Foto: Rafael Marchante/Reuters

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Papéis de gênero sofreram mudanças profundas ao longo dos últimos 50 anos
 

Em seu primeiro encontro, Mia e Josh conversaram como velhos conhecidos. Josh adorava a perspicácia de Mia; Mia se deliciava com o sorriso caloroso e fácil de Josh. O relacionamento dos dois floresceu, mas dúvidas apareciam de vez em quando. Josh era o principal responsável pelo cuidado de uma criança de um casamento anterior e as perspectivas financeiras dele eram reduzidas. Mia não se incomodava muito, uma vez que a personalidade de Josh mais do que compensava isso. Ainda assim, ele não era o “tipo” usual dela – um tipo que era muito mais jovem que ela, além de atlético e bonito. Enquanto isso, Josh vinha sonhando com uma mulher com dinheiro de sobra e grandes ambições, status e formação, idealmente com um (ou dois) doutorados. O mero mestrado de Mia era meio que um ponto delicado. A regra, afinal de contas, era de que “bons partidos” eram sempre as mulheres.

Esse cenário provavelmente soa estranho, e deveria. É um episódio que inventei sobre como o cenário de namoro heterossexual pode parecer daqui a 100 anos. Atualmente, o desejo por uma parceira jovem e atraente do sexo oposto tende a ser mais prevalente nos homens do que nas mulheres. As mulheres, enquanto isso, tendem a priorizar dinheiro e status em lugar de juventude e beleza. Por quê?

Muitos psicólogos evolutivos associam esta tendência à força dos nossos impulsos biológicos inatos. Seu argumento é de que as mulheres têm uma demanda primitiva de se agarrar a homens ricos para que eles provenham para seus filhos durante o longo período da gravidez e da criação. Os homens, enquanto isso, estão principalmente preocupados com a fertilidade de uma mulher, característica sugerida pela beleza e pela juventude. No passado distante, esse comportamento era de adaptação, então a evolução o selecionou e o codificou em nossos genes, para sempre. É certo que os rituais de acasalamento modernos são muito diferentes daqueles dos nossos ancestrais. “Mesmo assim, estratégias sexuais semelhantes às de nossos ancestrais continuam operando com toda força”, disse o psicólogo David Buss em “The Evolution of Desire” (2003) (A evolução do desejo, em tradução livre). “A psicologia evolutiva do nosso acasalamento, afinal de contas, se realiza em nosso mundo moderno porque é a única psicologia de acasalamento que nós mortais possuímos”. (existe pouca pesquisa histórica ou intercultural a respeito de preferências de parceiro entre pessoas LGBT; essas questões são claramente importantes, mas infelizmente ainda não existem dados suficientes para que sejam examinadas de modo apropriado).

Não seria esperado que códigos de relacionamento em mutação tivessem alguma influência nas preferências de acasalamento de homens e mulheres heterossexuais? Ou ainda estamos à mercê de nosso destino biológico, como defendem os psicólogos evolutivos?

Entretanto, tem havido uma mudança tectônica nos papéis de gênero ao longo dos últimos 50 anos. Ainda na década de 80, comissárias de bordo nos Estados Unidos podiam ser despedidas caso se casassem, e o voto feminino só se tornou universal na Suíça em 1990. Não seria esperado que esses códigos de relacionamento em mutação tivessem alguma influência nas preferências de acasalamento de homens e mulheres heterossexuais? Ou ainda estamos à mercê de nosso destino biológico, como defendem os psicólogos evolutivos?

Os resultados de pesquisas são claros: preferências de acasalamento entre homens e mulheres se parecem cada vez mais. A tendência está diretamente ligada à crescente igualdade de gênero, à medida que mulheres conseguem maior acesso aos recursos e oportunidades nos negócios, política e educação. Em países com maior desigualdade entre os gêneros, como a Turquia, as mulheres consideram o potencial de ganhos de parceiros duas vezes mais importante do que mulheres em países de maior igualdade, como a Finlândia. Como aconteceu com Josh e Mia, homens finlandeses têm uma probabilidade maior que as mulheres do mesmo país de selecionar parceiros com base em seu alto nível educacional.

