Foto: Agência Brasil

Táxi
Você cogitaria pegar um táxi e não pagar por ele?
 

Vamos supor que você está a caminho do aeroporto para pegar um voo, mas seu carro quebra. Algumas das ações que você considera de imediato são óbvias: você pode tentar ligar para um amigo, procurar um táxi ou reservar um voo para mais tarde. Se nenhuma funcionar, você talvez considere algo mais improvável, como encontrar transporte público ou conseguir que o motorista do guincho o reboque até o aeroporto. Mas aqui vai uma possibilidade que provavelmente nunca passará pela sua cabeça: você poderia pegar um táxi, mas não pagar por ele quando chegar ao aeroporto. Por que isso não passaria pela sua cabeça? Afinal, é uma maneira bastante certeira de chegar no aeroporto na hora, e definitivamente mais barata do que ter seu carro guinchado.

Uma resposta natural é que você não consideraria a possibilidade porque você é uma pessoa moralmente correta, que não faria isso. Mas existem pelo menos duas razões pelas quais esta não é uma resposta convincente, ainda que você seja moralmente correto. A primeira é que, embora ser uma boa pessoa explique por que você não faria isso, não parece explicar por que não seria capaz de cogitar isso como solução. Afinal, seu bom caráter moral não lhe impede de admitir que esta é uma maneira de chegar ao aeroporto, mesmo que você não a escolha. A segunda razão é que provavelmente você também não pensaria nesta opção para outra pessoa na mesma situação – mesmo que você soubesse que esta pessoa não era moralmente correta.

Então o que de fato explica o motivo de não considerarmos a possibilidade de pegar um táxi e não pagar? Aqui vai uma sugestão radicalmente diferente: antes de eu mencionar, você nem pensava ser possível fazer isso. Esta explicação provavelmente parecerá muito intensa, mas a chave para ela é que não estou sugerindo que você a considera impossível agora. Estou defendendo que você não achava que fosse possível antes que eu a propusesse.

Quando ouvimos sobre uma atrocidade sendo cometida em um país estrangeiro, nossa reação inicial é de incredulidade e não de indignação.

Considere por exemplo uma série de estudos que conduzi com meu colega Fiery Cushman na Universidade Harvard. Nesses estudos, pedimos que participantes lessem histórias curtas sobre pessoas enfrentando uma série de problemas (como um carro quebrando no caminho do aeroporto). Pedimos então que eles emitissem julgamentos sobre o que seria possível ou impossível para uma pessoa fazer naquela situação. A manipulação importante aqui foi que metade dos participantes tinham que fazer julgamentos muito rapidamente, em cerca de um segundo, o que os impediu de ter tempo de refletir e os forçou a se apoiar em seu modo automático de pensar sobre o que era possível. A outra metade tinha que responder a respeito de um diferente conjunto de possibilidades, algumas das quais eram completamente comuns (como pegar um táxi) e outras eram imorais (como pegar um táxi sem pagar).

Examinamos então as respostas dos participantes para descobrir como seus julgamentos sobre o que era possível mudaram quando tinham que responder rapidamente em comparação a quando tinham tempo para refletir antes de responder. Para as ações comuns, não havia diferença real: naturalmente, as pessoas julgavam ser possíveis ações comuns quando respondiam rapidamente ou se tinham tempo para refletir. Entretanto, houve uma diferença marcante nas ações imorais. Quandos os participantes refletiam antes de responder, eles geralmente avaliavam ser possível alguém cometer essas ações imorais. Por outro lado, quando tinham que responder rapidamente, os participantes avaliaram que era na verdade impossível recorrer a essas soluções em 40% das vezes. Isso sugere que, antes de ter tempo de pensar direito sobre o assunto, eles sequer pensaram em muitas dessas ações como sendo possíveis. Também comparamos essas ações com outras que eram estatisticamente improváveis, mas não imorais (por exemplo, convencer o aeroporto a atrasar o voo) e descobrimos que esse tipo de efeito era específico das ações imorais, então não é algo que pode ser explicado apenas pela probabilidade.

Considere outra série de estudos relacionados. Nestes, contamos aos participantes sobre uma pessoa que precisava de US$ 1.000 repentinamente, mas que não sabia bem como conseguir. Nessa ocasião, em vez de dar aos participantes ações específicas e perguntar se eram possíveis, apenas perguntamos a elas o que a pessoa poderia (ou iria) fazer nessa situação. Depois que os participantes produziram uma resposta, pedimos uma resposta diferente, e depois mais uma, e mais uma, até que tivessem dado pelo menos cinco soluções diferentes. Então devolvemos todas essas possibilidades aos participantes e pedimos que classificassem o quão moral seria recorrer a cada uma das soluções. Ainda que a tarefa fosse bastante distinta, as respostas dos participantes contaram em geral a mesma história: as pessoas raramente consideravam a possibilidade de que a pessoa iria fazer algo imoral; quando o fizeram, foi somente depois de serem forçados a pensar bastante sobre outras coisas que a pessoa poderia fazer nesta situação.

Uma vez que se começa a enxergar a tese central que esses estudos sugerem, não é difícil notar que esse modo de pensar permeia muitos aspectos de nossas vidas. Quando você vê alguém passar no sinal vermelho, é natural pensar: “Espera, você não pode fazer isso!” E, com isso, não quero dizer apenas que foi errado fazer isso. Se esse fosse o caso, eu teria dito: “Espera, você não deveria fazer isso!” Em vez disso, realmente quisemos dizer que eles não podem fazer isso.

E, subitamente, começa a fazer sentido o motivo pelo qual, quando ex-vizinhos de um assassino em série são entrevistados, eles frequentemente declaram não conseguir acreditar que seu vizinho na verdade matou muitas pessoas. Ou por que, quando ouvimos sobre uma atrocidade sendo cometida em um país estrangeiro, nossa reação inicial é de incredulidade e não de indignação. Ações imorais frequentemente nos parecem não apenas más ou indesejáveis – mas, na verdade, impossíveis.

Em vez de considerar bizarro ou estúpido que constantemente não enxergamos a possibilidade de ações imorais, é importante perceber que isso na verdade é uma coisa boa. Considere a alternativa: interagir com alguém e a toda hora considerar a possibilidade de que esta pessoa irá intencionalmente mentir, lhe  roubar ou machucar. Pensar assim não faria você ser mais racional ou funcional; simplesmente dificultaria que você confiasse, fizesse planos ou se conectasse com os outros nas maneiras mais básicas. Então, qualquer que seja o custo de não perceber a possibilidade de ações imorais, há grandes chances de ele ser superado pelos benefícios de conseguir interagir de forma produtiva com outras pessoas.

Jonathan Phillips é um cientista cognitivo e estudante de pós-doutorado no laboratório de pesquisa de Psicologia Moral na Universidade de Harvard

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