Foto: Joop van Bilsen/Anefo Creative Commons

Pelé jovem no Santos
 

Em meados da década de 1950, no exato momento em que Pelé desembarcava na Vila Belmiro, notícias esparsas, aparentemente sem nenhum tipo de vínculo entre si, deixavam entrever a ordem sociorracial na qual se moviam os integrantes das comunidades negras na cidade de Santos. A cobertura jornalística mencionava a empregada doméstica detida sem motivo aparente, quando “se achava sentada num dos bancos do jardim”, à noite, na praia do Gonzaga, de nada lhe adiantando “os esclarecimentos necessários” prestados depois na Delegacia de Costumes “para justificar sua presença naquele local”; aludia aos trabalhadores encarcerados de forma arbitrária e espancados de modo recorrente pelo aparato policial; noticiava, com frequência, os mendigos que erravam pelas ruas do centro, como no caso eloquente da “jovem de cor” que adormecera “completamente embriagada” no passeio público, levando o articulista de A Tribuna a cobrar das autoridades providências para que a cidade fosse “limpa desses farrapos humanos”.

O esboço da presença negra em Santos contemplava, ainda, os meninos da Vila Belmiro, expressão que nos idos da década de 1950 denotava não exatamente as jovens revelações do time alvinegro praiano, mas a “meninada rota, rasgada e maltrapilha” que, a cada domingo, em dia de jogo, quedavam “em torno dos portões esmolando” para entrar no estádio de futebol. Em todas estas cenas os descendentes de escravos surgiam invariavelmente situados à margem da denominada boa sociedade, labutando nas docas, vivendo nas bocas. Evocavam uma história que, longe de se encontrar sepultada e esquecida, irrompia e se materializava no cotidiano da cidade, de forma súbita e inesperada. Por exemplo, por meio dos presos da cadeia pública “conduzidos pelas ruas”, algemados e de uniforme, constituindo uma “situação vexatória”, que, salientava A Tribuna, recordava “épocas há muito passadas, quando os culpados por qualquer crime, até por bruxaria, eram expostos à vista do público, colocados no pelourinho ou amarrados em carretas”.

À luz do quadro acima esboçado, se nos impõe uma questão incontornável: acaso os olhares tão suscetíveis à presença fora do lugar da empregada doméstica, apreensivos face ao espetáculo do prisioneiro algemado, escandalizados diante da realidade do “farrapo humano”, captavam com uma lente diversa o espetáculo protagonizado pelos atletas negros do time do Santos? Enxergavam-nos com olhos mais benevolentes, despojados de preconceito e discriminação?

Empurrados para as margens da ordem moderna e competitiva no período subsequente à abolição, relegados às tarefas subalternas que dispensavam qualificação profissional, os descendentes de escravos encontraram no campo do futebol, decerto, a possibilidade de inserção simbólica no quadro da nacionalidade, a oportunidade de ascensão econômica no contexto da vida social, a chance de interação racial, ao menos dentro das quatro linhas, em condições menos assimétricas e de acordo com códigos de comportamento que já não se coadunavam aos padrões herdados do passado.

Isto, obviamente, não implica afirmarmos a inexistência do preconceito e da discriminação, como nos mostra, aliás, a trajetória de Pelé. De fato, recém-chegado a Santos, proveniente de Bauru, com apenas 16 anos de idade, logo receberia do proeminente jornalista esportivo da cidade, De Vaney, o sorriso subserviente que os teóricos do panafricanismo denominavam "y’a bon banania": "Conversei com Pelé após o jogo. Nem um vintém de máscara em seu rosto simpático, em que há sempre um sorriso mostrando 32 dentes muito brancos e que fazem franzir dois olhos grandes e muito pretos."

