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O mercado exige do jogador desempregado a mesma conduta e cuidados do corpo que ele teria trabalhando em um clube
 

A palavra descarte é comumente utilizada para referir-se ao ato de jogar algo fora, de desfazer-se de algum objeto. Essa palavra também tem sido utilizada na mídia esportiva especializada, por sindicatos, e até mesmo por profissionais do esporte, para situar a dispensa de jogadores pelos clubes de futebol.

Da parte dos clubes, a preocupação, relativamente recente, com o descarte de jogadores torna-se sutilmente visível no discurso de profissionais que trabalham nas categorias de base, principalmente dentre os psicólogos que lidam em seu cotidiano não somente com o rendimento esportivo do atleta, mas também com o preparo deste para ser dispensado do clube.

Essa preocupação vai ao encontro de práticas do capitalismo sustentável, nas quais o descarte consciente é também uma questão. No futebol profissional, a problemática da sustentabilidade, além de aparecer relacionada à gestão dos clubes, em campanhas que estimulam a reciclagem de alguns materiais, e em outras formas de convocação dos torcedores a se responsabilizarem por um (questionável) “mundo melhor”, também aparece dentre as formas de se conceber a produção/formação de jogadores, como explicitou em 2015 Eduardo Freeland, o então gerente das categorias de base do Botafogo de Futebol e Regatas: “orque o que a gente faz hoje na maioria dos clubes ainda, e eu me incluo, é descarte. E aí é descarte de sonho, é descarte de um indivíduo porque é uma família por trás, então a gente tem que ter uma responsabilidade nisso. E eu não sei se a gente está tendo essa responsabilidade. Eu, particularmente, acho que ainda não. A gente ainda está começando a ter essa preocupação, mas eu acho que a gente precisa dar mais luz a esse ponto” .

Como destacou o gestor, atualmente, não “pega bem” no mercado da bola o simples descarte de jogadores, sem “responsabilidade social (empresarial)”. Nesse discurso da sustentabilidade, os clubes são convocados a se responsabilizar pelo dano causado àqueles jogadores que produz e descarta. Convocados no sentido de serem demandados por pressão social, do Ministério Público do Trabalho e, principalmente, pelas tendências de um mercado internacional.

Não é novidade que no Brasil (e não somente), a quantidade de atletas que saem das categorias de base por ano ultrapassa em muito a capacidade de absorção pelo mercado. No entanto, muitos jogadores continuam circulando entre os clubes, ou por fora deles, em tentativas de se estabelecer na profissão.

De maneira geral, notam-se dois movimentos na circulação de jogadores que se conectam com base no valor de sua imagem: a circulação impulsionada pelo valor alto da imagem do jogador. É o caso não somente dos jogadores famosos, mas também das “promessas” – jogadores novos que se destacam em um clube ou campeonato e, por isso, são impulsionados no mercado pela probabilidade, pela aposta de um bom contrato porvir.

De Afonsinho até Felipe, a valorização e o investimento no preparo físico dentro dos clubes se intensificaram, assim como a necessidade de dedicação exclusiva ao futebol pelo aumento da competitividade.

Há também a circulação produzida pela dispensa, pelo descarte, pelos jogadores que persistem na profissão apesar das adversidades. Esse segundo circuito é o lugar, embora não único, de jogadores que saem das categorias de base e “somem” no mercado, mas que ali estão para dinamizá-lo. Essa segunda forma de condução no mercado se intensifica no futebol neoliberal, uma vez que desligar-se de um clube torna-se mais simples.

Esses jogadores anônimos, em sua maioria, atuam em clubes considerados pequenos quanto ao número de torcedores, títulos, expressividade e de anos em atividade. São aqueles de valor de imagem baixo ou inexistente, que não circulam ou passam despercebidos nas grandes vitrines do futebol nacional e/ou mundial, são os que complementam sua renda com outras atividades por não conseguirem viver apenas do que ganham com o futebol profissional, atuando no futebol amador, como auxiliar de preparadores físicos, operadores de telemarketing, motoboys. Enfim, os que circulam entre ser e não ser jogador de futebol profissional, entre empreender-se ou não nesse mercado.

No início, no meio ou no final da carreira, há, inevitavelmente, entre os anônimos, essa circulação entre o ser e o não ser: muitos recém-saídos das categorias de base, outros já saídos há algum tempo, mas que permanecem circulando em clubes e campeonatos de pouca repercussão midiática, e, ainda, aqueles que, após um período de breve fama, seguem no mercado, retornando a esse segundo circuito enquanto se preparam para exercer outras atividades. O mercado faz circular, produz visibilidades, define condutas, situa o “bom produto”. E o jogador empreendedor de si deve neste mercado organizar sua pequena, média ou grande empresa.

