Foto: Kevin Lamarque/Reuters

celular em aula
Depois de experiência, maior parte dos estudantes viu benefícios na restrição ao uso do celular em sala de aula
 

Como professora que há tempos testemunha e se preocupa com os impactos da tecnologia na sala de aula, luto constantemente para elaborar políticas para uso de smartphones que sejam eficazes. Eu costumava fazer estudantes cantarem ou dançarem se seus telefones tocassem na aula. Ainda que isso tenha rendido momentos memoráveis, também transformou o uso inadequado de tecnologia em piada. Dados os inúmeros efeitos deletérios dos celulares — vício, declínio da socialização pessoal, esquecimento de habilidades e distração interminável, só para começar —, eu quero que estudantes pensem com cuidado sobre seus hábitos com o celular, em vez de seguir (ou não seguir) uma regra sem pensar.

Depois de ler meu ensaio na Aeon sobre o tema, um representante de uma startup de São Francisco chamada Yondr entrou em contato comigo. A Yondr fabrica bolsas especiais que impedem que o público use seus telefones em shows. Você silencia seu celular, o desliza para dentro da bolsa, e trava a parte de cima. Depois da apresentação, ou se o acesso é necessário antes disso, você pode destravar o recipiente no saguão encostando a trava em uma base metálica, similar aos dispositivos antifurto afixados em roupas. Artistas como Dave Chappelle e Alicia Keys têm usado o Yondr - cujo mote é “Esteja aqui agora” - para limitar gravações não autorizadas e, quando eles olham na multidão, enxergam rostos, não telefones. A abordagem parece menos draconiana do que forçar as pessoas a se separarem de seus aparelhos, já que a ansiedade da separação supera o objetivo de um envolvimento maior.

A Yondr me mandou bolsas para serem usadas na aula. No início do semestre de inverno, apresentei a rotina a meus estudantes: antes de cada aula, eles deveriam silenciar seus telefones, pegar uma bolsa da caixa, e trancar seus celulares dentro. Antes de ir embora, eles deveriam liberar o recipiente e colocá-lo de volta na caixa. Durante a aula, não fez diferença para mim se eles colocaram as bolsas na mesa, nos bolsos ou se mantinham-nas junto ao peito. Eu disse a eles que era um experimento para um futuro artigo, e que eu queria suas opiniões sinceras, que eu coletaria por meio de pesquisas no início e no fim do semestre.

Meu objetivo com este experimento era conseguir que estudantes pensassem sobre seus hábitos, em vez de necessariamente mudá-los

Inicialmente, 37% dos meus estudantes — graduandos na Universidade de Boston — ficaram bravos ou chateados com o experimento. Enquanto minha política anterior potencializava a humilhação pública, ela não ditava o que eles faziam com seus telefones na sala. Para alguns, colocar o telefone em uma bolsa parecia equivalente a enjaular um animal de estimação, uma clara negação de liberdade. Entretanto, no fim do semestre, apenas 14% encaravam as bolsas de forma negativa; 11% ficaram “agradavelmente surpresos”; 7% estavam “aliviados”; e 21% se sentiram “bem” quanto a elas.

Desvios surgiram imediatamente. Estudantes escorregaram os celulares para dentro das bolsas sem trancá-las, mas, como não podiam usar os aparelhos em classe, isto se tornou mais um silencioso ato de rebelião do que uma tentativa de desafio. Alguns deles usaram seus computadores, onde frequentemente pesquisamos bases de dados e completamos exercícios de sala de aula, para mandar mensagens de texto ou acessar as redes sociais. Não me sinto confortável em ficar policiando as telas de computador dos estudantes — se eles realmente querem usar o horário da aula para acessar o que o Yondr lhes nega, a escolha é deles. O que as bolsas fizeram foi evitar que os estudantes fossem ao banheiro para usar seus celulares. Em semestres anteriores, alguns estudantes deixavam a sala por períodos de 10 a 15 minutos e levavam seus aparelhos consigo. Com os telefones dentro das bolsas, houve poucas idas ao banheiro.

Um quarto (26%) dos meus estudantes previu que o Yondr faria a sala de aula ser “mais livre de distrações”. Ao final do semestre, duas vezes mais (51,85%) disseram que isso tinha mesmo acontecido. Não sei dizer se foi uma admissão relutante, como reconhecer que brócolis afinal não é tão ruim, ou honesta. Uma vez, depois da aula, reparei que uma bolsa tinha ficado sob uma mesa. Alguns minutos depois, uma estudante entrou correndo. “Esqueci totalmente do meu celular depois que coloquei ele na bolsa”, ela disse. “Acho que isso quer dizer que elas estão funcionando”. Talvez ela tenha sonhado acordada sobre alguma outra coisa ou prouzido um rabisco magnífico, mas há chances de que ela realmente tenha se envolvido com a aula.

Quando perguntei se a sociedade poderia se beneficiar de um uso menor de celulares, apenas 15% disse não. Dois terços (65%) disseram sim, e 19% disseram: “Acho que sim”. Metade (50%) dos estudantes mencionou melhor comunicação e mais interações pessoais como benefícios de usar menos o celular. “Comecei a reparar em como o celular estava tomando conta da minha vida”, um estudante escreveu. “[E]star num chuveiro é um momento que eu realmente aprecio porque me força a passar algum tempo longe do meu celular, apenas pensando em vez de ficar ‘scrolando’ sem pensar”.