Além de receber a marca icônica do sorriso “y’a bon banania” (expressão que remete aos cartazes criados no início do século 20 para uma farinha de banana, com a figura de um soldado senegalês com um sorriso estampado no rosto), o jovem atleta foi imediatamente classificado na categoria racial do “crioulinho”, epíteto utilizado na reportagem de A Tribuna destinada a exaltar-lhe os quatro gols marcados contra a Portuguesa Santista, na vitória do alvinegro por 6 a 2, em novembro de 1957. No mês seguinte o mesmo periódico recorria ao folclore nacional para destacar-lhe o desempenho no empate de 2 a 2 com o São Paulo, aludindo, desta feita, ao “descomunal” desempenho do “saci”. Todavia, pouco depois, na estreia da equipe no Torneio Rio-São Paulo, o periódico desvelava certa inquietação em relação à designação correta para se referir à nova personagem, deixando transparecer a preocupação em nomeá-la com uma expressão despojada de todo e qualquer preconceito. Comentando a vitória de 5 a 3 obtida contra o América, no Maracanã, a reportagem procurava agora explicar em termos didáticos aos leitores o procedimento mais adequado. A emenda, contudo, sairia muito pior que o soneto: “Como, neste país, chamar preto de negro – que é cor, não é defeito, ofende, chamaremos o Pelezinho de chocolate, que é, afinal, uma misturazinha com um pouco de leite.”

A alcunha atribuída a Pelé, o “chocolatezinho do Santos”, compunha o amplo repertório de expressões racistas evocadas para designá-lo no início da carreira profissional. Ao mesmo tempo, ela obedecia à estratégia discursiva de diluir-lhe a identidade negra dentro da ideologia da mestiçagem, mediante a simples adição de algumas gotas de “leite”, poucas, mas suficientes para promover o branqueamento simbólico da jovem revelação.

À medida, porém, que se desenhava o caminho bem-sucedido da sua ascensão profissional, a identidade do atleta readquiria a feição que lhe havia sido subtraída pelo discurso de poder do jornalismo esportivo, reafirmando, não sem ambiguidades, o valor da negritude no contexto das transformações mais amplas e profundas em curso na esfera da cultura popular na cidade praiana. De fato, a projeção da equipe de futebol do Santos, o espaço obtido pela Escola de Samba X-9, a força religiosa expressa na Festa de Iemanjá, fixavam novos sentidos às representações sociais acerca do ser negro, descortinando para ele um horizonte mais amplo de atuação. A trajetória de Esmeraldo Tarquínio, nesse sentido, revelava-se ilustrativa dos processos convergentes da cultura, da política e do esporte. Detenhamo-nos na personagem.

Conselheiro e diretor do Santos Futebol Clube, militante do Partido Socialista Brasileiro, político de talento em quem o jornal A Cidade de Santos enxergava não somente semelhanças físicas, mas também afinidades ideológicas com Martin Luther King, o líder do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, Esmeraldo Tarquínio galgara pouco a pouco os degraus da carreira partidária até se lançar em 1968 candidato à prefeitura do município portuário pelo Movimento Democrático Brasileiro, MDB.

Entretanto, salientava o jornal, o principal obstáculo enfrentado pela sua candidatura consistia no “preconceito racial do brasileiro que não quer votar num candidato negro para um posto do Poder Executivo”. Ora, contrariando as expectativas mais pessimistas, o candidato do MDB transpôs a referida barreira, elegendo-se o primeiro prefeito negro do município praiano. O periódico, porém, no afã de celebrar-lhe a vitória, estamparia a manchete destinada a causar imensa polêmica entre os leitores. Conforme anunciava o referido jornal: “Deu Crioulo mesmo, Tarquínio eleito”. O qualificativo em questão, empregado a torto e a direito, considerado familiar, amistoso e natural na esfera do futebol, afigurava-se, no entanto, deslocado no contexto da eleição para o Executivo municipal, soando ali ofensivo e incompatível com o cerimonial que o cargo exigia e impunha.

As manifestações de protesto, desse modo, não demoraram a chegar às páginas de A Cidade de Santos. Procurando rebatê-las e justificar-se, os editores decidiram apelar, como último recurso, ao próprio candidato a fim de desfazer o que lhes parecia ser tão somente um “mal-entendido”. Esmeraldo Tarquínio, ciente da importância do apoio recebido na disputa para a prefeitura, fez, então, a declaração ansiosamente aguardada pela direção do jornal a fim de serenar os ânimos: “A manchete criticada eu avalizo em todos os sentidos, ela foi, em termos de teatro atual, a agressão que o público estava precisando.” 

