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Pesquisadores concordam que não bastam apenas mais fatos para fazer as pessoas entenderem uma questão
 

Em um mundo em que “pós-verdade” foi a palavra do ano em 2016, muitas pessoas estão começando a duvidar da eficácia dos fatos. Pode a ciência fazer sentido da anti-ciência e da tendência da pós-verdade? De modo mais geral, como podemos entender o que move as crenças, decisões e comportamentos das pessoas?

Cientistas desenvolveram muitas teorias para descrever como as pessoas processam e pensam sobre informação. Infelizmente, existe uma tendência crescente de ver as pessoas como criaturas cujos mecanismos de raciocínio são muito dependentes de um estreito conjunto de processos. Por exemplo, uma teoria popular sugere que se apenas comunicarmos informações mais precisas às pessoas, seu comportamento irá mudar de acordo. Outra sugere que as pessoas irão rejeitar evidências que ameacem suas profundas visões de mundo e os sentimentos associados a elas.

É mais importante do que nunca que a nossa abordagem com relação à comunicação seja baseada em evidências e construída sobre bases fortes e teóricas. Muitos destes modelos contribuem com insights valiosos e podem nos ajudar a desenhar uma comunicação melhor, mas quando sozinhos são incompletos. E a ciência das comunicações tem uma tendência a simplificar demais, focando em um modelo simples e ignorando outras teorias.

Nós sugerimos que esta é uma prática perigosa e menos efetiva que uma visão mais nuançada e holística. A aparente escolha entre “fato” e “sentimento”, ou entre “cognição” e “cultura” é um falso dilema. Na verdade, ambos são relacionados e se dirigem a peças diferentes do quebra-cabeças que é tomar uma decisão.

Pensando versus sentindo

Uma teoria bem conhecida sobre como as pessoas absorvem novos fatos é o “modelo do déficit de informação”. A ideia principal aqui é simples: se você atirar mais fatos na direção das pessoas, elas acabarão por entender uma questão.

A maior parte dos acadêmicos de ciência do comportamento concordam que este modelo de pensamento e comportamento humano é claramente incompleto – as pessoas dependem de uma gama de outros sinais além dos fatos para guiar suas atitudes e comportamento. Por exemplo, às vezes agimos baseados simplesmente em como nos sentimos a respeito de uma questão. Infelizmente, os fatos nem sempre convencem.

Mas o termo “déficit de informação” é problemático também. As pessoas tendem a ter informações limitadas na maior parte das áreas da vida. Por exemplo, frequentemente não sabemos os pensamentos e sentimentos de outras pessoas em quem confiamos e que valorizamos. Do mesmo modo, podemos ter conhecimento limitado sobre regras culturais apropriadas quando viajamos a um novo país, e por aí afora. Déficit de informação não é um termo que significa muita coisa para ser usado em teorias sobre o pensamento humano.

Outra teoria sobre o pensamento humano é chamada de “cognição cultural”. Em resumo, ela sugere que nossos valores culturais e visões de mundo moldam como pensamos sobre a ciência e a sociedade.

É fácil ser levado a pensar erroneamente no cérebro humano como uma esponja que suga apenas as informações em que quer acreditar. Por exemplo, a teoria sugere que a posição de uma pessoa em questões controversas como as mudanças climáticas não é informada por evidências científicas, mas pelo forte compromisso que as pessoas têm com seus grupos e ideologias políticas. A ideia é que, a fim de proteger nossas visões de mundo culturais, rejeitamos ativamente evidências que as ameacem – pense em alguém que teme que ações do governo em cima das mudanças climáticas sabotam o livre mercado.

Em suma, essa narrativa soa atraente na superfície, à medida que humanos se organizam em grupos, e muitas pesquisas na área de psicologia têm mostrado que derivamos parte das nossas identidades sociais dos grupos aos quais estamos ligados.

Sim, seu foco é estreito demais, e há uma falácia lógica nessa concepção do pensamento humano. A qualquer momento, pertencemos a muitos grupos e lidamos com várias identidades públicas e privadas. A questão real diz respeito a nuance; quando e sob quais condições alguém fica motivado a rejeitar fatos científicos em favor da sua visão cultural de mundo?

‘Isso ou aquilo’ é a abordagem errada

Apostar todas as nossas fichas “disseminadoras de fatos” em uma ou outra teoria é simplista demais e nos priva de percepções importantes.

