Foto: Divulgação

cervejaria trapista
Tanques de cervejaria trapista no monastério de Orval
 

Todo ano as férias trazem consigo um aumento tanto no consumo de álcool quanto na preocupação a respeito dos efeitos prejudiciais da bebida.

Abuso de álcool não é motivo de piada, mas é pecado beber e festejar, moderada e responsavelmente, durante um período de férias ou em qualquer outro tempo?

Como teólogo-historiador, pesquisei o papel que cristãos devotos tiveram no desenvolvimento e produção de álcool. O que eu descobri foi uma história impressionante.

Ordens religiosas e fabricação de vinho

O vinho foi inventado 6.000 anos antes de Cristo, mas foram principalmente os monges que preservaram a vinicultura na Europa. Ordens religiosas como os beneditinos e os jesuítas se tornaram exímios fabricantes de vinho. Eles só interromperam a fabricação porque suas terras foram confiscadas nos séculos 18 e 19 por governos anticatólicos como o da Assembleia Constituinte da Revolução Francesa e o Segundo Reich alemão.

Para a celebração da Eucaristia, que requer o uso de pão e vinho, missionários católicos trouxeram seu conhecimento de cultivo de vinhas para o Novo Mundo. Uvas viníferas foram introduzidas na Alta Califórnia em 1779 por São Junipero Serra e sua irmandade, estabelecendo as bases da indústria de vinho da Califórnia. Um padrão similar surgiu na Argentina, Chile e Austrália.

O uísque foi inventado por monges irlandeses medievais, que provavelmente compartilharam seu conhecimento com os escoceses durante suas missões

Homens de Deus não apenas preservaram e promoveram a enologia, ou o estudo dos vinhos; eles também a fizeram evoluir. Um dos pioneiros do “método champenoise”, ou o “método tradicional” da confecção de vinho espumante, foi um monge beneditino cujo nome agora adorna uma das melhores champanhes do mundo: Dom Pérignon. De acordo com uma lenda posterior, quando ele provou seu primeiro lote em 1715, Pérignon gritou para seus colegas monges: “Irmãos, venham depressa. Estou bebendo estrelas!”

Monges e padres também encontraram novos usos para a uva. Os Jesuítas são creditados com terem melhorado o processo de fabricação da grappa na Itália e do pisco na América do Sul, ambos aguardentes de uva.

Cerveja no claustro

Embora a cerveja tenha sido inventada pelos antigos babilônios, ela foi aperfeiçoada pelos monastérios medievais que nos legaram a fabricação de cerveja tal como a conhecemos hoje. Os mais antigos desenhos de uma cervejaria moderna são do Monastério de Saint Gall, na Suíça. O projeto, que data do ano de 820, mostra três cervejarias – uma para os convidados do monastério, uma para os peregrinos e os pobres e uma só para os monges.

Um santo, Arnaldo de Soissons, que viveu no século 11, teria inventado o processo de filtragem. Até hoje, e apesar da proliferação de muitas microcervejarias notáveis, a melhor cerveja do mundo é possivelmente ainda feita dentro do claustro – especificamente, dentro do claustro de um monastério trapista.

Bebidas e licores

Igualmente impressionante é a contribuição religiosa aos destilados. O uísque foi inventado por monges irlandeses medievais, que provavelmente compartilharam seu conhecimento com os escoceses durante suas missões.

Chartreuse é amplamente considerado o melhor licor do mundo por causa do seu extraordinário espectro de sabores distintos e até benefícios medicinais. Desenvolvido pela ordem dos cartuxos cerca de 300 anos atrás, em qualquer tempo a receita é conhecida por apenas dois monges. O licor herbal Bénédictine D.O.M. teria sido inventado em 1510 por um beneditino italiano chamado dom Bernardo Vincelli para fortificar e restaurar monges cansados. E o conhaque de cereja conhecido como licor Maraska foi inventado por farmacêuticos dominicanos no começo do século 16.

A engenhosidade no álcool não era um domínio apenas masculino. Irmãs carmelitas chegaram a produzir um extrato chamado “água Carmelita”, usado como tônico herbal. As freiras não fabricam mais esse elixir, mas outro preparado do convento sobreviveu e acabou se tornando um dos licores mais populares do período de férias no México – Rompope.

Feito de baunilha, leite e ovos, Rompope foi inventado por freiras claristas da cidade colonial espanhola de Puebla, que fica a sudeste da Cidade do México. De acordo com um relato, as freiras usavam claras de ovos para revestir com uma película protetora a arte sacra de sua capela. Não querendo desperdiçar as gemas que sobravam, eles desenvolveram a receita para esse refresco festivo.

Saúde e comunidade

O que explica esse impressionante histórico de criatividade alcoólica entre os religiosos? Eu creio em duas razões principais.

Primeiramente, as condições eram propícias. Comunidades monásticas e ordens religiosas similares possuíam todas as qualidades necessárias para a produção de bebidas alcoólicas de qualidade. Eles possuíam amplas extensões de terra para a plantação de uvas ou cevada, uma longa memória institucional por meio da qual um conhecimento especial poderia ser repassado e aperfeiçoado, uma facilidade para trabalho em equipe e um compromisso com a excelência mesmo na menor das tarefas como um modo de glorificar a Deus.

Em segundo lugar, é fácil esquecer nos tempos atuais que, por boa parte da história humana, o álcool foi importante na promoção da saúde. Fontes de água muitas vezes carregavam patógenos perigosos, então pequenas quantidades de álcool eram misturadas com a água para eliminar os germes contidos nela.

Soldados romanos, por exemplo, recebiam uma dose diária de vinho, não para ficarem bêbados, mas para purificar qualquer água que achassem em campanha. E dois bispos, Santo Arnolfo de Metz e Santo Arnaldo de Soissons, ficaram conhecidos por salvarem centenas da peste porque eles exortaram seus rebanhos a beber cerveja em vez de água. Uísque, licores herbais e mesmo bitters foram também inventados por razões medicinais.

E se a cerveja pode salvar as almas da pestilência, não é surpresa que a Igreja tem uma bênção especial para ela que começa assim:

“Abençoai, Senhor, esta criatura, a cerveja, que por sua bondade e poder foi produzida dos grãos, e que ela seja um remédio que dê saúde aos homens”.

Michael Foley é professor associado de patrística da Universidade Baylor

The Conversation