Demonstrando habilidade política, Esmeraldo Tarquínio saía em socorro do órgão de imprensa que o respaldara na campanha eleitoral, ao mesmo tempo em que aludia à violência simbólica contida no uso de uma expressão que, tendo como pano de fundo o preconceito e a discriminação, circulava livremente pelas mais diversas áreas da sociedade brasileira. Do subterrâneo do crime ao mundo do espetáculo, passando pelo campo da política partidária, ela encarnava significados ambíguos e suscitava juízos opostos.

Se, por um lado, o conjunto de samba autodenominado “Os Crioulos”, patrocinado pela empresa fonográfica Odeon, entretinha o público com as músicas de um repertório batido, por outro lado, o grupo criminoso designado pelo noticiário policial de “Crioulos Doidos” causava apreensão generalizada com a “audácia de seus assaltos”, mais de trinta cometidos somente na região da zona Sul de São Paulo. Do submundo do crime o termo migrava para o espaço aberto do estádio do Morumbi onde o São Paulo media forças contra a seleção de Gana. A expressão reaparecia aqui eivada de ironia e sarcasmo, direcionados à equipe africana, cuja exibição, segundo a crônica paulista, assemelhava-se ao “jogo dos crioulos doidos”.

A questão racial, portanto, emergia no domínio do futebol e se ramificava através das múltiplas dimensões da vida social, adquirindo em cada uma delas uma feição própria e um significado peculiar. Ao longo da década de 1960, no entanto, cristalizou-se a polarização entre os “crioulos” do time do Santos e os “crioulos” do morro da cidade. Enquanto as páginas de esportes exaltavam o valor futebolístico dos primeiros, reiterando para os leitores a imagem do Brasil como o reino da democracia racial, internamente, no município portuário onde a equipe praiana mergulhava raízes e adquiria a inconfundível cor local, as páginas policiais depreciavam ao máximo a representação social dos segundos, retratados não apenas no banco dos réus, na condição de criminosos, mas, sobretudo, como membros de um determinado segmento da sociedade, moradores de uma área bem delimitada do espaço urbano, cuja pertença étnica e identidade racial, através de fotos e legendas, aflorava no amplo repertório de alcunhas que as acompanhava e estigmatizava: “João Neguinho”, “Nega Chorona”, “Nega Fia”, “Neguinho Chulé”, “Monstro Negro”, para citarmos apenas algumas das inúmeras figuras que nutriam o imaginário racista do noticiário policial.

No decorrer dos anos 1960, porém, uma nova personagem chegava para enriquecer a galeria de nomes. Amiúde os jornais davam conta das vicissitudes de sua existência, dos confrontos travados com as forças da ordem, das fugas quase sempre frustradas que se transformavam em encontros inescapáveis com a morte. Assim, no mês de junho de 1968, em busca de um suposto assassino, refugiado nos morros da cidade, a polícia da Baixada Santista invadiu a “moradia de Pelé”, simples “barraco velho” onde a mãe dormia “embriagada”. O informante que conduziu os agentes da ordem até o local do esconderijo, interpelado a respeito do paradeiro do homem procurado, limitou-se a dizer que não sabia ao certo de quem se tratava, pois “conhecia mais de dez pessoas com o apelido de Pelé”. De fato, a partir da entrada em campo do Esquadrão da Morte, os homônimos do famoso atleta do Santos começaram a jogar uma partida perdida de antemão, como nos mostra o destino trágico do “marginal” de codinome “Pelé Barriga”, cujo corpo, crivado de balas, havia sido encontrado em meados de 1970 em um matagal ao longo da rodovia Pedro Taques.