É claro, o machismo varia dentro de cada sociedade, e o nível geral de igualdade de gênero de um país não se traduz necessariamente em atitudes igualitárias em indivíduos. Mas se preferências de acasalamento são biologicamente pré-determinadas, o machismo individual não deveria ter qualquer impacto. Entretanto, pesquisas conduzidas em nove países provaram o contrário. Quanto mais anti-igualitárias forem as atitudes dos homens, mais eles preferem qualidades nas mulheres como juventude e beleza; e quanto mais favoráveis à desigualdade de gênero forem as atitudes de uma mulher, mais elas preferem nos homens qualidades como dinheiro e posição.

A evidência aponta para sérias falhas na narrativa dos psicólogos evolutivos. Se os genes determinam nossas preferências de acasalamento, como é que esses instintos supostamente impregnados se desfazem de acordo com a tendência à igualdade de sociedades e indivíduos?

Para ser justo, psicólogos evolutivos reconhecem que fatores culturais e costumes locais podem afetar o modo como as pessoas escolhem seus parceiros. Mas a igualdade de gênero não pode ser considerada um desses fatores, já que mesmo em sociedades relativamente igualitárias, o abismo entre as preferências de homens e mulheres é apenas reduzido e não eliminado. Entretanto, a mensagem inesperada é que a evidência de um insistente abismo na verdade empresta apoio à nossa causa: a diferença é tornada menor apenas no caso da igualdade de gênero ser atingida. Se livrar dela completamente demandaria igualdade de gênero completa, o que ainda não existe.

Lamentavelmente, os papéis de gênero tradicionais persistem mesmo em sociedade muito igualitárias. Em um estudo dinamarquês, maridos cujas mulheres ganham mais tinham mais propensão que outros maridos a usar remédios contra disfunção erétil. Uma interpretação é que maridos se sentiam pressionados a exibir sua virilidade, já que não conseguiam reivindicar o papel de “provedor”; outra visão era de que a perda da posição de quem sustenta a família de alguma forma levava à impotência. Em outro estudo americano, mulheres solteiras minimizavam suas metas de carreira e reduziam sua assertividade na esperança de se fazerem mais desejáveis para os homens. Por outro lado, se a importância que os homens atribuem à boa formação e perspectivas de ganho de uma mulher continuar a crescer, essas táticas podem eventualmente deixar de ser eficazes.

E se uma sociedade realmente atingir a igualdade de gênero perfeita? Teriam mulheres e homens essencialmente as mesmas preferências de parceiros? Meu palpite é de que as escolhas de homens e mulheres talvez nunca venham a convergir completamente. A principal diferença provavelmente se resumirá às demandas de amamentação que vêm com o nascimento de uma criança – uma atividade que demanda energia e tempo, é bastante difícil de integrar com trabalho remunerado, pelo menos da maneira como o trabalho é atualmente estruturado. A sugestão é de que as mulheres buscarão substituir essa esperada perda de rendimentos pela escolha de maridos com boas perspectivas de ganhos. A decisão terá pouca relação com uma demanda primitiva de ter um grande protetor macho, entretanto; será guiada pelos cálculos racionais a respeito de futuras necessidades. Além disso, políticas sociais progressistas, mudanças no local de trabalho, e maior participação dos pais no cuidado das crianças poderiam mitigar as pressões que comprometem a carreira.

Meus estudantes às vezes me perguntam se preferências de parceiro igualitárias seriam desejáveis. Eles parecem preocupados que tal igualdade poderia apagar a faísca das nossas vidas amorosas. Outro risco é que o nivelamento de nossas preferências de acasalamento poderia levar a mais casamentos entre iguais, o que por sua vez poderia enraizar a desigualdade econômica. Mas, de acordo com o último relatório sobre diferenças entre gêneros, de 2017, há poucos motivos para se preocupar. Dada a velocidade atual de mudança, levará um tempo antes que Josh e Mai se juntem: temos pelo menos mais 100 anos de espera antes de atingirmos a paridade entre gêneros.

Marcel Zentner é professor de psicologia na Universidade de Innsbruck, onde chefia o Laboratório de Personalidade, Emoção e Música. É editor-chefe da publicação acadêmica “Frontiers in Personality and Social Psychology” (Fronteiras na personalidade e psicologia social, em tradução livre).

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