Foto: Vasily Fedosenko/Reuters

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Pássaros são capazes de alterar seus cantos para transmitir diferentes mensagens

Nós estamos rodeados por produtos culturais: cidades, tecnologias, as artes e a música. Mas a cultura também é algo internalizado em nós, na nossa habilidade de falar, nosso senso de pertencimento, nos nossos valores. A capacidade do nosso cérebro de se adaptar e de se integrar a uma cultura é o que nos faz humanos: desde o nascimento, nossa mente é configurada para absorver conceitos, tecnologias e convenções sociais que foram acumuladas ao longo de milhares de gerações. Uma criança feral, desprovida de contato com a sociedade humana durante os primeiros anos de vida, raramente se recupera, e continua disfuncional ao longo de sua vida. Por outro lado, um filhote de gato socialmente isolado irá se desenvolver em um adulto completamente normal e funcional.

Ainda que culturas possam ser vistas (e ouvidas) em muitos animais, estudá-los revela alguns mecanismos pelos quais nossa própria cultura evoluiu. Culturas não são apenas acumulações passivas de costumes e tradições; elas são formadas e sustentadas por uma linha tênue entre forças sociais. Nós podemos aprender com outras espécies sobre a origem biológica dessas forças - assim como essas forças agora moldam o futuro da nossa cultura.

E quais são as forças sociais através das quais as culturas surgem? Culturas frequentemente começam com a inovação de um único animal, e então se espalham conforme os vizinhos a adotam e modificam o comportamento bem-sucedido que eles absorveram. Algumas culturas, como normas sociais, são sustentadas pela obediência. Individualmente, macacos vervet, por exemplo, podem aprender rapidamente, mas em grupo têm normas rígidas: algumas comidas são permitidas, enquanto outras, mesmo em perfeito estado, não são.  Quando um macho juvenil migra para um novo grupo, ele prontamente larga seus antigos hábitos alimentares para obedecer às normas do novo grupo, com conformidade quase que total.

Outras culturas são mais flexíveis e dinâmicas. Baleias jubarte tem uma cultura de sons diferentes, que se espalham por centenas de quilômetros através dos oceanos. Essas culturas, entretanto, são instáveis e não duram muito: uma música rapidamente sai de moda para dar lugar ao hit mais recente. Para uma cultura se acumular, ela deve ocupar um lugar exato entre a alta conformidade e a instabilidade. Isso parece ser o caso em muitas culturas humanas, assim como em uma das mais mais complexas e elaboradas culturas do mundo animal: os cantos dos pássaros.

A internet permitiu uma acumulação explosiva de bens públicos como o compartilhamento altruístico de conhecimento e das artes. Mas isso também promove a instabilidade ao amplificar a desinformação e o extremismo

Caminhe lá fora e escute os pássaros cantarem. Com alguma prática, você será capaz de identificar de ouvido as espécies. Mais dificilmente, mas não impossível, você será capaz de identificar cada indivíduo pelo seu canto único: é assim que os pássaros se reconhecem. De fato, alguns pássaros alteram seu cantos para transmitir diferentes mensagens. Eles podem, por exemplo, comunicar uma agressão maior ou menor ao responder ao canto de um vizinho com uma contra-canção mais ou menos similar. Os cantos dos pássaros não servem apenas para atrair companheiros e defender territórios. Em pássaros altamente sociais, os cantos podem ser “amigáveis”. E provavelmente o maior mistério seja a beleza do canto dos pássaros: esses cantos podem causar e influenciar emoções em outros pássaros, assim como a música faz em nós humanos? Nós não sabemos ainda, mas, assim como a música, o canto dos pássaros é um fenômeno cultural.

Pássaros jovens adquirem os seus cantos ao imitar os cantos dos adultos. Dessa maneira, o repertório vocal de uma geração de pássaros é transmitida para a geração seguinte. A acumulação de imitações de cantos através de diversas gerações pode criar um “dialeto de cantos” locais que se mantém estável ao longo de décadas. Em muitas espécies de clima temperado, apenas os machos cantam, mas mesmo assim, fêmeas têm um importante papel cultural na transmissão: elas podem diferenciar instantaneamente entre um macho local e um pássaro forasteiro pelo seu dialeto (e sim, elas preferem os machos locais).

Quais mecanismos permitem que a cultura do canto dos pássaros se acumule em vez de colapsar em alta conformidade ou em caos? No laboratório, o surgimento de uma cultura de cantos pode ser estudado pelo estabelecimento de uma nova colônia de pássaros cantores, começando com um indivíduo isolado que nunca teve a oportunidade de aprender um canto com um tutor adulto. Esse novo canto será anormal: cantos de indivíduos isolados normalmente nem mesmo são reconhecidos como pertencentes da espécie. Pássaros jovens, entretanto, irão rapidamente imitar o canto anormal do fundador da colônia, assim como sua prole também irá. Mas com o passar de cada geração, os cantos começarão a se tornar cada vez mais similares ao formato típico da espécie, e em quatro gerações uma cultura com um canto selvagem emergirá novamente. Isso acontece porque os pássaros têm um senso inato de estética: enquanto imitam um canto, o pássaro o modifica um pouco para soar de maneira “correta”.