A violência que recaía sobre a população pobre e negra dos morros e dos subúrbios da cidade praiana desvelava-se como o “duplo demoníaco” do futebol-arte. Com efeito, ao avanço da barbárie decorrente da desigualdade socioeconômica, do estigma étnico-racial e das ações de terrorismo deflagradas pelo aparato repressivo e paramilitar do Estado, contrapunha-se o projeto civilizador definido idealmente por uma forma de jogar que se mostrava avessa à violência dentro das quatro linhas, aberta à interlocução com as diversas formas da alteridade, orientada pelo princípio ético da autonomia individual e coletiva. Essa concepção, embora não isenta de contradições, implicava ademais uma reviravolta na escala de valores edificada pelo futebol de resultados, conforme deixava entrever o diálogo mantido por Pelé com o embaixador da Nigéria, no Brasil, J.A.O. Kadiri, encontro intermediado por Esmeraldo Tarquínio. À beira do gramado de Vila Belmiro, o atleta explicava ao diplomata africano a motivação recôndita que impelia a nau do alvinegro praiano: “Embaixador, o Santos não joga simplesmente pensando no resultado. O Santos faz exibição de futebol, pode perder ou ganhar, tudo é a mesma coisa para nós.”

Dessa maneira, inspirado pela filosofia do futebol-arte, sob a proteção de Iemanjá, a rainha do mar, e embalado pelo ritmo da Escola de Samba X-9, o time do Santos lançava-se em meados dos anos 1960 nas águas do Atlântico Negro, levando na bagagem o artefato que associava de forma inextricável civilização e barbárie.

Referências: “Novas arbitrariedades da Polícia de Costumes”, A Tribuna, 8 de janeiro de 1959; Seção: “Ocorrências Policiais”. A Tribuna, 17 de janeiro de 1958; “Cenas deprimentes que a cidade apresenta”, A Tribuna, 25 de abril de 1958; “E o drama continua”, coluna: De Vaney, 25 de agosto de 1957; “Espetáculo deprimente”, A Tribuna, 22 de dezembro de 1957; Roger Bastide e Florestan Fernandes, Brancos e negros em São Paulo, 2008, 4º ed. São Paulo, Global; “O assunto do dia”, A tribuna, 28 de agosto de 1956.; “Espetacular vitória do Santos F.C. sobre a Portuguesa”, A Tribuna, 3 de dezembro de 1957; “Esbulhado, ontem, o Santos, de modo vergonhoso, no jogo com o S.Paulo”, A Tribuna, 4 de dezembro de 1957; “Trechos”, A Tribuna, 28 de fevereiro de 1958; Kabengele Munanga, Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra, 1999, Petrópolis, RJ. Vozes Editora; “Um homem que pode ser nosso prefeito”, Cidade de Santos, 13 de maio de 1968; A Cidade de Santos, 17 de novembro de 1968; “Tarquínio não admitirá erro em seu governo”, Cidade de Santos, 17 de novembro de 1968; Nei Lopes, 2004, Enciclopédia brasileira da diáspora africana. São Paulo, Selo Negro,2004 ; “Os Crioulos”, Cidade de Santos, 3 de dezembro de 1969; “É o fim dos Crioulos”, Cidade de Santos, 10 de julho de 1968;  “O jogo dos crioulos doidos”, Cidade de Santos, 7 de dezembro de 1969; “´Neguinho Chulé` tentou furtar bolsa, deu azar”, 12 de dezembro de 1969; “´Monstro Negro` mata menino de sete anos”, 12 de dezembro de 1969; “Vigarista aplica ´suadouro` e foge”, 12 de setembro de 1970; “Preso ´João Neguinho`, ´Rei das penosas`”, 14 de agosto de 1969; “´Nega Chorona` furtou e foi apanhada pela vítima”, 17 de abril de 1971. Todas as reportagens publicadas no jornal Cidade de Santos; “Sapato e apelido identificaram o Pelé”, Cidade de Santos, 4 de junho de 1968; “Esquadrão assassina 2 e ameaça mais 40 presuntos”, Cidade de Santos, 22 de julho de 1970; Homi Bhabha. O local da cultura, 2007, Belo Horizonte, UFMG, pág. 237; “Embaixador da Nigéria veio conhecer o ´Rei`”, Cidade de Santos, 23 de março de 1968.

Este texto é uma republicação de artigo publicado no site ludopédio