Foto: Pedro Kirilos

Futebol em Soweto
 

O processo de difusão dos esportes modernos na África do Sul desvela um itinerário peculiar ao longo das primeiras décadas do século 20. Enquanto o futebol permanecia circunscrito à comunidade inglesa, o rúgbi logo se convertia no veículo privilegiado de afirmação do nacionalismo africâner. Associado na Grã-Bretanha à classe trabalhadora, o futebol se afigurava aos olhos dos descendentes de holandeses um “código de segunda classe”, fonte de eterno desprezo e veículo de expressão dos “sentimentos antibritânicos”. Isso, no entanto, não impedia os africâneres de cultivarem os “códigos cavalheirescos” encarnados pelo rúgbi e “tão amados” nos campos de Eton College e Harrow School, duas das mais tradicionais instituições de ensino da Inglaterra. Se essa escolha, não isenta de ambiguidades, definia os limites da penetração do futebol no seio dos grupos dominantes, ela descortinava, em contrapartida, o imenso território aberto aos grupos subalternos, os quais, apropriando-se desta nova prática cultural, elevaram-na à condição de vanguarda na cultura popular negra.

De fato, em 1916 surgia a Durban and District African Football Association, a mais antiga associação “indígena” da União Sul-Africana, instituída na província de Natal, região considerada pela historiografia como o berço do futebol negro no país, local de nascimento da equipe pioneira do Wanderers Football Club, fundada em 1906. A partir da cidade de Durban a manifestação lúdica introduzida pelo imperialismo britânico foi abrindo caminho no imaginário das camadas populares, ao mesmo tempo em que atraía a atenção interessada dos grupos hegemônicos, desejosos em preservar a disciplina e aumentar a produtividade dos trabalhadores, sobretudo os da indústria da mineração. Nesse sentido, em 1929 missionários brancos e africanos “educados” somaram esforços na criação conjunta da JBFA (Johannesburg Bantu Football Association), entidade atrelada aos interesses do Non-European Affairs Department, órgão oficial encarregado de controlar “a vida social dos africanos” por meio das atividades recreativas, deflagradas no âmbito de um sistema mais coercitivo que, além da conquista de corações e mentes, previa ações de caráter policial e restrições de ordem legal.

Inconformados, porém, com a situação de tutela e controle a que se achavam reduzidos dentro da JBFA, um grupo de clubes tomaria a decisão de romper as amarras, fundando, em 1933, a Jafa (Johannesburg African Football Association), entidade dissidente animada pela vontade de prescindir da “ajuda” dos brancos liberais, bem como de se subtrair ao domínio das agências governamentais, seguindo, dessa maneira, a estrada da autonomia política. As autoridades brancas, por sua vez, longe de adotarem uma postura equidistante em relação às associações rivais, interferiram diretamente no conflito que as envolvia e opunha, concedendo à segunda tudo o que recusavam à primeira, isto é, a utilização dos equipamentos públicos, o acesso às fontes de recursos, qualquer espécie de apoio - estratégia concebida para punir os anseios de autonomia e recompensar as opções mais “pragmáticas”.

No bojo de um processo permeado por jogos de interesses, contradições internas e disputas de poder, emergia, no entanto, o Orlando Pirates, time do Soweto cuja trajetória pretende-se reconstituir de forma esquemática com base na obra do historiador Peter Alegi.

Conforme assinala o referido autor, em 1931, inúmeras famílias viram-se atingidas pelo programa governamental de remoção de favelas em Johanesburgo. Sem escolha, elas foram retiradas dos espaços ocupados e agrupadas em uma área inabitada nos arredores da cidade, constituindo, dessa maneira, o núcleo original do futuro bairro de Orlando, parte integrante do que posteriormente veio a ser conhecido por Soweto, acrônimo de South Western Townships. Além da inexistência de infraestrutura adequada e de serviços básicos, havia, ademais, o problema representado pela ausência de laços comunitários envolvendo os grupos ali reunidos pelo ato de força das autoridades públicas, situação logo agravada pelo crescimento exponencial da população local, a qual, em um curto espaço de tempo, saltara de 12 mil para 35 mil pessoas.

A jornada do Orlando Pirates, assim, principiava nas águas turvas de uma metrópole que se precipitava na crise econômica dos anos 1930 e se defrontava com uma série de problemas sociais, tais como a carência aguda de moradias, os altos índices de desemprego, as elevadas taxas de criminalidade, ingredientes que se tornavam ainda mais explosivos à medida que se misturavam ao acirramento das tensões raciais e ao incremento das atividades sindicais.

Nesse cenário de instabilidade social e de insegurança econômica, jovens estudantes do Soweto decidiram, em 1937, fundar o Orlando Boys Club. O time de futebol era ligado ao Leak Hall Boys Club, instituição inserida na ampla e extensa rede de clubes e associações tecida a partir da década anterior pelos liberais brancos, missionários americanos, industriais da mineração e autoridades do governo, todos eles, em maior ou menor grau, dispostos a prover e assegurar entretenimento aos “nativos”. Estes achavam-se sem perspectiva de trabalho, fora da escola, à deriva na “nova Babel” que brotara da noite para o dia, em 1886, a partir da descoberta das camadas auríferas na região do Transvaal.

