Foto: Albert Barque-Duran

 

Se você é negro nos Estados Unidos, você tem duas vezes mais chance que uma pessoa branca de estar desarmado no caso de ser morto em um encontro com a polícia. Por quê? Algum tipo de perfilamento racial entra em ação, mas o exato mecanismo psicológico é pouco entendido. Investigações em ocasiões em que a polícia atira mostram que os policiais comumente enxergam celulares ou outros objetos inofensivos como sendo armas quando estão nas mãos de pessoas não-brancas. Os agentes policiais interpretam mal o que veem ou eles estão de fato vendo um revólver onde não há nenhum?

O relato psicológico clássico relacionaria esses erros a uma falha do controle executivo, provocada por estímulos externos. Isto é, o problema vem da inabilidade do cérebro em resolver o conflito entre um estereótipo automaticamente ativado e uma crença igualitária consciente. Ver um rosto negro pode automaticamente ativar o estereótipo de que homens negros são mais perigosos, conduzindo à atividade em áreas do cérebro ligadas a reações de medo. Mas a resposta automática, que poderia acionar uma reação do tipo fugir ou lutar, deveria ser suprimida quando o medo é irracional. Entretanto, as tensões entre processos automáticos e de controle não são sempre prontamente resolvidas, e resultam em erros.

Novas vertentes de trabalho na psicologia, neurociência e filosofia da mente desafiam essa ortodoxia centrada no cérebro. Pesquisadores da “cognição incorporada” preferem focar na interdependência do cérebro em relação aos processos psicológicos que sustentam o organismo. Nessa perspectiva, a mente precisa ser entendida como algo embutido em um corpo, e o corpo como embutido em um ambiente físico, social e cultural. A realidade não está simplesmente à disposição, mas é convocada por meio das constantes flutuações da nossa própria matéria orgânica. Como escreveu o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty em “Fenomenologia da Percepção” (1945): “O corpo é o veículo do ser no mundo”.

Entre neurocientistas, ganha popularidade a ideia de que o cérebro não é um órgão passivo que recebe e reage a estímulos, e sim muito mais uma máquina de inferência: algo que ativamente se esforça em prever o que há lá fora e o que vai acontecer, potencializando as chances de se permanecer vivo. Mas o corpo não é apenas controlado de cima para baixo. Em vez disso, seus sinais estão constantemente se combinando com as inferências do cérebro para gerar nossa percepção do mundo. Imagine escutar uma porta batendo: você tem mais chances de imaginar que é um invasor se estiver assistindo a um filme assustador do que se estiver ouvindo uma música relaxante. Você faz essa previsão (do contrário, bastante improvável) porque ela explica o seu coração acelerado pelo som da porta.

Ainda sabemos muito pouco sobre como exatamente esses processos podem se relacionar com o fenômeno do racismo, mas agora temos alguma ideia de onde procurar. Se o histórico de previsão do comportamento é correto, a percepção (incluindo a da polícia) de repente se parece muito mais próxima de uma crença e é muito mais incorporada do que pensávamos. Estudos recentes destacam as influências dos sinais viscerais por meio de muitos domínios, do processamento emocional à tomada de decisões e à autoconsciência. Por exemplo, estímulos assustadores são avaliados como sendo mais amedrontadores quando apresentados durante batimentos cardíacos do que entre batimentos cardíacos.

