Foto: Rupak De Chowdhuri/Reuters - 30.08.2013

Notas de 100 rúpias, moeda indiana

Em 27 de junho, o caixa eletrônico completa 50 anos. O ex-presidente do Banco Central americano, Paul Volcker, uma vez o descreveu como a “única invenção útil no sistema bancário”. Mas hoje, o dinheiro que o caixa eletrônico serve pode estar ameaçado de extinção.

O dinheiro está perdendo seu lugar de tantas maneiras que é difícil acompanhar. Existem os cartões de crédito e pagamentos eletrônicos; aplicativos como Venmo, PayPal e Square Cash; serviços de pagamentos no celular; criptomoedas que operam fora da alçada dos bancos centrais; e propostas localizadas como a queniana mPesa, a indiana Patym e a bengali bKash. Estas inovações estão incentivando a ausência do dinheiro em comunidades por todo o mundo

É razoável esperar que o dinheiro siga o caminho de outros itens que foram substituídos por alternativas digitais, como fotos, música e filmes. Irá o dinheiro — e os caixas eletrônicos que o fornecem — ter um momento “Blockbuster” e desaparecer das nossas vizinhanças? Não tão rápido. O dinheiro provavelmente se tornará menos popular, graças ao alto custo de se usar dinheiro e o crescente leque de alternativas. Mas eu espero que ele permaneça conosco para sempre. O futuro será de “menos dinheiro”, mas não sem dinheiro.

O custo do dinheiro

Desde 2013, aproximadamente 85% das transações mundiais envolveram dinheiro. A dependência do dinheiro é bastante desigual pelo mundo. Enquanto Cingapura, Holanda, França, Suécia e Suíça estão entre os países menos dependentes do dinheiro, na Malásia, Arábia Saudita, Peru e Egito apenas 1% das transações não usam dinheiro. Mesmo alguns países altamente avançados, como o Japão, ainda são muito dependentes do dinheiro.

O uso de dinheiro nos EUA ainda é alto em comparação com países da União Europeia. Em 2015, o uso de dinheiro nos EUA representou 13,1% do seu PIB, ao passo que representou apenas 7,1% na França e 4,5% na Suíça.

Preocupações ligadas à igualdade social oferecem uma motivação para que legisladores apoiem alternativas que não usem dinheiro. Meu colega Benjamin Mazzotta e eu estudamos os custos do dinheiro em uma grande variedade de países, com foco especial nos EUA, México, Egito e Índia. Nossa pesquisa mostrou que os custos de se usar dinheiro recaem desproporcionalmente nos pobres e naqueles com menor acesso a instituições.

Nos EUA, por exemplo, o uso do dinheiro impõe um imposto regressivo aos consumidores, com as pessoas que não têm conta em banco sentindo o maior impacto. Descobrimos que os desbancarizados pagam quatro vezes mais em termos de taxas para ter acesso ao seu dinheiro do que aqueles com contas bancárias. Eles também pagam em média taxas US$ 4 mais caras todo mês para ter acesso ao dinheiro do que aqueles com serviços financeiros formais. Tais taxas incluem aquelas cobradas para empréstimos de curto prazo, financiamento automotivo feito por meio de lojas e compensação de cheques. Os desbancarizados têm um risco cinco vezes maior de pagar taxas para receber seu salário ou benefícios sociais em dinheiro.

Consumidores mais pobres também precisam gastar muito mais tempo obtendo dinheiro. Em média, os americanos gastam 28 minutos por mês se deslocando para acessar o dinheiro, mas esse tempo não é distribuído de forma igual. As pessoas que não usam um banco gastam cerca de cinco minutos a mais para chegar a um lugar onde podem conseguir dinheiro, e pessoas desempregadas gastam quase nove minutos mais.

Enquanto isso, outros acadêmicos vêm argumentando em favor dos benefícios de uma sociedade com menos dinheiro. Ken Rogoff, em Harvard, defende que eliminar notas bancárias de valor mais alto pode prevenir que a moeda seja usada para financiar atividades ilegais.

