Foto: Goethe Museum/Wikipedia

Goethe
Goethe, retratado por Georg Melchior Kraus
 

Em uma cultura global que parece cada vez mais obcecada com o individualismo radical, apresentações narcisistas do eu e retórica política incendiária, é difícil imaginar que a sociedade alguma vez se importou com a beleza da alma. Mas, no fim do século 18 e começo do 19, na Alemanha e pela Europa, a busca por uma “bela alma” se tornou um fundamento do pensamento filosófico e do discurso popular, promovido por alguns dos intelectuais mais importantes da época, incluindo Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schiller e Wilhelm von Humboldt. Para esses pensadores, a busca pela perfeição interna era uma reação aos horrores da ação irracional em massa da Revolução Francesa, que culminou na fase do Terror da década de 1790. Eles acreditavam que as noções nascentes de democracia poderiam ser desenvolvidas apenas se cada indivíduo alcançasse a libertação do que o que Immanuel Kant descreveu como uma “tutelagem auto-induzida” da imaturidade intelectual por meio do desenvolvimento de faculdades cognitivas e emocionais trazidas por experiências estéticas.

No centro da bela alma está a ideia de que o indivíduo possui um potencial cognitivo inato. Sujeito às condições ambientais e educacionais certas, esse potencial latente pode ser desenvolvido de modo a alcançar um estado mais perfeito de intelecto, moralidade, caráter e conduta. A bela alma é um conceito estético focado no desenvolvimento de capacidades humanas e no progresso do conhecimento e da cultura. Implica a busca de um refinamento pessoal com o objetivo de criar uma convergência do impulso estético individual com um ideal ético coletivo. A bela alma é uma alma virtuosa, que detém um senso de justiça, busca a sabedoria, e pratica a benevolência por meio de uma propensão ao “bem”.

Inspirada pela filosofia da Grécia antiga, a bela alma reflete o imperativo de Plotino de cultivar o eu do mesmo modo que um escultor trabalha:

“Recolha-se para dentro de si mesmo, e se examine. Se você então não descobrir beleza, faça como o artista, que vai cortando, polindo e purificando até que ela tenha adornado sua estátua com todas as marcas da beleza. Remova da sua alma, assim, tudo que é supérfluo, alise tudo que está torto, purifique e ilumine o que é obscuro, e não pare de aperfeiçoar sua estátua até que a divina resplandecência da virtude brilhe à frente de sua visão....”

Esculpir a alma e criar o que Goethe se referiu como “uma humanidade mais bela” é conseguido por meio da internalização da tríade platônica de beleza, verdade e bondade. A beleza é concebida como a integração das faculdades intelectuais e estéticas no encontro da arte com a natureza. A verdade é o resultado do exercício lógico das faculdades racionais e do edificante senso de curiosidade que deriva de experiências no mundo. Bondade é encontrada na capacidade humana de sentir compaixão pelos outros e portanto contribuir para a melhoria da sociedade.

O autorrefinamento não era uma busca presunçosa e inútil de pessoas ricas, mas sim uma reformulação radical do que significava ser humano e de como existir harmoniosamente na sociedade

A tríade platônica é conseguida dentro da alma por meio da exploração de ideias em experiências vividas, não por seguir de modo cego princípios ou dogmas ditados pela igreja ou por um sistema político. O conceito requer que o indivíduo dedique ativamente seus sentidos a navegar o mundo material em que a beleza age como sua guia. O inevitável caráter indeterminado da experiência estética e sensorial é precisamente o que a faz valiosa na expansão da consciência pessoal, no sentido de explorar as questões maiores da realidade. Ver a trajetória parabólica de uma cotovia no céu, observar os padrões fractais encontrados na natureza, contemplar os círculos concêntricos produzidos por gotículas de chuva em poças d’água se tornam oportunidades de entender o universo e alcançar um estado cognitivo-afetivo elevado. Como observou Goethe: “Um homem deveria ouvir um pouco de música, ler um pouco de poesia, e ver um bom quadro todo dia da sua vida para que as preocupações mundanas não apaguem o sentido do belo que Deus implantou na alma humana”.

O conceito afirma que, em sua universalidade, a beleza oferece um modo de interagir com o mundo, provendo uma base comum sobre a qual relações sociais positivas podem ser desenvolvidas, agindo como um léxico para a troca comunicativa. Uma vez que compartilhar experiências sensoriais é uma tendência humana natural, a beleza fornece uma oportunidade de conectar indivíduos em um momento de significado máximo, transmitindo sentimentos inefáveis que vão direto ao cerne da existência. Ao abrir os horizontes da percepção, uma pessoa é elevada para além do ego e da auto-absorção para um campo de interesse e contemplação universais. A beleza consegue o bem por meio do fortalecimento de faculdades de empatia que induzem à compaixão mais profunda por outros e à atenção ao bem-estar do coletivo social. Assim, o casamento do belo, do verdadeiro e do bom é para a bela alma mais do que as meditações metafísicas da antiguidade, mas a verdadeira base de uma sociedade mais justa e igualitária.

Embora a filosofia nunca tenha sido concretizada do modo como seus teóricos a vislumbraram, a bela alma é muito mais do que uma bela ideia. Voltando-se para a estética, os filósofos da “Aufklärung” (Iluminismo) alemã não evitavam ingenuamente as realidades políticas. Em vez disso, ofereciam uma teoria holística que reconhecia o horizonte a longo prazo para o florescimento da razão e do entendimento humano. Ao fazer isso, desenvolveram uma concepção poética da política que se inspirou em noções gregas antigas de um estado estético. Trabalhando em direção à sua própria melhoria e aventurando-se destemidamente pela sociedade, a bela alma era uma figura revolucionária, na vanguarda do progresso do Iluminismo.

O autorrefinamento não era uma busca presunçosa e inútil de pessoas ricas, mas sim uma reformulação radical do que significava ser humano e de como existir harmoniosamente na sociedade. A bela alma antecipou os problemas da razão instrumental, sobrepujando os perigos da mera funcionalidade, desencanto e isolamento social ao oferecer uma visão de mundo estética que facilitou as interações humanas positivas e um entendimento multidimensional da experiência humana. Ela definiu valores iluministas de igualdade, fraternidade e racionalidade, servindo como o modelo de um cidadão que se alinhava às responsabilidades associadas à democracia.

A guinada contemporânea em direção ao niilismo que coloca o indivíduo em um pedestal em detrimento do coletivo fez a ideia de cultivar uma alma mais bela parecer irremediavelmente idealista e desconectada das “realidades duras”. No mundo do realista, buscamos fins utilitários à guisa de pragmatismo, nos desviando da ilusão de um ideal imaterial e, no fim das contas, inalcançável. O mistério e a poesia da natureza humana foram arrancados da nossa experiência diária às custas das nossas imaginações e vontade de imaginar um mundo mais belo. Entretanto, os males sociais e ambientais induzidos pela economia da funcionalidade absoluta têm se provado tudo menos pragmáticos para a sustentabilidade e bem-estar da nossa espécie a longo prazo. Se ainda guardamos esperança na propensão humana pela bondade, então deveríamos contemplar de modo renovado a figura poética e revolucionária da bela alma, que pode mais uma vez prover uma visão para o aprofundamento de nossas faculdades intelectuais, morais e emocionais a serviço de um futuro mais justo e progressista para todos nós.

Justine Kolata é a fundadora e diretora de The Public Sphere, e cofundadora e co-diretora do Instituto Bildung. Ela está atualmente cursando doutorado sobre a cultura do salão literário no Iluminismo no departamento de alemão da Universidade de Cambridge

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