No meu laboratório em Royal Holloway, Universidade de Londres, decidimos testar se o ciclo cardíaco fazia diferença na expressão de preconceito racial. O coração está constantemente informando o cérebro sobre o nível geral de “excitação” do corpo, o nível de sua percepção a respeito do que está acontecendo em volta. Em um batimento cardíaco, sensores conhecidos como “baroreceptores arteriais” captam mudanças de pressão na parede do coração e disparam uma mensagem para o cérebro; entre batimentos, eles estão inativos. Tal informação visceral é inicialmente codificada no tronco cerebral, antes de alcançar partes sintonizadas nos comportamentos emocionais e motivacionais. O cérebro, por sua vez, reage tentando ajudar o organismo a se estabilizar. Se ele recebe sinais de um batimento cardíaco mais elevado, o cérebro irá gerar previsões sobre as possíveis causas e considerar o que o organismo deveria fazer para desembarcar desse estado sobressaltado. O contínuo diálogo coração-cérebro, então, forma a base de como o cérebro representa o corpo para si mesmo e cria consciência do ambiente externo.

Em nosso experimento, usamos o que se conhece por “tarefa do atirador em primeira pessoa”, que simula os julgamentos-relâmpago que agentes policiais têm de fazer. Participantes veem um homem branco ou negro segurando um revólver ou um telefone. Em estudos anteriores, estavam significativamente mais propensos a atirar em um indivíduo negro desarmado do que em um branco.

Mas programamos os estímulos para ocorrerem ou entre ou durante um batimento cardíaco. Notavelmente, a maior parte dos erros de identificação ocorreu quando indivíduos negros apareceram no mesmo momento de um batimento cardíaco. Aqui, o número de falsos positivos em que telefones foram percebidos como armas cresceu 10% em comparação com a média. Numa versão diferente do teste, usamos o que é conhecido como “tarefa de identificação de armas”, em que participantes veem um rosto branco ou negro, seguido da imagem de um revólver ou ferramenta, e precisam classificar o objeto o mais rapidamente possível. Quando os itens inofensivos eram apresentados depois de um rosto negro, e durante uma batida do coração, os erros aumentaram em 20%.

Entretanto, nos dois casos, quando o julgamento acontecia entre batimentos cardíacos, não foi observada nenhuma diferença na precisão das pessoas, independentemente de estarem reagindo a rostos brancos ou negros. Parece que a combinação do disparo de sinais do coração ao cérebro, junto com a apresentação de uma ameaça estereotipada, aumentou as chances de que mesmo algo benigno seja percebido como perigoso.

É surpreendente pensar no viés racial como não apenas um estado ou hábito da mente, nem mesmo uma norma cultural disseminada, mas como um processo que é também parte do vai e vem da fisiologia do corpo. O diálogo coração-cérebro tem papel fundamental na regulação da pressão sanguínea e do batimento do coração, assim como na motivação e apoio do comportamento de adaptação em reação a eventos externos. Assim, em reações de luta ou fuga, mudanças na função cardiovascular preparam o organismo para a ação subsequente. Mas, ao passo que o cérebro possa ser preditivo, essas previsões podem ser imprecisas. O que nossas descobertas ilustram é até que ponto estereótipos raciais, e possivelmente outros, estão dominando mecanismos corporais que evoluíram para lidar com ameaças verdadeiras.

A psicóloga Lisa Barrett Feldman na Northeastern University, em Boston, cunhou o termo “realismo afetivo” para descrever como o cérebro percebe o mundo por meio do corpo. Por um lado, há motivo para otimismo: se pudermos entender melhor os mecanismos neurológicos por trás do viés racial, então talvez estaremos em melhor posição para corrigi-lo. Mas há um lado sombrio da análise. As estruturas de opressão que moldam quem somos também moldam nossos corpos e, talvez, nossas percepções mais fundamentais. Talvez não enxergamos errado ao ver um revólver no lugar de um telefone; talvez realmente vemos um revólver em vez de um telefone. O racismo pode não ser algo que as sociedades simplesmente superam com novas narrativas e mensagens políticas progressivas. Ele pode demandar uma forma mais radical de reeducação fisiológica, a fim de alinhar as realidades que incorporamos com as crenças que professamos.

Manos Tsakiris é professor de psicologia na Royal Holloway Universidade de Londres. Sua pesquisa investiga os mecanismos neurais e cognitivos da autoconsciência e da cognição social

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