Conquanto possuíssem razões próprias para levar adiante tão nobre empresa, os agentes da ordem exibiam em comum o medo e pânico do “perigo negro” e compartilhavam a premissa ideológica acerca da “incapacidade cultural” dos africanos em lidar com as exigências da urbanização e da industrialização, processos inter-relacionados que haviam arrebatado os “nativos” do meio rural para lançá-los no universo urbano, onde, acreditavam as autoridades públicas, acabavam imergindo no submundo do crime, enveredando pela delinquência juvenil, ou, pior ainda, tornavam-se presa fácil do proselitismo comunista, caindo nas malhas da subversão política.

Todavia, se a recreação esportiva havia sido concebida como a “ferramenta da dominação não coercitiva” acionada pelos grupos hegemônicos para manter a ordem sócio-racial na Johanesburgo da primeira metade do século 20, logo acabaria sendo apropriada e manejada com destreza política pelos grupos subalternos nas cidades segregadas, voltando-se contra os que haviam imaginado manipulá-la sem riscos. De fato, ela lhes escapava por todos os lados, a começar pelo núcleo em torno do qual se desenvolvia Orlando, bairro onde a ideia de uma agremiação autônoma ganhava vida, conquistava adeptos e mobilizava recursos necessários para materializar-se.

Na passagem dos anos 1930 para os anos 1940, numa reunião realizada na casa de Andries Mkwanazi, antigo instrutor de boxe e treinador de futebol, o time criado por um grupo de jovens se refundava, adotando a designação de Orlando Pirates Football Club, nome inspirado nos filmes de capa e espada estrelados por Errol Flynn, em especial, no mais emblemático do gênero, “Sea Hawk”. A embarcação, afinal, colocara-se em movimento e incorporava agora novos tripulantes. Bethel Mokgosinyane, carpinteiro por profissão, supervisor em uma fábrica de Johanesburgo, subia a bordo para assumir o timão, nomeado pelos jogadores presidente do clube. Em sua residência, na parte leste do bairro, toda quarta-feira à noite, os membros do Orlando Pirates reuniam-se para discutir a partida realizada no final de semana anterior e projetar a partida prevista para o final de semana seguinte. Uma análise coletiva, aberta e democrática, explica Peter Alegi, que visava estimular e encorajar no grupo de atletas a reflexão crítica acerca dos movimentos realizados dentro de campo, das ações planejadas de antemão, da disciplina necessária para desenvolvê-las. De acordo com o aludido historiador: “poucos times sul-africanos”, então, “gastavam tanto tempo discutindo táticas e formas de jogo como o Pirates”.

O caminho inovador trilhado pelo clube do Soweto entrelaçava a exigência estética do jogar bonito com o imperativo cívico de servir a comunidade. Esta dupla dimensão implicava por sua vez uma atuação inventiva dentro e fora das quatro linhas, como nos mostra a pesquisa acurada de Peter Alegi. Dentro de campo, o time atuava com base no tripé formado pela resistência física, destreza individual e “habilidade analítica”, elementos constitutivos de uma estilística de jogo que privilegiava o passe curto e o toque de bola ao invés do antigo estilo colonial alicerçado na correria determinada pela ligação direta do ataque e da defesa. Fora de campo, ele se transfigurava em uma “sociedade funerária” organizada com o propósito de assegurar um enterro digno aos membros do clube, mediante a “coleta dos mortos” realizada entre os associados; convertia-se, além disso, em uma agência de empregos incumbida de encontrar aos integrantes da equipe um posto no mercado de trabalho; e, por último, mas não menos importante, constituía-se na fonte de identificação dos moradores, no orgulho e símbolo da comunidade, na força de mobilização dos africanos a favor da autodeterminação.

Nesse sentido, em 1946, a agremiação alvinegra abandonaria as fileiras da JBFA para liderar a formação de uma nova associação na área de Orlando, assumindo, desse modo, “a vanguarda da luta pelo controle do futebol local nas townships do sudoeste”. A reivindicação do lazer autônomo, consubstanciada na criação da Johannesburg Municipal Townships Football Association, não alcançaria o êxito desejado. Alguns anos depois o Pirates reingressava nas fileiras da Jafa. A despeito do revés, determinado em última instância pela correlação adversa de forças então estabelecida no campo esportivo, restava o mérito de uma iniciativa capaz de desvelar-nos a potencialidade da luta empreendida pelo futebol corsário.

A equipe do Soweto, com efeito, situava a exigência de autonomia em todos os níveis de atuação, desde a organização tática da equipe, passando pela gestão administrativa dos clubes, incluindo, de modo mais abrangente, o controle da esfera do lazer nas áreas da cidade em que os negros viviam confinados. O alcance e profundidade desta reivindicação a situava em linha de confronto aberto com a metáfora colonial da “child race” invocada pelas elites brancas para justificar a tutela exercida sobre os negros, bem como o desenvolvimento separado das atividades esportivas.

A navegação social empreendida pelo Orlando Pirates, baseada em um recrutamento de caráter multiétnico dos atletas, conquanto restrito aos moradores do bairro no qual se encontrava inserido o clube, almejava romper com a condição de minoridade imposta à população africana, ao mesmo tempo em que deixava entrever no horizonte a necessidade inadiável de suprimir as barreiras erguidas entre os grupos discriminados. Ela articulava, sobretudo, os três aspectos constitutivos da noção antropológica de futebol arte, a saber: técnica corporal, prática de liberdade e narrativa de emancipação.

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio