Foto: Jonathan Ernst/Reuters

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'Existem muitas maneiras de categorizar a humanidade, e usar a cor é apenas uma das mais recentes'
 

O dramaturgo jacobita [referente ao reinado de James I, na Inglaterra] Thomas Middleton inventou o conceito de “pessoas brancas” em 29 de outubro de 1613, a data de estreia de sua peça “The triumphs of truth” (Os triunfos da verdade, em tradução livre). A frase foi primeiro dita por um personagem que era um rei africano. Ele olha para uma plateia inglesa e declara: “Vejo espanto instalado nos rostos/Destas pessoas brancas, maravilhamento e olhares estranhos”. Pelo que se sabe, a peça de Middleton é o mais antigo exemplo impresso de um autor europeu se referindo a concidadãos europeus como “pessoas brancas”.

Um ano depois, o cidadão inglês John Rolfe, de Jamestown, Virgínia, noivou uma princesa algonquin [povo indígena norte-americano] chamada Matoaka, também conhecida como Pocahontas. O crítico literário Christopher Hodgkins relatou que o rei James I “inicialmente ficou perturbado quando soube do casamento”. Mas não por temer a miscigenação: a relutância de James, explicou Hodgkins, foi porque “Rolfe, um cidadão, havia se casado com a filha de um príncipe estrangeiro sem a permissão do monarca”. O rei James não estava preocupado com qualquer mancha na linhagem de Rolfe; ele estava preocupado com a mancha na de Matoaka.

Os dois exemplos podem surpreender leitores de hoje em dia, mas servem para validar a lembrança da historiadora Nell Irvin Painter em “The History of White People” (A história das pessoas brancas, em tradução livre) (2010) de que “raça é uma ideia, não um fato”. Middleton não criou sozinho a ideia de branquitude, mas o fato de que qualquer um podia realmente ser o autor de tal frase, uma que parece tão óbvia de um ponto de vista moderno, sublinha o argumento de Painter. Ao examinar como e quando conceitos raciais se solidificaram, podemos ver o quão historicamente relativos esses conceitos eram. Não há nada imperativo neles. Conforme nos lembra a pesquisadora de literatura Roxann Wheeler em “The complexion of race” (A compleição da raça, em tradução livre) (2000), houve “um momento mais antigo em que o racismo biológico não era inevitável”. Uma vez que europeus nem sempre se consideravam “brancos”, existe um bom motivo para pensar que raça seja uma construção social, possivelmente arbitrária. Se a ideia de “pessoas brancas” (assim como a de todas as outras “raças”) tem uma história – e uma história curta – então o conceito em si é baseado menos em realidade biológica do que nas inúmeras contingências da construção social.

Este tipo de pensamento racial se desenvolveu como resultado direto do comércio de escravos.

Existem muitas maneiras de categorizar a humanidade, e usar a cor é apenas uma das mais recentes. No passado, critérios que não a compleição eram usados, incluindo religião, etiqueta, até vestuário. Por exemplo, indígenas americanos eram frequentemente comparados a britânicos antigos pelos colonizadores, que descendiam dos britânicos. A comparação não era tanto física como cultural, uma distinção que dava espaço para a fluidez racial. Entretanto, na época em que Middleton escreveu, a divisão entre cores estava começando a ficar mais definida, e o modo contemporâneo de categorizar raças, ainda que fosse arbitrário, começava a emergir.

A acadêmica Kim Hall explica em “Things of darkness” (Coisas de escuridão, em tradução livre) (1996) que a branquitude “só existe verdadeiramente quando posicionada ao lado da negritude”. Enquanto oposições binárias, a “branquitude” primeiramente precisou da “negritude” para fazer sentido. As duas palavras criam uma à outra. A pesquisadora Virginia Mason Vaughan escreveu em “Performing Blackness on English Stages, 1500-1800” (Apresentando a negritude em palcos ingleses, 1500-1800) (2005) que “personagens com [maquiagem] blackface em dramas modernos antigos geralmente são usados… para tornar a branquitude visível’. “Negro” e “branco” nunca se referiram a grupos definidos de pessoas; são formulações abstratas, que ainda assim tiveram efeitos muito reais em pessoas de verdade.

Há pouca verossimilhança em descrever alguém com qualquer um dos termos, o que explica sua maleabilidade através dos séculos. O quão arbitrário é categorizar sicilianos e suecos como sendo “brancos”, ou os Igbo e os Massai como sendo “negros”? Este tipo de pensamento racial se desenvolveu como resultado direto do comércio de escravos. Hall explica: “A branquitude não é apenas construída por, mas dependente de um envolvimento com africanos que é o resultado inevitável da constante expansão colonial da Inglaterra”. Desta forma, quando antigos europeus modernos começaram a pensar em si mesmos como “pessoas brancas”, eles não estão reivindicando nada a respeito de ser inglês, ou cristão, mas sim fazendo comentários sobre a sua autoimaginada superioridade, facilitando a justificativa do comércio e propriedade de humanos, atividades obviamente imorais.