Um mundo sem dinheiro

Uma combinação de iniciativas públicas e privadas está atualmente minando a predominância global do dinheiro, com alguns países avançando com mais rapidez que outros. A Suécia, já bem posicionada na escala da ausência de dinheiro, pode se tornar o primeiro país a se aproximar de um Estado verdadeiramente sem dinheiro. A história da Suécia em termos de bancos promovendo alternativas ao dinheiro remonta aos anos 1960, com transferências bancárias digitais usadas para pagar salários. Cartões também se tornaram mais populares na década de 1990, quando bancos também começaram a cobrar uma taxa pelo uso do cheque. O aplicativo Swish, desenvolvido pelos principais bancos, é usado hoje para transferências digitais de dinheiro por quase metade da população. Muitos negócios desencorajam o uso de dinheiro, e o varejo tem permissão legal para recusá-lo.

Em vários outros países, governos estão experimentando alternativas digitais inovadoras. Em 2012, a Casa da Moeda canadense lançou o projeto MintChip, recentemente transferido para o setor privado. O plano consiste em armazenar dinheiro em chips de computador, permitindo a transferência de dinheiro entre chips por meio de mensagens encriptadas. Em alguns países, o setor privado tem liderado, criando sociedades de “menos dinheiro” nos lugares mais improváveis. Considere a Somalilândia, um dos países mais pobres do mundo. Ele se situa na linha de frente de uma revolução em pagamento móvel com sua plataforma ZAAD. Com mais de 30 pagamentos via celular por mês em média, o cidadão médio da Somalilândia está muito à frente da média do resto do mundo, com 8,5 transações desse tipo per capita todo mês.

Talvez o movimento mais dramático em direção a “menos dinheiro” ocorreu recentemente na Índia. Novembro passado, o governo indiano tomou uma atitude de grande ousadia e alto risco ao cancelar o valor das cédulas de 500 e 1.000 rúpias, efetivamente anulando 86% do dinheiro em circulação. O objetivo inicial era de atacar a corrupção e as atividades ilegais financiadas pelo dinheiro. Novas notas de 500 e 2.000 rúpias foram emitidas, para que consumidores tivessem que ir ao banco trocar seu dinheiro desvalorizado.

Em um país em que a dependência do dinheiro é de quase 90%, a atitude levou à disrupção de empreendimentos, não-pagamento de salários e longas filas nos bancos. Empresas de aplicativos de carteira digital acabaram por ser os vencedores não-qualificados da decisão, com a líder de mercado Paytm declarando ter conseguido um aumento de 435% no tráfego e um aumento de 250% em transações totais e valor de transação.

Entretanto, apesar do aumento em pagamentos móveis depois da desmonetização, o dinheiro resiste na Índia. Em março, cinco meses depois da desmonetização, o número de retiradas de dinheiro era na verdade 0,6% maior do que um ano antes.

O futuro do dinheiro

O que explica a resiliência do dinheiro, apesar dos seus custos e de um leque crescente de alternativas? O dinheiro é único entre os instrumentos de pagamento no sentido de que qualquer um pode transacionar com ele, a qualquer hora, em qualquer lugar, sem envolver terceiros. Com essa liberdade vem uma forte proteção à privacidade. A moeda não sabe nem se importa com quem a segura ou quando e onde uma transação ocorreu. As pessoas têm uma sensação visceral de segurança quando têm dinheiro consigo. Muito desse sentimento foi revelado em nosso estudos do custo do dinheiro, que abrange diversos países.

Estas barreiras irão, é claro, evoluir à medida que nossas sociedades se tornam mais digitalmente nativas. Entretanto, leva bastante tempo para alterar velhos hábitos e percepções. Alguns comerciantes irão resistir aos custos de equipamentos novos ou às taxas que acompanham as alternativas ao dinheiro. O dinheiro é também considerado mais conveniente e versátil enquanto transações digitais sempre trazem preocupações com hackers ou fraude.

Então, não importa onde estejamos no mundo, vamos celebrar o meio século de serviços do caixa eletrônico. A conexão humana com o dinheiro será quebrada com dificuldade. Embora o dinheiro possa ficar menos popular, fique tranquilo que sempre haverá alguém lhe parando na rua para perguntar onde fica o caixa eletrônico mais próximo.

Bhaskar Chakravorti é reitor associado sênior, Negócios e Finanças Internacionais, Universidade Tufts. O autor recebe fundos da Mastercard. Ele é filiado ao Centro Mastercard para Crescimento Inclusivo.

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