Essas modificações se acumulam vagarosamente através das gerações, mas é possível acelerar este processo criando um pássaro na companhia de um pássaro robótico que é programado para imitar o pássaro.  O pássaro jovem irá primeiro improvisar um canto, então o robô irá imitá-lo, e o pássaro responderá imitando o canto do robô e assim por diante. Este feedback em loop permite que um pássaro isolado desenvolva um canto perfeitamente normal com o passar do tempo. Pássaros que cantam são capazes de estimular a cultura do canto típico da sua espécie de qualquer ponto inicial arbitrário. Essa força convergente inata deixa muitos espaços para dialetos, mas previne que a cultura de cantos derive demais ou comece a se tornar caótica.

O que é então que previne que a cultura dos cantos não colapse em uma alta conformidade? Três mecanismos promovem a diversidade do repertório dos cantos: primeiro, algumas espécies de pássaros que podem cantar tendem a imitar mais sílabas raras do que elementos musicais abundantes. Além disso, uma diversidade genérica e a própria diversidade de cantos são correlatas, então a migração entre populações pode sustentar um repertório mais rico. E finalmente, entre pássaros territoriais, o extravasamento do dialeto de cantos pode ocorrer através de suas fronteiras. Por essas mesmas fronteiras, novos elementos sonoros podem se propagar na rede local de comunicação. 

Existem paralelos entre as forças sociais que sustentam a humanidade a as que sustentam a cultura de cantos dos pássaros. Comparadamente, por exemplo, uma sílaba rara dentro de um dialeto de cantos dos pássaros e uma rara (ou minoritária) opinião pública no seu país. Em ambos os casos, as características das redes de comunicação podem determinar o destino desta fusão rara. Comportamentos altamente conectados com as redes sociais (como o Twitter) tendem a convergir em uma única convenção social. Através dessas redes, pessoas podem estar tendo seus comportamentos coordenados sem saberem disso. Os padrões de conectividade das redes sociais podem determinar se uma opinião minoritária pode “sobreviver” a uma deliberação online. Alguns tipos de redes (como o Facebook) tendem a criar bolhas desconectadas, potencialmente bloqueando a difusão da opinião pública pelas classes sociais. 

Mas de maneira oposta a cultura de cantos dos pássaros, a qual evoluiu através de milhões de anos, nós estamos agora nos comunicando por redes de escala e complexidade sem precedentes e sem o escudo evolutivo da adaptação. A internet permitiu uma acumulação explosiva de bens públicos como o compartilhamento altruístico de conhecimento e das artes. Mas isso também promove a instabilidade ao amplificar a desinformação e o extremismo. O futuro da nossa cultura pode depender da sustentação do balanço entre forças sociais convergentes e divergentes apesar das mudanças rápidas em nossos sistemas de comunicação.

É possível dotar os nossos sistemas de comunicação online com o mesmo tipo de feedback em loops, suaves e estabilizadores que sustentam culturas naturais? Uma vez eu me voluntariei para criar um sistema que todos os dias reportasse os problemas de nossos serviços institucionais. Nós configuramos um site para reportar esses problemas, e solicitamos aos usuários que dessem notas para o resultado deste serviço. Como esperado, as notas foram baixas. Publicamos eles apenas para desencorajar todo mundo. Em vez disso, nós apresentamos gráficos mostrando as tendências a curto prazo com a satisfação com os nossos serviços. Desta maneira, os retornos se tornaram contínuos e bons, e nós pudemos regular os atrasos e as leves mudanças de maneira a guiar a acumulação de melhorias em pequenos passos. Descobrimos que mesmo uma intervenção tão simples promoveu, ao longo dos anos, a cooperação voluntária entre operários e funcionários administrativos.

Os experimentos no mundo virtual são outra forma de abordagem para o estudo de feedback social. Imagine programar uma cidade virtual, e recrutar muitos sujeitos para desempenhar papéis diferentes no fornecimento e uso de serviços públicos que seriam simulados. Em ambientes tão controlados, seria fácil (e seguro) experimentar mecanismos de feedback. Pode-se então tentar diferentes abordagens para a regulação de feedback e compartilhamento de informações, e medir como a mudança do equilíbrio entre forças sociais convergentes e divergentes pode afetar o acúmulo de aprendizagem social, estabilidade e cooperação.

Podemos aprender com os pássaros como usar feedback e recorrências sociais para orientar melhorias em pequenas etapas, em iterações. O desafio é canalizar o ativismo para longe da dinâmica social selvagem (e principalmente inútil) das câmaras de eco e das tempestades de internet. A percepção de como os pássaros equilibram suas culturas poderia nos ajudar a descobrir como desenvolver plataformas onde a opinião pública é equilibrada, e ideias e petições podem evoluir e onde feedback e deliberações podem se tornar mais construtivas.

Os movimentos sociais do tipo que moldaram nossa sociedade atual não podem mais criar ambientes protegidos na tentativa de criar novos modos de vida. Em contraste com as intervenções ideológicas, experimentar com mecanismos básicos que permitem às culturas sustentar a sua diversidade, estabilidade e cooperação é apenas uma tecnologia potencial. Se usado para fazer o bem, essa abordagem pode nos permitir uma auto-gestão um pouco melhor.

Ofer Tchernichovski é zoólogo e professor do departamento de psicologia do Hunter College da City University of New York, onde administra o Laboratório de Aprendizagem Vocal

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