Hall explica que o “significado de negritude como alegoria de raça é muito mais antigo do que a presença de africanos dentro da Inglaterra na época”. Antes da peça de Middleton, havia um conjunto de personagens “negros” imaginados, tais como em “The masque of blackness” (A máscara da negritude, em tradução livre) (1605), de Ben Jonson, que trazia a rainha Anne se apresentando com blackface, assim como o “nobre mouro” em “Otelo”, de Shakespeare, encenada alguns anos antes da peça de Middleton. Entendimentos sobre raça eram maleáveis: nos primórdios da escrita moderna, personagens de viés exótico podiam ser descritos como “escuros”, “pardos”, “sombreados” e “pretos”. Descrições de um “outro” exótico não se aplicavam apenas a africanos, mas também a italianos, espanhóis, árabes, indianos e até irlandeses. A peça de Middleton indicou a união de um outro polo racial que contrasta com a negritude, que é a branquitude – mas quais grupos pertenciam a qual polo era algo que estava em frequente fluxo.

Considere a Dark Lady (a Dama Escura) dos sonetos de Shakespeare. No soneto 130, ele diz de sua misteriosa amante que “seus peitos são escuros”; no soneto 12, ele referencia seus “cachos castanho-escuros”; e no soneto 127 ele escreve que “fios escuros crescem em sua cabeça”. Como se entende e ensina comumente, Shakespeare subverteu a tradição exemplificada por poetas como Petrarca, que conceituaram a beleza feminina em termos de pele ou cabelo claros. Parte da sua subversão estava em pronunciamentos como aquele que declara que o negro é “o herdeiro sucessor da beleza”, uma opinião de Shakespeare que pode parecer ainda mais progressista quando consideramos a conotação racial atual da palavra. Assim, o quão mais radical não é seu argumento no soneto 132, de que “Então, jurarei que a beleza é negra/E avesso o rosto que não se assemelhe ao teu”? A linguagem racializada de Shakespeare conota uma gama de possibilidades em relação a como as origens da Dark Lady (a Dama Escura) poderiam ser imaginadas, e a conjectura de que ela era baseada às vezes em mulheres europeias, às vezes africanas, indica esse fluxo racial no período.

Ou tome Calibã, o nativo na ilha encantada colonizada por Próspero em “A tempestade”. Hoje em dia muitas vezes encenado de modo compassivo como ou um africano escravizado ou um indígena americano, existem razões fortes para pensar que muitos em uma plateia jacobita iriam na verdade entender Calibã como sendo mais semelhante às primeiras vítimas do colonialismo inglês, os irlandeses. Por esse critério, Calibã é parte da pré-história de “como os irlandeses se tornaram brancos”, segundo as palavras do historiador Noel Ignatiev em 1995. Nada disso permite afirmar que Calibã seja realmente qualquer uma dessas identidades, nem que a Dark Lady (a Dama Escura) devesse também ser identificada literalmente como pertencente a qualquer grupo específico, mas que ambos os exemplos fornecem uma janela para o período em que nossas atuais categorizações raciais começaram a se formar, mesmo que ainda bastante distantes de como nosso sistema racializado acabaria se desenvolvendo.

Entretanto, nossos critérios particulares em relação a como pensamos sobre raça se desenvolveram, sim, e o fizeram a serviço do colonialismo e do capitalismo (e sua criada, a escravidão). Impulsionada por uma língua positivista, a ideia de raça se tornou tão normalizada que dizer que alguém cunhou uma frase tão óbvia como “pessoas brancas” começaria a soar estranho. Mas ela foi de fato inventada. Com o ressurgimento hoje de uma retórica política abertamente racista, geralmente usando terminologia sofisticada de modo dissimulado, é crucial lembrar o que significa exatamente dizer que raça não é real, e por que as alegações de racistas não são apenas imorais, mas incorretas. Middleton demonstra o quão imprevisível é na verdade a ideia de raça; havia uma época não faz muito tempo em que pessoas brancas não eram “brancas”, e pessoas negras não eram “negras”. Seu público estava apenas começando a dividir o mundo em branco e não branco. Infelizmente, permanecemos membros deste público.

Raça pode não ser real, mas o racismo certamente é. Ídolos têm um jeito de afetar nossas vidas, ainda que os deuses que eles representem sejam ilusórios. Ao contemplar a peça de Middleton, podemos apontar na direção de um mundo em que mais uma vez uma frase como “pessoas brancas” não fará nenhum sentido. Ao realizar que humanos não foram sempre categorizados pela tez, podemos imaginar um futuro em que não seremos mais classificados nem divididos como consequência disso.

Ed Simon é editor-sênior da The Marginalia Review of Books, um canal da The Los Angeles Review of Books. Colaborador regular de diversos sites, ele é doutor em língua inglesa pela universidade de Lehigh, na Pensilvânia.

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ESTAVA ERRADO: Na primeira versão desta tradução, o texto se referiu às autoras Nell Irvine Painter e Kim Hall como sendo do sexo masculino. O texto foi corrigido às 11h23 de 25 de setembro de 2017.