Meu objetivo com este experimento era conseguir que estudantes pensassem sobre seus hábitos, em vez de necessariamente mudá-los. Estudantes deveriam questionar a autoridade, inclusive a minha. É fácil para mim, e, suspeito, muitos das gerações mais velhas, procurar provas que apoiem a ideia de que a vida era melhor antes dos smartphones. Meus estudantes admitem que não podem ler mapas, que consideram a ideia de ler e escrever em papel antiquada, que não memorizam informações que podem ser buscadas no Google. Mas essas não são confissões — são realidades. Algumas mudanças são simplesmente mudanças. Nem tudo precisa ser um julgamento de valor, mas os estudantes em geral concordam que o uso do celular na sala de aula é inadequado — apenas 11% acham que uma política para celulares em aula é desnecessária.

No início do semestre, 48% disseram que um ambiente mais livre de distrações poderia ajudar com o aprendizado. Diante disso, perguntei porque ainda nos cercamos de telefones na sala de aula. Um quinto (20%) usou a palavra “vício” em suas respostas — uma palavra que eles costumam evitar. Muitos mencionaram o tédio. Infelizmente, normas sociais sugerem que usar o celular é uma reação aceitável ao tédio. Mas, como já defenderam filósofos como Søren Kierkegaard e Bertrand Russell, o tédio é essencial — ele acende a imaginação e a ambição. O tédio não é algo de que os estudantes precisam ser resgatados.

Um estudante proferiu uma explicação reducionista: “Somos idiotas. Não conseguimos controlar nosso comportamento”. Ao passo que aprecio a observação incisiva, o determinismo deste tipo de afirmação me incomoda. Se somos nada mais que idiotas, então por que se preocupar em examinar a maneira como vivemos? Se não temos controle sobre nosso comportamento, qual é o sentido de tentar mudar?

A tecnologia é parte da narrativa da humanidade. Isto não é inerentemente bom ou ruim — as implicações são por nossa conta. Enquanto 39% dos meus estudantes disseram que estudar os efeitos do uso do celular não mudou seus pensamentos ou comportamentos, 28,5% tentam usar menos seus telefones e 21,5% agora tenta ficar mais consciente sobre como e quando usam seus celulares. Metade dos meus estudantes pensam de modo mais crítico a respeito do papel exercido pelos celulares, e esse é o primeiro passo que deve guiar nossa relação com a tecnologia, em vez de permitir que a tecnologia nos guie.

Ainda assim, queria ter alguma ideia de onde a geração dos meus estudantes irá levar essa história. Perguntei a eles se algum dia implantariam celulares em seus corpos (conforme previsto pelos líderes da indústria no Fórum Econômico Mundial de Davos, em 2016) e aqui está o que eles disseram:

  •  7%: Sim! Quanto mais perto eu puder ficar do meu telefone, melhor
  •  7%: Sim — é inevitável, então melhor fazer
  •  7%: Dependerá do custo
  •  11%: Dependerá de quantas outras pessoas estiverem fazendo isso
  •  36%: Dependerá dos riscos físicos
  •  32%: De jeito nenhum

Dois terços dos meus estudantes ao menos considerariam fazer seus celulares parte de seus corpos, o que significaria aceitar todas as consequências de telas, gratificação instantânea e dependência de informação. Mas, como acontece com todas as perguntas hipotéticas, talvez quando a possibilidade surgir, alguns decidam preservar a capacidade de largar o celular. Talvez eles se lembrem desse tempo com o tipo de nostalgia que sinto pelas experiências da infância que não existem mais.

No romance “Ishmael” (1992), de Daniel Quinn, o macaco Ishmael explica a seu pupilo humano que ele é um especialista em cativeiro.

“Tenho essa impressão de estar em cativeiro”, diz o pupilo, “mas não consigo explicar por quê.”

“[Você] não tem capacidade de encontrar as barras da gaiola”, responde Ishmael.

Fico retornando para essa ideia quando penso sobre o experimento com o Yondr. Ishmael está falando sobre a destruição do meio ambiente, mas sua observação se aplica ao uso humano da tecnologia também. A participação na civilização moderna requer tecnologia, em particular smartphones. Pagamos contas, nos comunicamos com amigos e família, acompanhamos notícias, e nos candidatamos a empregos, universidades e cuidados médicos por meio de sites e aplicativos. O jeito antigo de fazer não funciona mais. Precisamos nos adaptar.

Mas exatamente como se adaptar cabe a nós. Entramos em filas para pagar mais de US$ 999 pelo novo iPhone? Mandamos uma mensagem de texto para alguém do outro lado da sala, ou mantemos nosso celular na mesa durante o jantar? Optamos por interagir com outros humanos o menos possível e nos apoiamos na tecnologia como intermediário?

Em última instância, é isso que as bolsas da Yondr representam: escolha. Talvez a capacidade de agir não levará a uma narrativa diferente, mas poderia oferecer a meus estudantes um outro caminho. Se eles vão implantar smartphones em seus corpos, espero que o façam não porque é o caminho mais fácil, mas porque pensaram sobre isso e realmente o querem. E, se eles desligarem seus celulares, espero que não seja (sempre) porque um professor pediu que o fizessem.

Joelle Renstrom é uma escritora cujo trabalho já foi publicado na Slate, no The Guardian e no Daily Beast. Ela leciona escrita e pesquisa na Boston University, e escreve um blog sobre a relação entre ciência e ficção científica em Could this happen?

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