Foto: Reprodução

tentação
 

Para o café da manhã de hoje, tive que escolher entre um donut de chocolate versus uma tigela de aveia (o donut estava delicioso). Durante o dia eu terei que combater vontades de checar o Twitter, faltar na academia, e assistir a “Game of Thrones” até tarde da noite. O tempo todo, a tentação nos acena.

Ceder a esses cantos da sereia pode fazer mal à saúde. Isso destrói nossas aspirações, longevidade e senso moral. O que fazer?

Em filmes e desenhos, a batalha pelo autocontrole é geralmente retratada como o demônio em um ombro, encorajando o comportamento impulsivo, e o anjo no outro, pedindo controle.

A metáfora do demônio e do anjo se encaixa bem em como psicólogos explicam o autocontrole: o puxa e empurra entre nosso sistema impulsivo e emocional (que nos atrai às indulgências) e nosso sistema deliberativo, lógico (que considera o longo prazo).

Mas psicólogos também já argumentaram que esses dois sistemas não agem simultaneamente. Conduzimos uma série de novos estudos para resolver quando o demônio e o anjo aparecem no momento da tentação.

O quanto o seu anjo aguenta

O consenso entre psicólogos tem sido de que quando vemos o donut, nosso sistema impulsivo age primeiro, rapidamente fazendo surgir impulsos automáticos. O sistema mais controlado (às vezes) intervinha mais tarde na tentativa de inibir a tentação. Desse ponto de vista, o demônio chega assim que existe encrenca à vista, e o anjo chega tarde na situação e precisa conquistar o demônio.

Isso sugere que o autocontrole depende muito do anjo. E, de fato, a sociedade moderna defende o poder da vontade — a ideia de que as pessoas mais bem-sucedidas são aquelas que conseguem controlar e se sobrepor aos impulsos animais para que a razão e a racionalidade prevaleçam. Isso sugere remédios muito claros para deslizes pessoais: grande força de vontade e um psiquê mais resistente.

Mas isso é verdadeiro?

Em nossa nova pesquisa em fase de publicação na Ciência da Psicologia, usamos uma ferramenta de rastreamento de mouse de computador para entender melhor como as pessoas tomam decisões de autocontrole. Com mais de 650 voluntários, registramos como as pessoas moviam seu mouse de computador enquanto decidiam entre tentações de curto prazo versus metas de longo prazo: comida saudável versus comida que não é saudável.

Clicando por um campo minado de tentação

Como uma versão moderna do jogo do copo [“Ouija board”], essa ferramenta de rastreamento de mouse pode revelar o processo cognitivo interno de uma pessoa enquanto ele ou ela fazem escolhas. Pedimos a nossas cobaias que simplesmente clicassem na opção que deveriam comer para se manterem saudáveis.

Nossas cobaias predominantemente clicaram nas opções saudáveis — mas não queríamos saber da escolha final. Queríamos a informação contida no caminho levado para chegar lá. À medida que clicavam na opção saudável, o quão perto eles levaram o mouse na direção da tentação durante o caminho?

Acontece que esse “conto” espacial previu suas chances reais. Aqueles que se desviaram para mais perto das tentações tinham mais chance de escolher uma barra de doce no lugar de uma maçã no fim do estudo quando receberam a oferta de um petisco de verdade.

O modo como as pessoas moveram o mouse também revelou como elas tomaram decisões. Em vez do demônio nos chamar à tentação logo de cara, antes que os anjos da razão superior possam intervir, parece que ambas as tentações e preocupações de longo prazo competem desde o início. Se realmente temos dois sistemas conflitantes — um sistema impulsivo, rápido, e um sistema lento e deliberativo — poderíamos esperar que os movimentos de mouse das pessoas se dirigissem fortemente no começo em direção à tentação, antes de reverter o curso de volta à meta.

Contra isso, entretanto, descobrimos que essa trajetória de “impulso depois retração” ocorreu apenas em uma minoria de experimentos em que as pessoas são bem-sucedidas em autocontrole.

Muito mais comuns eram movimentos suaves e curvos — que às vezes iam na direção da tentação, mas gradualmente voltavam ao objetivo.

Em outras palavras, as decisões bem-sucedidas das pessoas (geralmente) não acontecem primeiro como impulso em direção à tentação e depois inibição que requer esforço. Em vez disso, nossas decisões parecem ser simultaneamente informadas pela tentação e pelo objetivo.

Força de vontade não pode fazer tudo

Apesar do que se acredita em geral então, as pessoas com bom autocontrole não são aquelas com habilidade para resistir impulsos, mas aqueles que têm menos probabilidade de sentir impulsos fortes no início. Esses dados sugerem que a ideia comum de um demônio rápido seguido por um anjo lento pode não refletir como decisões bem-sucedidas realmente acontecem na maior parte dos casos.

Esse novo trabalho mostra que focar na força de vontade e na inibição de impulsos pode frequentemente significar muito pouco muito tarde. Em vez de se endurecer contra a tentação, pode ser mais frutífero fazer algum esforço de antemão — focar em pequenas decisões que podem nos ajudar a evitar impulsos tentadores como um todo. Outros psicólogos, como Ayelet Fishbach e seus colegas, já defenderam exatamente esse tipo de abordagem de controle preventivo. Por exemplo, pode-se evitar situações que têm potencial de disparar impulsos, como a prateleira de doces.

Obviamente não podemos criar um mundo sem tentações, mas talvez valha considerar mais a sério uma estratégia preventiva em vez de tentar apenas aumentar nossa força de vontade. Na hora em que o demônio aparecer no nosso ombro, geralmente já é tarde demais. Melhor trabalhar em modos de o evitar completamente.

Paul Stillman é pesquisador de pós-doutorado em Ciências Cognitivas e do Cérebro, universidade Ohio State

Melissa J. Ferguson é professora de Psicologia, universidade de Cornell

The Conversation