Foto: Srdjan Zivulovic/Reuters

abelhas
Pesquisas com abelhas mostram que elas apresentam diferenças quanto a limpeza e ordem
 

Há tempos, a teoria da personalidade humana gira em torno do que conhecemos como os “Cinco Grandes” (Big Five) – cinco dimensões da personalidade que cobrem uma ampla extensão do comportamento humano através do tempo e de contextos. Essas dimensões são os escrúpulos (tendência a ser ordeiro e obediente a regras), amabilidade (fácil de conviver), extroversão (expansivo), instabilidade emocional (tendência a ser ansioso, depressivo ou hostil) e abertura a novas experiências (com inclinações criativas ou artísticas). É a consistência do nosso comportamento em diferentes situações que geralmente explica por que não somos todos parecidos.

Assim como traços físicos, traços de personalidade se enquadram nos critérios da evolução estabelecidos por Charles Darwin. Primeiro, os traços de personalidade mostram variabilidade, uma vez que o próprio conceito de personalidade implica que somos todos diferentes de maneiras específicas. Segundo, traços de personalidade não são apenas influenciados pelo ambiente, mas também fortemente hereditários. E, finalmente, em muitos casos certos traços tornam alguns indivíduos mais passíveis de reproduzir e transmitir seus genes do que outros, demonstrando claros benefícios em termos de aptidão.

Pelo fato de a personalidade humana ter evoluído, deveríamos esperar encontrar traços dela em outras espécies. Mas o nosso entendimento da personalidade animal estagnou por anos por causa do medo do antropomorfismo entre cientistas especializados em animais e de uma falta de consenso sobre como a descrever. A personalidade animal é às vezes descrita como sendo “temperamento”, “estilos de sobrevivência” ou “síndromes de comportamento” (que sempre me soou mais como uma doença do que um jeito de ser). Frequentemente, animais são descritos simplesmente em termos do seus níveis de ousadia e agressividade. Mais recentemente, entretanto, cientistas começaram a usar os Cinco Grandes como base para o exame da personalidade animal. 

Existem centenas de exemplos de comportamento escrupuloso no reino animal, de peixes arrumados que constróem ninhos para atrair potenciais parceiros, a ratos que variavam no controle de seus impulsos

Os escrúpulos são uma dimensão da personalidade com múltiplos aspectos. Tipicamente, descreve pessoas que planejam com antecedência, são organizadas e confiáveis, trabalham duro, são auto-disciplinadas e rigorosas. Pode ser difícil enxergá-la em outros animais: bem agora, estou olhando para meus gatos relaxando em um ponto ensolarado no sofá. Eles estão lá o dia inteiro. Eles podem ser confiáveis, mas dificilmente eu os chamaria de esforçados. Talvez os achados de pesquisas prévias estejam corretos: os escrúpulos envolvem traços que são complexos demais para atribuir a animais ou simplesmente não podem ser encontrados. Mas será que estamos sendo restringidos por nossos vieses humanos? As perguntas que estamos fazendo e os métodos que estamos usando seriam realmente aplicáveis a outras espécies?

A maior parte das medições da personalidade humana depende de autoavaliações, em que humanos classificam o quanto declarações os descrevem, tais como “eu raramente fico triste”, “tenho uma imaginação fértil” ou “frequentemente esqueço de colocar coisas de volta no lugar certo”. A partir dessas reações, você ganha uma pontuação separada em cada uma das cinco dimensões da personalidade.

A maior parte das medidas de personalidade animal também é baseada em relatórios, não feitos pelos animais, é claro, mas pelos donos e cuidadores. Ao se apoiar em avaliação humana, estamos apenas tentando determinar de que forma animais são como humanos, em vez do que pode vir a definir “personalidade” no universo de sua espécie?

Pensando se a falta de evidências de escrúpulos no reino animal se devia a tais vieses potenciais, eu e meu colega, o psicólogo Frank Sulloway, da Universidade da Califórnia, Berkeley, tentamos uma abordagem diferente. Recentemente, publicamos os resultados na revista acadêmica Psychological Bulletin. Primeiro, olhamos para todos os termos descritivos que são comumente usados para medir os escrúpulos em pesquisas dadas a humanos. Usando esta lista de 103 termos, pesquisamos com rigor a literatura para ver quando esses termos foram usados para descrever o comportamento animal.

