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Como um millennial e professor de alunos millennials, fico cada vez mais cansado de artigos que culpam minha geração por ter estragado tudo.

A lista de ideias, coisas e indústrias que millennials arruinaram ou estão arruinando é bem longa: cereal matinal, lojas de departamento, jantares de encontro, jogatina, igualdade de gênero, golfe, almoço, casamento, filmes, guardanapos, sabão, o terno e casamentos. Como dita a moda millennial, listas desse tipo já viraram até meme.

Uma narrativa comum a todos esses artigos muito clicados é a ideia de que millennials são preguiçosos, rasos e disruptivos. Quando penso nos meus amigos, muitos dos quais nasceram na década de 1980, e meus alunos na universidade, nascidos em sua maioria nos anos de 1990, vejo algo diferente. Os millennials que conheço são motivados e engajados politicamente. Amadurecemos depois da Guerra do Iraque, da Grande Recessão e da anistia aos bancos – três desastres políticos bipartidários. Estes eventos foram educativos, em um nível que aqueles que lembram da Guerra do Vietnã podem não perceber.

A ideia de que os jovens estão arruinando a sociedade não é nova. Eu ensino Literatura Inglesa Medieval, que dá ampla oportunidade de observar o quão antigo é o impulso de culpar as gerações mais jovens.

O mais famoso autor inglês medieval, Geoffrey Chaucer, morava e trabalhava em Londres na década de 1380. Sua poesia era às vezes bastante crítica em relação às mudanças dos tempos. No poema visionário “The house of fame” (A casa da fama, em tradução livre), ele descreve um enorme fracasso na comunicação, uma espécie de Twitter do século 14 em que verdades e mentiras circulam indiscriminadamente em uma agitada casa de prostituição. A casa é — entre outras coisas — uma representação da Londres medieval, que crescia em tamanho e complexidade política em ritmo impressionante para a época.

Em uma escala maior, os ingleses do século 14 se preocupavam que uma nova classe burocrática estaria destruindo a própria ideia de verdade.

Em um poema diferente, “Troilus and Criseyde”, Chaucer se preocupa que gerações futuras irão “copiar errado” e “avaliar errado” sua poesia por causa das mudanças na língua. Millennials podem estar falindo a indústria dos guardanapos, mas Chaucer estava preocupado que jovens leitores iriam arruinar a própria língua.

“Winner and waster” (Vencedor e inútil, em tradução livre), um poema inglês aliterativo provavelmente composto nos anos 1350, expressa ansiedades similares. O poeta reclama que jovens menestréis imberbes que nunca “juntaram três palavras” recebem elogios. Ninguém mais aprecia a contação de histórias no estilo antigo. Foram-se os dias em que “havia senhores na terra que em seus corações amavam / Ouvir poetas da alegria que sabiam inventar histórias”.

William Langland, o evasivo autor de “Piers Plowman”, também acreditava que os poetas mais jovens não eram bons o bastante. “Piers Plowman” é um poema psicodélico religioso e político dos anos 1370. Em dado momento, Langland coloca uma personificação chamada Livre Arbítrio para descrever o lamentável estado da educação contemporânea. Hoje em dia, diz Livre Arbítrio, o estudo da gramática confunde as crianças, e não há mais ninguém que “consiga produzir poesia metrificada de qualidade” ou “interpretar de pronto o que fazem os poetas”. Mestres da divindade que deveriam conhecer as sete artes liberais de trás para frente “fracassam na filosofia”, e Livre Arbítrio se preocupa que padres apressados irão “saltar sobre” o texto da missa.

Em uma escala maior, os ingleses do século 14 se preocupavam que uma nova classe burocrática estaria destruindo a própria ideia de verdade. Em seu livro “Uma crise da verdade”, o estudioso de literatura Richard Firth Green defende que a centralização do governo inglês deslocou o eixo da verdade, de uma troca de pessoa para pessoa para uma realidade objetiva localizada nos documentos.

Hoje, podemos ver esta mudança como uma evolução natural. Mas registros literários e legais da época revelam a perda de coesão social que as pessoas comuns sentiam. Elas não podiam mais confiar em promessas verbais. Estas tinham que ser conferidas mediante documentos oficiais escritos (o próprio Chaucer era parte da nova burocracia em suas funções de escriturário dos trabalhos do rei e guarda florestal de North Petherton).

Na Inglaterra medieval, os jovens também estavam acabando com o sexo. No final do século 15, Thomas Malory compilou a “Morte d’Arthur”, um amálgama de histórias sobre o rei Artur e a Távola Redonda. Em um dos contos, Malory reclama que jovens amantes querem pular na cama muito depressa. “Mas o amor de antigamente não era assim”, ele escreve, saudosamente.

Se essas ansiedades do fim da Idade Média soam ridículas agora, é apenas porque muitas realizações humanas (assim gostamos de imaginar) se situam entre nós e elas. É possível imaginar o autor de “Winner and waster” apontar o dedo para Chaucer, que nasceu na geração seguinte? A Idade Média é erroneamente lembrada como uma era sombria de tortura e fanatismo religioso. Mas para Chaucer, Langland e seus contemporâneos, era o futuro moderno que significava catástrofe.

Esses textos dos séculos 14 e 15 trazem uma lição para o século 21. Ansiedades a respeito dos “jovens de hoje” são equivocadas, não porque nada muda, mas porque a mudança histórica não pode ser prevista. Chaucer previa um declínio linear da língua e da poesia a perder de vista no futuro, e Malory ansiava por restaurar um passado (de faz de conta) de amor cortesão.

Mas não é assim que a história funciona. O status quo, para o bem e para o mal, é um alvo em movimento. O que é impensável para uma era fica banal a ponto de se tornar invisível na próxima.

Os críticos dos millennials estão reagindo a mudanças verdadeiramente tectônicas na cultura. Mas sua reação é apenas um sintoma das mudanças que eles dizem ter diagnosticado. À medida em que os millennials conseguem mais representação no trabalho, política e mídia, o mundo mudará de maneiras que não conseguimos prever.

A essa altura, teremos novos problemas e uma nova geração para culpar por eles.

Eric Weiskott é professor-assistente de Inglês no Boston College

The Conversation