicos. Esse uso da psicanálise como tentativa de criar ou reformar sujeitos humanos representa uma tendência perigosa, e que não foi única ao Egito. Isto ocorre precisamente porque o que a psicanálise oferece, em um nível mais profundo, é um reconhecimento e uma crítica do fato que humanos usam o outro como objeto e instrumento de prazer, seja este prazer o impulso do conhecimento ou a criação de sujeitos governáveis mais facilmente adaptados a seus ambientes políticos e sociais. Na tentativa entusiasmada de criar um cidadão nacional descolonizado, os psicanalistas incorreram em risco ao esquecer tais lições de ética e crítica filosófica.

Omnia El Shakry é professora de história na Universidade de Califórnia, em Davis. Seu último livro é “The Arabic Freud: Psychoanalysis and Islam in Modern Egypt” (O Freud árabe: psicanálise e islã no Egito moderno, em tradução livre) (2017).

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