Existem centenas de exemplos de comportamento escrupuloso no reino animal, de peixes arrumados que constróem ninhos para atrair potenciais parceiros, a ratos que variavam no controle de seus impulsos ou em sua habilidade de demorar para dar recompensas. Alguns insetos eram metódicos na hora de escolher um local para por ovos, enquanto outros não; alguns cães-guia se distraíam facilmente enquanto outros permaneciam focados. Alguns peixes ornamentais eram “inconsequentes” na hora de selecionar um parceiro e vacas mostravam um aumento de batimentos cardíacos quando eram bem-sucedidas no aprendizado de uma nova tarefa.

Os escrúpulos dos animais não se parecem necessariamente com sua versão humana. As abelhas talvez não arrumem suas camas, mas apresentam diferenças quanto a limpeza e ordem. Abelhas que são melhores “agentes funerárias” e removem corpos mortos de suas colmeias costumam ter menos doenças e crias em maior número e mais saudáveis. Aranhas que constroem teias mais ajeitadas pegam mais presas. Pássaros preguiçosos são tolerados porque, em tempos de desespero, podem servir de babás para seus parentes.

Quando submetidos a análises estatísticas, nossos dados apontaram para dois tipos de escrúpulos em animais – um tipo relacionado a comportamento ordeiro e esforçado, com mais chances de ser encontrado em pássaros e, até certo ponto, em insetos. O outro tipo descrevia comportamento mais competente e direcionado a realizações, sendo mais comumente reportado em primatas e outros mamíferos. Algumas espécies mostravam evidências dos dois tipos de escrúpulos, demonstrando que, assim como em humanos, essa característica pode ser multifacetada em animais também.

Entretanto, não achamos em animais fortes evidências de alguns dos aspectos dos escrúpulos humanos, como virtude, tradicionalismo e auto-disciplina. Esses traços frequentemente envolviam um senso de obrigação moral, que talvez seja um tanto difícil de medir em animais, já que eles não conseguem nos comunicar suas motivações.

Embora tenhamos encontrado ampla evidência de escrúpulos em outros animais, nossa pesquisa ainda era limitada pelo fato de que nosso ponto de partida era baseado no léxico e ainda dependente de uma plataforma de lançamento antropocêntrica. Talvez encontramos mais evidências para comportamento ordeiro em pássaros e abelhas porque é isso que cientistas esperam encontrar, ao passo que eles podem procurar por comportamentos cognitivamente mais complexos em animais que consideramos mais parecidos conosco.

Uma abordagem ainda melhor seria uma revisão da maneira como olhamos para a personalidade de todos os animais (incluindo humanos). Não precisamos jogar o bebê fora junto com a água do banho, mas o questionário de auto-avaliação é limitado em sua habilidade de medir o verdadeiro escopo de comportamento presente nas outras 8,7 milhões de espécies animais com quem dividimos o planeta.

Em vez disso, a psicóloga Jana Uher, da universidade de Greenwich, em Londres, propôs a exploração da personalidade animal por meio de uma abordagem comportamental. Isso significa primeiro determinar quais problemas uma espécie individual evoluiu para resolver, em relação a contextos, tais como predação, procura de alimentos e interações sociais. Uma vez que estes problemas tiverem sido definidos, comportamentos, traços e outras variabilidades podem ser avaliadas de acordo com estes problemas.

Não deveria ser surpresa achar um contínuo de todos os traços de personalidade através do reino animal. Mas o que deveria ter nos surpreendido há mais tempo era a negação dos escrúpulos em animais não humanos. Ainda que gostemos de pensar que somos especiais e únicos, para citar Darwin, a diferença entre nós e outros animais, “embora grande, é certamente de grau e não de tipo”.

Mikel Maria Delgado é bolsista de pós-doutorado na Escola de Medicina Veterinária da Universidade da Califórnia, Davis. Ela é autora de “Total Cat Mojo” (encanto de gato total, em tradução livre) (2017), junto com Jackson Galaxy. Ela mora em Sacramento, Califórnia.

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