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“Stańczyk durante um baile na Corte da Rainha Bona em face da queda de Smolensk” (Matejko, 1862)

O termo democracia é usado atualmente para denotar tudo que é íntegro no mundo social. Ainda assim existem outras coisas que são democráticas. Com isso eu não quero dizer que democracia tem que ser temperada por algum ideal político elitista ou autocrático. Em vez disso, eu quero dizer que nós devemos reservar um espaço em nossas vidas sociais compartilhadas para aquilo que não é totalmente político. Mesmo em uma democracia, a política deve ser mantida em seu devido lugar. 

Manter a democracia em seu lugar não é fácil. A ideia de uma autogestão coletiva nos leva a pensar que cidadãos devem perpetuamente estar na tarefa de governar a si mesmos. Por isso, a mensagem central da maioria das teorias democráticas tem sido que nossas vidas também devem ser impulsionadas por objetivos e projetos democráticos. E essa mensagem teórica tem claramente funcionado na prática. A política democrática está profundamente infiltrada nas nossas vidas sociais. Nossas interações diárias, desde cafeterias e esquinas das ruas até discussões por comentários e posts em blogs, estão cada vez mais estruturadas pelas nossas alianças políticas, e essas alianças, com ainda mais frequência, fornecem o conteúdo de nossas conversas casuais.

Não é exagero dizer que hoje nos Estados Unidos suas escolhas sobre assuntos mundanos – como comprar em supermercados, quais programas de televisão você assiste, para qual time esportivo você torce, como arranjar um trabalho, onde você vai passar as férias, como passar suas manhãs de domingo – todas são profundamente permeadas por seu perfil político. E isso por sua vez, quer dizer que suas interações no dia a dia com outras pessoas estão limitadas por aqueles que compram nessas mesmas lojas, assistem aos mesmos programas, torcem pelo mesmo time, pegam o mesmo ônibus, ou andam naquele mesmo parque. Todo o nosso mundo social está dividido pelas adversidades da política contemporânea. Para colocar isso de uma maneira dramática, nossas vidas sociais estão tiranizadas pela democracia. 

A saturação da vida cívica pela política democrática tumultua as bases fundamentais para a comunidade e a cooperação social que o caráter democrático necessita para florescer. Se nós estamos trabalhando em grupo como um governo autogestionado, nós devemos cultivar um tipo de amizade cívica que nos permite considerarmos uns aos outros como companheiros que compartilham um destino em comum. Quando nós interagimos apenas do campo de batalha de política, nossas diferenças corroem nossas relações cívicas. A democracia acaba se desmantelando. 

A tirania da democracia mina a democracia. Isso não é de modo algum um pensamento antidemocrático. Isso simplesmente se aplica à democracia como uma visão geral deste valor, ou seja, que em algum momento, em vez de realizar algo de valor, deve-se se esforçar por outra coisa. Certos valores estão corroídos pela nossa busca individual por eles. Em alguns casos, a busca pelo valor em questão produz o seu oposto.

Para ver como isso funciona, considere um valor como diversão. Seguramente é bom ter diversão? Mas a diversão pode ser obtida como um subproduto da prática de atividades que tem algum outro objetivo. Nós temos diversão quando nos engajamos em uma busca a qual o objetivo é outro além da diversão: ganhar um jogo, dançar uma música, experimentar o mergulho de uma montanha russa, completar um jogo de palavras cruzadas. Portanto, o tédio persistente dos adolescentes é um produto pelo fato de eles não terem nada para buscar além de entretenimento. Quando a diversão por si mesmo é o jogo, tudo é desagradável.

A amizade também tem a sua própria estrutura. Nós precisamos de amigos. Consequentemente, nós somos obrigados a ter amizades profundas. Mas um dos jeitos mais certos de falhar em fazer amigos, é tentar fazê-los. Amizades surgem a partir de outras atividades além de procurar amigos. Ganha-se amigos ao compartilhar experiências, participar de projetos em comum e se importar com a outra pessoas. Não importa o quão bom é ter amigos, a amizade em si não pode ser buscada. Quando nós tentamos ter a amizade como nosso objetivo, nós acabamos sem amigos. 

O fenômeno tem o sabor de um paradoxo. Com o objetivo de  cultivar determinados valores, a pessoa deve buscar outra coisa para além desse cultivo. No entanto, considerar algo como valioso é estar disposto a buscar produzi-lo. Certos valores, ao que parece, nos demandam o desenvolvimento de uma forma estranha de esquizofrenia. Nós precisamos, até certo ponto, dar as costas a um valor para fazê-lo se manifestar.

Uma vez que a democracia está baseada na amizade cívica, talvez não seja surpresa que para praticarmos uma democracia melhor, precisamos nos engajar mutuamente em assuntos que não são políticos. Nossas vidas cívicas precisam estar estruturadas ao redor de atividades compartilhadas e experiências em comum que não têm a política em seu cerne, arenas de engajamento social que não são previamente estruturadas e infestadas por categorias políticas. Nós precisamos buscar atividades que irão nos envolver em ambientes cooperativos com outras pessoas, que até onde sabemos, têm visões políticas opostas das nossas. Nós precisamos falar com estranhos sobre assuntos substanciais que não sejam totalmente políticos. Nós precisamos criar espaços de envolvimento social em que a filiação partidária e o apoio a uma plataforma sejam irrelevantes. Nós precisamos nos “desligar”, não da sociedade em si, mas daquela sociedade construída pela política democrática. Em resumo, se nós queremos fazer democracia direito, precisamos às vezes fazer qualquer coisa completamente diferente.

 

Robert Talisse é professor de filosofia e chefe do departamento de filosofia da Vanderbilit University, no Tennessee (EUA). Seu livro mais recente é “Engaging Political Philosophy” (2016), sem tradução para o português.

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