Foto: Andrey Volkov/Reuters

Idosa
Segundo Confúcio, a morte de idosos, a mais comum das tristezas, é na verdade a intensidade mais perturbadora da vida
 

Pouco tempo antes da morte de meu avô, fiquei no hospital com ele, fazendo companhia enquanto ele, de robe hospitalar e esquelético, esperava pelo que quer que os médicos fossem fazer. Antes de eu ir embora, apontou para o guarda-roupa e pediu que levasse sua carteira para casa. Falando suavemente, ele se preocupava de que “algum sujeito malandro possa entrar aqui enquanto estou dormindo e fuçar nos meus trapos, e eu perderia meu caderninho”.

Peguei sua carteira e saí de lá sentindo o peso da perda que estava a caminho. Me dei conta de que quando meu avô morresse, não teria ninguém para conversar comigo daquele jeito, ninguém com quem compartilhar as intensidades radicais da vida expressas em uma retórica arcaica de delicados eufemismos. Com meu avô, eu ocupava um mundo em que ladrões eram sujeitos malandros, calças eram trapos e carteiras eram caderninhos, e roubo é perda. A morte em si era meio que um sujeito malandro. Meu avô não queria morrer, mas o máximo que ele disse sobre o assunto foi que ele preferia “suportar mais um pouquinho”.

O luto sempre implica uma perda de linguagem, assim como relacionamentos geram vocabulários idiossincráticos que surgem com o tempo e a experiência compartilhada. Uma vez que a morte encerra relacionamentos, ela encerra as trocas características em que essas relações encontram sua existência, modos de falar e entender, formados conjuntamente. Todavia, existe algo diferente na perda das pessoas mais velhas. É aqui que perdemos uma língua nativa, a língua em que aprendemos um mundo. O mundo tal como o encontramos pela primeira vez é aquele que eles nos dão e descrevem.

Em parte por causa disso, o antigo filósofo chinês Confúcio sugeriu que viver o luto por um pai requer que seres humanos “doem a si mesmos completamente”. De acordo com um antigo ditado de Confúcio, a morte de idosos, a mais comum das tristezas, é na verdade a intensidade mais perturbadora da vida. Próxima a boa parte da filosofia ocidental, existe algo de peculiar na atitude confuciana. Afinal, a morte na conclusão de uma longa vida é o melhor que podemos esperar quando somos todos mortais. Perder os mais idosos é como as coisas são, e o modo como as preferimos. É de longe muito melhor que as crianças vivam mais que os pais, e os netos que os avós.

Nos tornamos nós mesmos por meio de inúmeros outros, nossas identidades formadas nos relacionamentos com os outros. Neste sentido, relacionamentos com pais e avós são singulares.

Em qualquer registro de perda, quando falamos de finais, a morte de um idoso parece ser do tipo mais brando. Se considerarmos essas mortes ruins, não seria a morte em si – toda a morte – terrível? Se não podemos tolerar com serenidade a passagem de nossos idosos, talvez não haja passagem que consiga ser tolerada. Localizar as mortes dos idosos dentro do campo mais amplo das possibilidades mortais é vê-las como boas e oportunas, prosaicas e previsíveis – e possamos então imaginar que o sofrimento será aquietado. O problema com esse raciocínio, sugere Confúcio, é que o sofrimento nunca é muito por causa da morte.

Pode-se tolerar a morte, e ainda assim lamentar. Confúcio saudou sua própria morte com serenidade, contente de morrer nos braços de amigos, ele disse; ele considerou sua vida inteira como a única oração e súplica que sua morte pedia. Entretanto, quando o monte de terra que marcava o túmulo de seus pais colapsou, ele também o fez, chorando inconsolavelmente sobre o insulto simbólico jogado por cima da ferida original. Os sábios podem aceitar a morte, mas a sabedoria não tem proteção contra a tristeza. Pois não é a morte, mas a perda que é o gatilho do sofrimento – e a perda dos idosos é uma perda diferente de todas as outras.

Nos tornamos nós mesmos por meio de inúmeros outros, nossas identidades formadas nos relacionamentos com os outros. Nesse sentido, relacionamentos com pais e avós são singulares. Vem deles nossa primeira linguagem, o mundo que eles desenham em conduta e fala é o mapa por onde começamos. Em uma imagem recorrente na filosofia confuciana, os idosos nos “enraízam” biologicamente, mas também moral e existencialmente. Florescemos – em entendimento, cuidado com os outros e propósito – porque extraímos em profundidade do que eles fizeram e ofereceram. Quando somos bem cultivados, incorremos em uma dívida da qual não podemos nos desfazer

Viver bem é o pagamento apropriado pelo seu ensino, mas sua verdadeira medida reside em um futuro que eles não irão compartilhar, quando nos tornamos os idosos de outros. A mesma sensibilidade geracional que nos aconselha a aceitar as mortes de nossos idosos é precisamente o que torna sua perda tão impactante e terrível. No confucionismo, presenciar o envelhecimento dos pais é ao mesmo tempo “uma fonte de alegria” e “trepidação”: ao mesmo tempo em que celebramos ficar muito tempo com seu afeto e companhia, o modo como as coisas acontecem implica que não podemos mantê-los. O avanço de sua idade insinua uma solidão futura diferente de todas as outras.

Ao passo que desejamos que os mais velhos se vão antes dos mais jovens, nos apavora o fato de que sua passagem nos obrigará a encontrar nossa própria autoridade, e terá que chegar o dia em que a única sabedoria experiente que poderemos encontrar será a nossa. Também aqui um contraste com o pensamento filosófico ocidental é instrutivo. Nos textos fundacionais do pensamento ocidental, a relação humana paradigmática é a amizade. A modesta literatura de consolo da tradição foca apenas nisso, na perda de companhias. Significativamente, a principal receita para o sofrimento é o reconhecimento de que, onde se foi amigo, pode-se o ser outra vez. Amigos não são substituíveis, mas podem ser múltiplos.

A perda de um dos pais ou avós não funciona assim. Por mais ricas que sejam nossas relações, só meus pais podem ser meus pais; só meus avós podem ser meus avós. Outros que preenchem algo parecido com estes papéis para mim sempre poderão ser apenas “parecidos”. Eles não podem exercer esse papel integralmente, pois o papel tem origem antes do meu começo e, como experiência, define o mundo como sempre o conheci. Um mundo sem um pai ou avô, um mundo iniciado na perda, é desconhecido e sem precedentes, um território em que todos os meus mapas de experiência prévia terminam.

Às vezes, falamos como se as mortes de nossos idosos justificassem menos sofrimento - como se, no envelhecimento, a vida está cansada e não deixa nenhum remanescente em que a verdadeira tristeza possa se apegar. No ditado de Confúcio, entretanto, todo nosso organizado raciocínio sobre o que os mortais devem esperar e deveriam aceitar não substitui a “malandra” verdade a respeito da dependência que temos dos nossos amados idosos. Quando a idade não consegue suportar um pouco mais, deixa muito como remanescente. Confia o que pode à guarda segura da juventude, ainda que a juventude precise seguir em frente, desprovida e sobrecarregada, sozinha como nunca antes esteve.

Amy Olberding é professora de filosofia na Universidade de Oklahoma. Seu livro mais recente é “Dao Companion to the Analects”  “Acompanhante tao dos Analetos, em tradução livre) (2014)

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