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Emoções negativas provavelmente tiveram um papel importante na evolução e sobrevivência humanas
 

O fracasso é parte da vida, e cometemos erros praticamente todo dia. Como lidamos com isso? Ou melhor, como deveríamos lidar?

Acadêmicos e a grande imprensa tendem a oferecer uma solução simples: não se apegue à situação e pense sobre como as coisas poderiam ter sido piores.

Estes pensamentos de autoproteção geralmente fazem com que você se sinta melhor. Você segue em frente.

Mas é possível que a sabedoria popular esteja deixando algo de fora? Deixar de lado as emoções negativas faz você menos inclinado a repetir o erro? Noelle Nelson, Baba Shiv e eu decidimos explorar possíveis lados positivos de se sentir mal com relação ao fracasso.

Sentindo a dor

Embora sejam desagradáveis, sentimos emoções negativas por um motivo: elas provavelmente tiveram um papel importante na evolução e sobrevivência humanas.

Emoções negativas nos avisam para prestar atenção, sinalizando que algo está errado – com nosso corpo, nosso ambiente, nossos relacionamentos.

Então, se você evita emoções negativas, você pode também estar evitando a coisa que precisa da sua atenção. Será que resolver focar nas emoções negativas associadas ao fracasso leva a pensamentos sobre melhoria pessoal – e, com o tempo, melhoria de fato?

Preparamos uma série de experimentos para testar esta questão.

Nesses estudos, usamos algo chamado de paradigma de dois estágios: primeiramente, os participantes tentaram uma tarefa em que falhavam; então – depois de séries de tarefas não relacionadas – eles teriam a oportunidade de se redimir.

Aparentemente, focar nas emoções do fracasso pode disparar diferentes pensamentos e comportamentos. Pode ser que quando você reflete em como fica mal depois de falhar, isso te motiva a evitar sentir a mesma coisa outra vez

Em um deles, pedimos a nossos participantes que buscassem na internet o preço mais baixo de uma marca e modelo específicos de liquidificador (com a possibilidade de ganhar um prêmio em dinheiro se fossem bem-sucedidos). Na verdade, o jogo era manipulado. Ao final, os participantes foram informados de que o preço mais baixo era US$ 3,27 menos do que aquele que tinham encontrado. Então, pedimos à metade dos participantes que focassem em sua reação emocional diante do fracasso, enquanto que a outra metade foi instruída a focar nos pensamentos que tiveram sobre seu desempenho. Pedimos então a eles que refletissem, por escrito, sobre como se sentiam.

Depois de algumas tarefas não relacionadas, demos aos participantes a chance de se redimir. Em uma tarefa aparentemente não relacionada, pedimos aos participantes que imaginassem estar indo ao aniversário de um amigo que queria um livro de presente. Também dissemos a eles que o livro que encontrassem deveria ser uma pechincha.

Descobrimos que os participantes que antes haviam sido instruídos a focar nas emoções negativas depois de seu fracasso na tarefa do liquidificador gastaram quase 25% mais tempo procurando por um livro de preço baixo do que aqueles que haviam sido instruídos a focar em seus pensamentos.

Quando examinamos as respostas escritas, também encontramos algumas diferenças importantes. Aqueles que haviam focado no seu fracasso – em vez de insistir em como se sentiam – tendiam a ter reações defensivas. “Não me importava muito com isso mesmo”; “Teria sido impossível de achar esse preço.”

Em contraste, os participantes que haviam gasto tempo analisando suas emoções produziram pensamentos dirigidos à melhoria pessoal: “Se eu tivesse procurado mais, teria achado aquele preço”; “Desisti muito facilmente”.

Nem todos os erros são iguais

Aparentemente, focar nas emoções do fracasso pode disparar diferentes pensamentos e comportamentos. Pode ser que quando você reflete em como fica mal depois de falhar, isso te motiva a evitar sentir a mesma coisa outra vez.

Mas essa melhoria poderia ser transferida para outros esforços – para tarefas sem relação com a original?

Para testar essa questão, adicionamos uma variante do cenário do segundo presente. Em vez de dizer aos participantes para achar um livro mais barato (o que envolvia uma busca de preços igual à tarefa original), pedimos que conseguissem um livro que achassem que seu amigo iria gostar. Nesse caso, não importava se os participantes tivessem focado em suas emoções ou pensamentos depois da primeira tarefa; eles gastaram quantidades de tempo parecidos na procura do melhor presente. Parece que a melhoria apenas acontece se a segunda tarefa é de alguma forma similar à primeira, que não deu certo.

Enquanto “sentir seu fracasso” pode ser uma coisa boa, não altera o fato de que isso pode machucar. Existe um motivo pelo qual as pessoas tendem a instintivamente racionalizar ou ter pensamentos de autoproteção depois de terem cometido um erro.

Seria debilitante se você acabasse focando em quão mal se sentiu depois de cada fracasso, grande ou pequeno. Então fica nas suas mãos a decisão sobre em quais fracassos vale tentar buscar uma melhora, e de quais fracassos você deve se proteger. Claramente, eventos únicos ou erros inconsequentes – pegando a rua errada em uma cidade estrangeira ou chegando atrasado a uma festa de amigos – não são os melhores candidatos (daí o ditado de que não se deve “fazer tempestade em copo d’água”).

Mas se você fracassou em algo que você sabe que terá que confrontar no futuro – digamos, uma tarefa para uma nova posição no trabalho – pare e sinta a dor. Use-a como combustível para melhorar. Se você focar em quão mal você se sente, você provavelmente irá se esforçar mais para ter certeza que não cometerá o mesmo erro outra vez.

Selin Malkoc é professora associada de Marketing na universidade Ohio State

The Conversation