Foto: Nasa

cassini
A missão espacial Cassini foi uma consequência direta dos experimentos intelectuais de Einstein
 

A cada semestre, dou cursos de filosofia da ciência para alunos da graduação na Universidade de New Hampshire. A maior parte dos estudantes faz meus cursos para satisfazer requisitos curriculares, nunca tendo participado antes de uma aula de filosofia.

No primeiro dia do semestre, tento dar a eles uma ideia do que se trata a filosofia da ciência. Começo explicando que a filosofia lida com questões que não podem ser resolvidas apenas com os fatos, e que a filosofia da ciência é a aplicação desta abordagem ao domínio da ciência. Depois disso, explico alguns conceitos que serão centrais ao curso: indução, evidência e método na investigação científica. Digo a eles que a ciência avança por indução, isto é, a prática de recorrer a observações passadas para argumentar sobre o que ainda não foi observado, mas que filósofos veem a indução como inadequadamente justificada, e portanto problemática para a ciência. Eu então vou para a dificuldade de decidir qual prova se encaixa de forma única em qual hipótese, e porque acertar neste ponto é vital para qualquer pesquisa científica. Informo a eles que o “método científico” não é singular e direto, e que existem disputas básicas sobre como a metodologia científica deveria se parecer. Por fim, enfatizo que, embora estas questões sejam “filosóficas”, ainda assim elas têm consequências reais em como é feita a ciência.

A essa altura, eles costumam me fazer perguntas como: “Quais são suas qualificações?”, “A que escola você foi?” e “Você é cientista?”.

Talvez façam essas perguntas porque, como filósofa de origem jamaicana, eu personifico um agrupamento de identidades pouco familiar, e eles têm curiosidade a meu respeito. Tenho certeza de que isso é parcialmente correto, mas acho que não é só isso, porque observei um padrão similar em um curso de filosofia da ciência lecionado por um professor que se encaixa melhor no estereótipo. Como estudante de graduação na universidade de Cornell, em Nova York, servi como assistente de ensino em um curso de natureza humana e evolução. O professor titular causou uma impressão física muito diferente do que eu causo. Ele era branco, homem, barbudo e na casa dos 60 — a própria imagem da autoridade acadêmica. Mas os estudantes estavam céticos diante de suas visões a respeito da ciência porque, como disseram alguns, em tom de desaprovação, “ele não é um cientista”.

Acredito que estas reações têm a ver com preocupações sobre o valor da filosofia em comparação com o da ciência. Não é surpresa que alguns dos meus estudantes tenham dúvidas se os filósofos têm algo de útil a dizer sobre a ciência. Eles sabem que cientistas de renome já disseram publicamente que a filosofia é irrelevante para a ciência, se não completamente inútil e anacrônica. Eles sabem que a formação STEM (acrônimo em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática) é vista como muito mais importante do que qualquer coisa que as humanidades têm a oferecer.

Muitos dos jovens que frequentam minhas classes consideram a filosofia uma disciplina confusa que se preocupa apenas com questões de opinião, enquanto a ciência se ocupa com a descoberta de fatos, a entrega de provas e a disseminação de verdades objetivas. Além disso, muitos deles acreditam que os cientistas podem responder questões filosóficas, mas que os filósofos deveriam se abster de opinar em assuntos da ciência.

Por que estudantes universitários comumente tratam a filosofia como uma forma totalmente distinta e inferior à ciência? Pela minha experiência, quatro razões se destacam.

Uma tem a ver com uma falta de consciência histórica. Estudantes universitários tendem a achar que divisões de departamento refletem divisões precisas do mundo, e assim não conseguem compreender que a filosofia e a ciência, assim como a suposta divisão entre elas, são criações humanas dinâmicas. Alguns dos assuntos que hoje são rotulados como “ciência” antes se localizavam em categorias diferentes. A física, a mais segura das ciências, era antes da competência da “filosofia natural”. E a música já esteve em casa na faculdade de matemática. O escopo da ciência já se estreitou e se expandiu, dependendo do tempo, lugar e contexto cultural em que era praticada.

Muitos dos jovens que frequentam minhas classes consideram a filosofia uma disciplina confusa que se preocupa apenas com questões de opinião, enquanto a ciência se ocupa com a descoberta de fatos, a entrega de provas e a disseminação de verdades objetivas.