Enfim, por mais que se tente mapear esses momentos (e os movimentos) da vida desses indivíduos, não há como universalizá-los. Cada um tem suas histórias, particularidades, percorrem seus próprios caminhos nesse mapa. Caminhos que se cruzam a todo tempo aqui e ali e que não são traçados apenas por esses jogadores, com base, quer em sua habilidade, quer no seu assujeitamento às necessidades do futebol neoliberal.

No início dos anos 1970, Afonsinho conta que, durante o seu enfrentamento com a diretoria do Botafogo, que não o deixava jogar e nem liberava seu passe por questões políticas, o preparador físico do clube na época lhe emprestou uma bola e alguns cones para que continuasse a treinar. Ele continuou a treinar durante o tempo que esteve com seu passe preso ao Botafogo.

No ano de 2015, para não perder o preparo físico durante um período de desemprego, após ser despedido do Flamengo, o goleiro Luiz Felipe Ventura dos Santos, mais conhecido como Felipe, possuía um staff próprio, contratado para mantê-lo treinado e em forma, de maneira similar aos treinamentos do clube, para assumir prontamente a sua posição em alguma oportunidade de emprego. Naquele período, o goleiro contratou um técnico particular com auxiliares para treinos técnicos e físicos, quatro horas por dia, fazendo dieta e reeducação alimentar, chegando a estar mais em forma durante seu período sem clube do que quando atuava pelo Flamengo, segundo afirmou o preparador físico em reportagem.

Na época de Afonsinho, o preparo físico já era importante, embora o ritmo e as referências de jogo do futebol fossem outros. De Afonsinho até Felipe, a valorização e o investimento no preparo físico dentro dos clubes se intensificaram, assim como a necessidade de dedicação exclusiva ao futebol pelo aumento da competitividade. Afonsinho cursava medicina na UFRJ paralelamente à carreira de jogador de futebol de clube de primeira divisão, algo distante da situação de Felipe, jogador com dedicação exclusiva e condições de se manter em treinamento de alto rendimento mesmo sem emprego.

No entanto, a realidade de Felipe é uma exceção se comparada à da maioria dos jogadores da atualidade, que circulam mais entre os clubes e fora deles, em contratos de três meses, jogando no mesmo ano na segunda e na terceira divisão de campeonatos locais e em campeonatos amadores. Alguns jogadores nessa situação de desemprego sazonal recorrem às equipes de jogadores sem contrato, mantidas por sindicatos de atletas que oferecem treinamentos para jogadores profissionais.

No jogo do futebol neoliberal e sustentável o jogador é convocado a aprender a se ver como capital humano, nesse sentido o jogador desempregado é convocado a estar sempre ocupado, em movimento. Cabe-lhe o aprimoramento constantemente de sua técnica e inteligência de jogo, e empreender-se nesse competitivo mercado em busca da sonhada oportunidade.

O jogador deve ser resiliente: saber se conduzir diante das adversidades, tornando-se adaptável às circunstâncias difíceis. Segundo Salete Oliveira, a resiliência se atrela à sustentabilidade e ao empreendedorismo, refazendo o lugar da “vítima” em “negociador”. É o suportar violências, dores, sofrimentos, sendo flexível e melhorando sua conduta esperada para ser incluído, enfim, saber manejar-se.

No caso do jogador desempregado, à sua conduta resiliente é acrescida a recomendação relativa à prevenção de degradação para continuar sempre pronto a servir (o que inclui as contusões, a boa conduta, os relacionamentos gerais dentro do clube e na sua comunidade). A sustentabilidade, a resiliência e a prevenção à degradação situam o empreendedorismo no qual se encontra capturado o aspirante a jogador.

O mercado exige do jogador desempregado a mesma conduta e cuidados do corpo que ele teria trabalhando em um clube. Mas os jogadores não fazem isso porque assim está escrito no contrato, o fazem porque sabem que sem isso as chances de voltar a jogar profissionalmente diminuem. Mesmo os jogadores mais ou menos famosos prestam contas em suas mídias sociais sobre como cuidam de seu corpo e o que fazem durante as férias para se manter em forma. Em suma, o desemprego é sempre iminente, mas estar desocupado é algo raro para quem quer manter-se na profissão.

Em tempos nos quais a liberdade de mercado é um imperativo (não somente para o jogador de futebol), cabe pensar que liberdade é essa que nos compele a viver para o trabalho e nos aprisionamentos que nos enlaçam de contrato em contrato com a desculpa de sermos livres.

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio