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O toque nos informa melhor que a visão a respeito do formato de um objeto, seu material ou tamanho
 

“Não serás sensível, visão funesta, ao tato como à vista?”

Macbeth (Ato II, cena 1), William Shakespeare

À medida que dispositivos de realidade virtual chegam ao mercado, eles trazem consigo ecos das palavras de Macbeth: o mundo em que eles te imergem pode parecer ou mesmo soar certo, mas ele não pode ser tocado ou agarrado. Ao ver uma adaga sobre uma mesa à sua frente, você pode tentar pegá-la, mas quando seu braço simplesmente atravessar o ar, fica o sentimento fantasmagórico de que as coisas não são tão reais. Objetos não-palpáveis não são convincentes, e integrar toque nas novas tecnologias é a próxima fronteira. Mas por que, para Macbeth e para nós, o toque importa tanto? O que ele traz, que a visão não consegue?

Sentir falta de toda uma família de sensações pode ser perturbador – entretanto, a ausência de experiências táteis parece ter consequências mais danosas do que a ausência de outras experiências, por exemplo, as olfativas.

Contrária à proverbial expressão “ver para crer”, é o toque que assegura um controle epistêmico sobre a realidade. Situações cotidianas mostram que o toque é o sentido “fact-checking”. Vendedores o conhecem bem: se um cliente hesita em comprar um produto, deixar que ele o toque aumenta as chances do negócio ser fechado. Todos gostamos de sentir nossas carteiras em nossas bolsas, mesmo quando acabamos de colocá-las ali. Apesar de numerosos avisos pedindo que visitantes não toquem as obras de arte expostas, guardas precisam regularmente impedir pessoas de esticar a mão e tocar estátuas e telas frágeis. Mas o que o toque traz se a visão já conta tudo o que é preciso saber?

Tradicionalmente, a filosofia concorda que o toque é mais objetivo do que outros sentidos. Por exemplo, quando Samuel Johnson queria demonstrar o absurdo que era a ideia do bispo Berkeley de que objetos materiais não existiam, ele chutou uma pedra grande e afirmou triunfalmente: “Eu assim o refuto”. Apontar para o objeto destacado não foi o suficiente, mas Johnson presumiu que o toque seria inquestionável. A resistência de objetos sólidos por meio do toque tem como tarefa nos fornecer a experiência de que existem coisas por aí, independentemente de nós e da nossa vontade.

Talvez confiamos mais no toque porque nos sentimos mais ativos e no comando quando exploramos algo por toque do que por meio da visão

Mas seria mesmo o toque o “sentido da realidade”? Certamente não. Em geral, ele não dá melhor ou mais acesso à realidade do que os outros sentidos. Se ele fornece informação mais precisa do que a visão, por exemplo, em relação ao formato de um objeto, seu material ou tamanho, depende das circunstâncias da detecção. Às vezes toque é melhor; às vezes, a visão é melhor. Podemos ser enganados pela impressão que ela dá de um contato “direto” com a realidade: o processamento tátil é altamente mediado, e se apoia talvez em expectativas e inferências inconscientes, ainda mais complexas que outros sentidos, então existem muitos modos em que nossas crenças e outras experiências sensoriais podem resultar em conclusões enganosas. Está sujeito a ilusões tanto quanto a visão. Apenas não ouvimos falar sobre ilusões táteis com tanta frequência. Para pegar apenas um exemplo, muitas pessoas se surpreendem ao descobrir que o botão em seus telefones não chega a se mexer quando pressionado: a impressão que ele se mexe é criada pela vibração, que engana o cérebro fazendo-o inferir que algo foi pressionado. Desligue o telefone e repita a ação. Você vai perceber que a superfície não consegue sair do lugar.

Se o toque não tem uma vantagem geral sobre a visão e é tão sujeito à ilusão, porque acreditamos nele? Se o toque não nos proporciona uma representação mais direta e mais objetiva do mundo, como podemos explicar o amplo sentimento que parece proporcionar?

Um importante aspecto do toque é comumente esquecido: psicologicamente, tocar é mais tranquilizador do que ver. Tocar nem sempre nos faz ter uma experiência melhor das coisas, mas certamente nos faz sentir melhor a respeito desta experiência. Mesmo quando podemos ver as chaves em nossas bolsas, temos muito mais certeza de que estão lá, uma vez que as tocamos.

O que pode parece quase supersticioso à primeira vista poderia, entretanto, ter razões mais profundas. A garantia que o toque nos dá o coloca em um lugar bastante especial em nossa vida epistêmica. René Descartes chegou perto desse diagnóstico quando reparou que a evidência que recebíamos do toque era mais difícil de descartar. “De todos os nossos sentidos”, ele escreveu em “O mundo” (1633), “o toque é considerado o menos enganoso e o mais seguro”. Talvez seja bom lembrar a história bíblica da dúvida de Tomé para entender o privilégio do toque: Tomé teve que tocar as feridas de Cristo para se convencer de que a pessoa diante dele era Jesus.

A história de Tomé nos conta algo importante. Tocar “para ter certeza” é especialmente relevante quando nossos outros sentidos ou crenças criam uma situação de grande incerteza. Indivíduos com transtorno obsessivo-compulsivo ficam tocando os objetos que lhe provocam ansiedade, ainda que consigam vê-los: voltam para desligar a torneira, mesmo quando podem ver ou ouvir que nenhuma água está pingando. Pesquisas também mostram que as pessoas ficam apreensivas quando interagem com interfaces gráficas que mostram objetos que não podem ser tocados. O toque tranquiliza; saber que não dá para tocar certas coisas pode gerar ansiedade.

Agora, por que o toque nos traria mais certeza? Este veredito se opõe ao que a ciência cognitiva nos conta. Nossos sentimentos de certeza deveriam acompanhar a correção, para que casos em que confiamos no toque mais do que na visão devessem ser aqueles em que tocar fornece uma informação mais precisa do que olhar. Mas não é isso que explica a atitude de Tomé, a de pacientes obsessivo-compulsivos ou a frustração de usuários de realidade virtual. As razões pelas quais o toque nos traz tranquilidade e certeza talvez vão mais fundo no que constitui de modo mais amplo nossos sentimentos subjetivos de confiança.

Talvez confiamos mais no toque porque nos sentimos mais ativos e no comando quando exploramos algo por toque do que por meio da visão. Esta é uma impressão subjetiva, já que também movimentamos ativamente nossos olhos quando vemos, mas o fato de que mexemos nossas mãos sobre superfícies pode explicar porque também temos mais confiança no que tocamos: acreditamos ter ativamente coletado e experimentado a prova, em vez de tê-la recebido de forma passiva. Ao sentir que “fizemos algo nós mesmos”, temos mais certeza de que é confiável. Poderia haver algo ainda mais básico e afetivo acontecendo em tais casos, talvez relacionado à experiência que o recém-nascido tem do ambiente à sua volta. É como estar agarrado ao mundo em vez de procurar conhecimento sobre ele. Podemos achar que estamos buscando informação melhor quando tocamos os objetos visíveis ao nosso redor, mas talvez estejamos simplesmente revelando uma demanda básica por tranquilidade.

Ophelia Deroy é diretora associada do Instituto de Filosofia e pesquisadora-sênior do Centro de Estudo dos Sentidos, ambos na Escola de Estudos Avançados da Universidade de Londres.

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