Foto: Lucy Nicholson/Reuters

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Novo Código Mundial Antidoping inclui disposições para reduzir — ou eliminar — sanções se atletas que violaram regras fornecerem 'assistência substancial' às autoridades
 

Novas pesquisas que estudam denúncias no esporte vêm mostrando que atletas geralmente hesitam em denunciar casos de doping. Mesmo que esses atletas se oponham pessoalmente a usar substâncias proibidas.

A hesitação pode ser largamente atribuída ao fato de que denunciar doping apresenta um verdadeiro dilema moral — entre duas opções igualmente válidas e difíceis. Como atleta, você denuncia a prática de doping para proteger a integridade do esporte, ou fica quieto para proteger a carreira, reputação e bem-estar de alguém?

Enquanto denunciar o doping, à primeira vista, pode parecer simples, isso não costuma ser o caso. É comum haver muitas variáveis a considerar — um atleta pode estar treinando com o mesmo técnico que administrou as substâncias vetadas, pode ser amigo daquela pessoa ou pode se sentir pressionado (por outros atletas) a ficar quieto. Existem ainda as possíveis consequências sociais para o informante — ser rejeitado, intimidado ou desacreditado.

Apesar da relutância entre atletas em denunciar o doping, é razoável argumentar que o uso de substâncias e métodos proibidos é uma ameaça à integridade do esporte. E é em parte por isso que entidades governamentais que combatem o doping estão reconhecendo cada vez mais o papel crítico que informantes podem ter na revelação de práticas de doping.

O melhor percurso

O novo Código Mundial Antidoping inclui disposições para reduzir — ou eliminar — sanções relacionadas a doping se atletas que violaram regras anti-doping fornecerem “assistência substancial” às autoridades. É um avanço significativo no sentido de que se oferece um incentivo para que pessoas assumam o papel de informante.

O que isso significa em termos reais é que se um atleta fornece informações sobre práticas de doping de outros, a sua própria punição pela mesma irregularidade pode ser reduzida. No Reino Unido, a velocista Bernice Wilson passou por isso quando sua penalidade por doping foi reduzida de 40 para 10 meses depois que ela deu informações sobre o envolvimento de seu treinador. Ele, por sua vez, foi banido para sempre do esporte.

Para incentivar ainda mais as denúncias, recursos consideráveis foram direcionados a canais para informantes anônimos. Estes incluem a plataforma Speak Up!, da Agência Mundial Antidoping, e o programa de denúncia que a acompanha, em que são detalhados os direitos que os informantes têm nessas situações.

É um avanço positivo e necessário, embora seja questionável se política e procedimentos conseguirão lidar com a complexidade inerente a uma denúncia — ou diminuir os significativos custos pessoais que podem se seguir à divulgação.

Vindo a público

A ex-maratonista britânica Mara Yamauchi já escreveu em seu blog pessoal sobre questões que cercam as denúncias no esporte. Em seu post “Doping: athletes speaking out” [Doping: atletas vindo à público, em tradução livre], Yamauchi lista dez motivos que ela acredita que fundamentam a hesitação de atletas em relação a denunciar o doping.

Baseada na sua experiência de atleta internacional, a lista basicamente reitera o verdadeiro dilema moral que a denúncia apresenta — vale a pena? Alguém vai ouvir? Como os outros vão te encarar depois que você divulgar a informação?

Casal de atletas russo teve que se exilar por motivos de segurança depois de terem denunciado extensa prática de doping no atletismo de seu país

Além de todos os pontos levantados por Yamauchi, existe também a questão que, historicamente, ocorrências de denúncias no esporte geralmente não foram bem recebidas. As consequências de vir a público para falar sobre doping no esporte podem ser severas.

Basta olhar para Yulia Stepanova e Vitaly Stepanov — o casal que denunciou práticas de doping no atletismo russo — para entender seu possível impacto. A vida do casal foi mudada para sempre por sua decisão de apresentar informações sobre doping e comportamento criminoso sistemáticos na Rússia. Eles tiveram que mudar para outro país por razões de segurança e as reações negativas à sua decisão de denunciar continuam — Stepanova foi chamada de traidora por seu ex-técnico e ela foi banida de participar das Olimpíadas do Rio de 2016. 

Estado do esporte

Um artigo recente do Guardian enumerou os vários obstáculos àqueles que querem fazer uma denúncia na cultura esportiva britânica. Esses incluem coisas como atletas sendo marginalizados, isolados e perdendo fundos da loteria nacional. Sem falar na possibilidade de prejudicar uma futura carreira no meio esportivo — como se tornar um treinador, por exemplo.

Devido às reações no esporte e do público em relação aos casos de denúncia até agora, aqueles envolvidos no esporte estarão certamente acompanhando de perto o modo como se lidará com incidentes de denúncias daqui em diante.

Revelar o doping no esporte geralmente depende da disposição em se pronunciar daqueles que sabem — ou suspeitam — de práticas de doping. Então é crítico que o esporte crie e mantenha uma cultura que é aberta e apoiadora de pessoas que apresentam informações sobre irregularidades. Sem isso, as chances são de que as vozes permaneçam silenciosas e as práticas de doping, ocultas.

Kelsey Erickson é pesquisadora visitante em antidoping, Leeds Beckett University

Susan Backhouse é professora de psicologia e nutrição comportamental e diretora do Centro para Desempenho Esportivo do Institute for Sport, Physical Activity and Leisure

Kelsey Erickson recebeu fundos da Fundação Internacional do Atletismo para conduzir sua pesquisa sobre denúncias

Susan Backhouse recebeu fundos da IOC. Ela mantém parcerias de pesquisa com a união de rúgbi e a entidade de cricket da Inglaterra e País de Gales. Ela colabora com a Agência Mundial Antidoping e o Conselho Internacional para a Excelência de Treinamento.

The Conversation