Uma perspectiva mais nuançada reconhece que fatos e informações fazem parte de contextos sociais e culturais. Por exemplo, a percepção que as pessoas têm de consensos de especialistas é bastante importante, especialmente em questões contestadas, e é frequentemente descrita como uma crença “de entrada” que influencia um leque de outras atitudes a respeito de uma questão. O consenso quase-unânime de que vacinas não causam autismo ou de que as mudanças climáticas são causadas pelos seres humanos são todos fatos científicos. Ao mesmo tempo, a informação de consenso é também inerentemente social: ela descreve a extensão da concordância entre um grupo influente de especialistas.

As pessoas frequentemente querem ser precisas em suas opiniões e, em um mundo incerto sujeito a limitações de tempo e esforços, fazemos apostas estratégicas sobre quais informações levar em conta. O consenso age como heurística natural, ou atalho mental, para questões científicas complexas. Vários estudos descobriram que destacar a concordância científica a respeito do aquecimento global causado por humanos pode ajudar a neutralizar e reduzir opiniões conflitantes a respeito das mudanças climáticas.

Do mesmo modo, enquanto alguns estudos descobriram um efeito limitado da sabedoria no julgamento, quando se vai mais fundo nos dados, um quadro mais nuançado e informado emerge. Por exemplo, alguns estudos afirmam que um déficit em “conhecimento” científico não explica porque as pessoas se dividem em assuntos disputados como as mudanças climáticas. Mas o que está sendo medido nesses experimentos importa. De fato, indicadores como o quão bem as pessoas entendem números ou sobre o seu conhecimento de ciência – que é o que alguns destes estudos realmente quantificam – são categoricamente diferentes de medir o conhecimento específico que as pessoas têm sobre um tópico como as mudanças climáticas. Na verdade, uma pesquisa feita em seis países descobriu que quando as pessoas entendem as causas das mudanças climáticas, sua preocupação aumenta também, independentemente dos seus valores. Do mesmo modo, outros estudos mostram que explicações sobre os mecanismos das mudanças climáticas podem reduzir avaliações tendenciosas de evidências bem como a polarização política.

Resumindo, os fatos importam sim.

O pensamento das pessoas é complexo e nuançado

Realmente, não é preciso jogar o bebê fora junto com a água do banho. Em vez disso, precisamos afastar as falsas dicotomias e a psicologia popular sobre o pensamento humano que hoje dominam a mídia. Repetir a história de que as pessoas não se importam com os fatos corre o risco de se tornar uma profecia auto-realizável. Uma opinião holística reconhece que as pessoas se apoiam em atalhos cognitivos e emoções, se importam com as normas sociais e identidades de grupo e estão, às vezes, motivadas em seus raciocínios, mas também reconhece a pesquisa que mostra que a maior parte das pessoas fundamentalmente quer manter percepções corretas sobre o mundo.

Isso é particularmente importante à medida que o público está hoje prejudicado pela desinformação e pelas notícias falsas. Em dois estudos separados, descobrimos que a desinformação a respeito das mudanças climáticas tem uma influência desproporcional nas atitudes e opinião públicas. Entretanto, também descobrimos que inocular as pessoas contra os argumentos falsos neutralizava a influência da desinformação por todo o espectro político. Essencialmente, ensinar pessoas sobre quais argumentos falsos podem ser utilizados os ajudou a superar seus vieses culturais. Outro trabalho mostra também que a politização da ciência pode ser combatida com inoculação.

As pessoas são complexas, sociais e afetadas por uma gama diversa de influências, dependendo da situação. Queremos ter opiniões corretas, mas a emoção, as identidades de grupo e objetivos conflitantes podem ser obstáculos. Incorporar essas diferentes perspectivas no pensamento humano enriquece nosso entendimento a respeito de como as pessoas formam opiniões e tomam decisões.

Uma ciência da comunicação eficaz requer uma abordagem inclusiva e holística que integra diferentes perspectivas das ciências sociais. Focar de modo simplista em uma única perspectiva fornece uma visão cada vez mais imprecisa de como humanos formam julgamentos sobre questões sociais e científicas.

John Cook é professor assistente de pesquisa doCentro para a Comunicação das Mudanças Climáticas, Universidade de George Mason

Sander van der Linden é diretor do Laboratório social de tomada de decisões sociais de Cambridge, Universidade de Cambridge

The Conversation