Outra razão está ligada a resultados concretos. A ciência resolve problemas do mundo real. Ela nos fornece a tecnologia: coisas que podemos tocar, ver e usar. Ela nos dá vacinas, safras geneticamente modificadas e analgésicos. Para os estudantes, a filosofia não tem nada tangível para mostrar. Mas, ao contrário, as tangibilidades da filosofia são muitas: os experimentos de pensamento filosóficos de Albert Einstein tornaram possível [a missão espacial] Cassini. A lógica de Aristóteles é a base para a ciência da computação, que nos deu laptops e smartphones. E o trabalho dos filósofos na questão corpo-mente preparou o terreno para o surgimento da neuropsicologia e, portanto, a tecnologia de imagem do cérebro. A filosofia sempre esteve trabalhando em silêncio nos bastidores da ciência.

A terceira razão está relacionada a questões relacionadas à verdade, objetividade e viés. A ciência, os estudantes insistem, é puramente objetiva, e qualquer um que questiona essa visão tem de estar equivocado. Uma pessoa não será considerada objetiva se ela aborda sua pesquisa com um conjunto de presunções prévias. Em vez disso, será vista como “ideológica”. Mas todos nós somos “enviesados” e nossos vieses alimentam o trabalho criativo da ciência. Esta questão pode ser difícil de abordar, pois a ideia ingênua de objetividade está muito incrustada na imagem popular do que é a ciência. Para se aproximar dela, convido estudantes a olharem para algo que esteja perto sem quaisquer pressuposições. Eu então peço a eles que me contem o que veem. Eles param… e então reconhecem que não conseguem interpretar suas experiências sem se basear em ideias prévias. Uma vez que percebem isso, a ideia de que pode ser adequado fazer perguntas sobre a objetividade na ciência deixa de ser tão estranha.

A quarta fonte do desconforto dos estudantes advém da forma como encaram o ensino da ciência. Tem-se a impressão de que eles pensam na ciência principalmente como uma itemização de coisas que existem — “os fatos” — e que o ensino da ciência se trata de ensinar a eles o que são esses fatos. Eu não me curvo a estas expectativas. Mas, como filósofa, estou principalmente preocupada em como estes fatos são selecionados e interpretados, porque alguns são considerados mais significativos que outros, os modos como fatos vêm carregados por pressuposições, e assim por diante.

Estudantes geralmente respondem a estas questões dizendo de modo impaciente que fatos são fatos. Mas dizer que uma coisa é idêntica a si mesmo é não dizer nada interessante sobre ela. O que estudantes querem dizer com “fatos são fatos” é que, uma vez que temos “os fatos”, não há espaço para interpretação ou discordância.

Por que eles pensam desta forma? Não é porque esta é a maneira que a ciência é praticada, mas porque esta é a maneira que a ciência normalmente é ensinada. Existe um número assustador de fatos e procedimentos que os estudantes precisam dominar antes de se tornarem cientificamente letrados, e eles só têm uma quantidade limitada de tempo para aprendê-los. Cientistas precisam planejar seus cursos de modo a acompanhar a rápida expansão da sabedoria empírica, e eles não têm a oportunidade de devotar horas de tempo de aula a questões que provavelmente não são habilitados a abordar. O resultado acidental é que estudantes frequentemente saem das aulas sem ter consciência de que questões filosóficas são relevantes para a teoria e a prática científica.

As coisas não precisam ser assim. Se a plataforma educacional certa é fornecida, filósofos como eu não terão que trabalhar contra o vento para convencer nossos estudantes de que temos algo importante a dizer sobre a ciência. Para isso, precisamos da assistência de nossos colegas cientistas, a quem os estudantes veem como os únicos fornecedores legítimos de sabedoria científica. Proponho uma divisão explícita de trabalho. Nossos colegas cientistas deveriam continuar a ensinar os fundamentos da ciência, mas eles podem ajudar ao deixar claro a seus estudantes que a ciência transborda com importantes questões conceituais, interpretativas, metodológicas e éticas que filósofos estão excepcionalmente posicionados para abordar, e que, longe de serem irrelevantes para a ciência, assuntos filosóficos habitam no seu âmago.

Subrena E. Smith é professora-assistente de filosofia na Universidade de New Hampshire

Aeon counter – do not remove