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Parceiros reprodutivos ideais às vezes se parecem um pouco com nossos pais
 

As fascinantes plumas da cauda do pavão não existem para que ele realize atividades cotidianas como comer ou dormir, mas porque seu colorido é atraente para as fêmeas: quanto mais brilhantes as plumas, maiores são as chances de o pavão encontrar uma parceira sexual. Plumas de cauda, para as fêmeas, podem ser fortemente atraentes. Há tempos, cientistas têm se interessado em desvendar os processos subconscientes que influenciam na escolha de parceiros, uma vez que características herdáveis que são favorecidas em parceiros sexuais tendem a ter a frequência aumentada em gerações subsequentes. É por isso que as plumas da cauda do pavão são tão radiantes: por muitas gerações, mais plumas de cauda belas foram selecionadas. Isso significa que as escolhas de parceiros nos dizem algo a respeito das pressões evolucionárias que moldam uma espécie — incluindo nós mesmos. Sendo assim, o que achamos atraente uns nos outros, e por quê?

Muito do nosso sentido do que é atraente fica nítido quando visto por meio das lentes da reprodução bem-sucedida. Ter e criar filhos contribui para nossa ideia do que queremos em um parceiro. Saúde, fecundidade e uma vontade e habilidade de investir na paternidade não são exclusiva ou inevitavelmente desejadas em um parceiro, mas são seguramente consideradas atraentes em populações diferentes, ainda que existam obviamente algumas diferenças culturais. Essas preferências biológicas também se alinham com a escolha de parceiro em outras espécies. Está claro que o que queremos em um parceiro tem raízes que se encontram muito antes do Instagram, prateleiras de maquiagem, campanhas de marketing ou espartilhos. É seguro dizer que essas preferências têm algo a ver com nossa natureza humana básica.

Existem também algumas diferenças individuais na escolha de parceiros. Não há quase nenhuma probabilidade de o seu parceiro ideal ser o meu parceiro ideal, ainda que tivéssemos o mesmo gênero, idade e orientação sexual. Até certo ponto, a beleza está de fato nos olhos de quem vê. Mas mesmo essas diferenças entre as preferências das pessoas são de certa forma previsíveis: a família de uma pessoa influencia o parceiro que ele ou ela escolhe. Diversos estudos descobriram que, em média, existe alguma similaridade física entre a mãe ou pai de alguém e o seu parceiro. Isto é, sua namorada pode bem se parecer um pouco com sua mãe. A similaridade física é aparente se você pedir a estranhos que comparem fotos faciais de parceiros e pais ou se você levar em conta fatores como altura de pais e parceiros, cores de cabelos e olhos, etnicidade ou mesmo pelos corporais.

Parece então que existe alguma vantagem evolucionária em considerar atraentes traços de características parentais

Por quê? Coisas familiares são atraentes. Contanto que algo não seja inicialmente repelente, e você não foi exposto a ele por tempo demais, algo geralmente se tornará mais atraente quanto mais você o encontrar. Parte da atração a características parentais poderia ser atribuída a esse efeito de familiaridade. Entretanto, familiaridade não dá conta do fenômeno inteiro. Primeiramente, os pais das pessoas parecem estar mais propensos a se parecer com o pai do gênero correspondente: namoradas correspondem a mães e namorados correspondem a pais, não importando se estão em um relacionamento heterossexual ou homossexual. Em segundo, proximidade emocional a um dos pais aumenta a probabilidade de que seu parceiro lembre esse pai ou mãe.

Outra razão possível é que, biologicamente falando, parceiros reprodutivos ideais às vezes se parecem um pouco com nossos pais. É claro, o incesto é um jogo diferente: a reprodução entre parentes próximos pode levar a distúrbios genéticos recessivos perigosos. E entretanto, alguns genes funcionam bem juntos, então um parceiro com uma sutil semelhança a membros da família pode na verdade ser alguém cujo material genético contém algo dessa sobreposição útil. Um maravilhoso estudo com todos os casais conhecidos na Islândia, abrangendo um período de 165 anos, descobriu que aqueles com o maior número de netos tinham parentesco no âmbito do terceiro ou quarto primo — nem mais, nem menos. Parece então que existe alguma vantagem evolucionária em considerar atraentes traços de características parentais.

Mas e a aparência de irmãos? Eu e minha equipe de pesquisa percebemos que explicações para o apelo de características parentais também tenderiam a valer para características de irmãos. De fato, em populações de alta fertilidade na história, irmãos podem ter sido mais frequentes e, portanto, parceiros mais familiares do que pais. Assim, em nosso último estudo, em vez de olhar para as similaridades entre parceiros e pais, voltamos nosso foco para os irmãos. Reunimos fotografias faciais de irmãos e parceiros masculinos de 56 mulheres. Algumas das mulheres eram voluntárias contatadas diretamente, e algumas eram pessoas que tinham um perfil suficientemente público a ponto de podermos identificar seu irmão e seu namorado. Pedimos então que voluntárias femininas comparassem cada foto de um irmão de uma mulher com quatro outros homens, um dos quais era o parceiro da mulher. As voluntárias não sabiam que os homens que viam eram os irmãos e parceiros de mulheres específicas. As voluntárias classificaram cada grupo de quatro parceiros de acordo com o quanto eles se pareciam com o irmão.

Se não houvesse similaridade nenhuma entre o irmão e o parceiro de uma mulher, esperaríamos então que os voluntários escolhessem aleatoriamente, selecionando cada uma das quatro imagens em um quarto do tempo. Quando olhamos apenas para os números brutos, descobrimos que quase um terço das escolhas das classificadoras para os que mais se pareciam eram para o par irmão-namorado “correto”. Entretanto, esses números brutos eram apenas indicativos, e queríamos saber como poderíamos extrapolar os dados para a população geral. Usamos um modelo estatístico para prever isso, que indicava que se fôssemos generalizar para além do nosso conjunto de dados, as pessoas iriam selecionar o par irmão-namorado correto como sendo o mais similar em 27% das vezes, e como primeiro ou segundo mais similar em um total de 59% das vezes (em vez de 50%). O modelo previu que as pessoas iriam dizer que o namorado de uma mulher e seu irmão se pareciam em apenas 16% das vezes.

É claro, nem toda mulher em nosso estudo tinha um parceiro que se parecia com seu irmão, e isso vale para as mulheres do mundo em geral. Mas quando comparávamos nossos dados aos dados de estudos anteriores, transparecia que os namorados das pessoas se parecem com seus irmãos tanto quanto os parceiros das pessoas lembram seus pais. Uma vez que irmãos se parecem com seus pais, é possível que a semelhança irmão-namorado é meramente um corolário essencial da semelhança parceiro-pai, ou vice-versa.

Apesar de que a similaridade que vimos entre parceiros e irmãos era apenas sutil, esses efeitos sutis importam porque o comportamento humano é confuso, emergindo de uma relação complexa entre impulsos e influências. A formação de um relacionamento entre duas pessoas é um comportamento excepcionalmente complicado. Existe uma grande quantidade de pesquisas publicadas a respeito dos julgamentos que fazemos sobre preferências, escolhas e atratividades no contexto de relacionamentos, pois isso joga luz em por que nós humanos fazemos o que fazemos, assim como dá pistas a respeito do futuro de nossa espécie. Ainda que tenhamos uma aversão robusta ao incesto, tudo indica que essa aversão não parece se estender a pessoas que se assemelham a membros da nossa família.

Tamsin Saxton é professor associado de Psicologia na Universidade de Northumbria em Newcastle

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