Foto: Giorgio Sommer/Wikimedia Commons

Engraxate e batedor de carteira
 

Relembre a semana que passou. Quantas vezes você ficou tentado a agir desonestamente? Talvez tenham lhe dado troco a mais no bar e você deliberou sobre avisar o funcionário. Talvez você tenha pensado em mentir sobre seus planos para o fim de semana para evitar um jantar desconfortável. A desonestidade é uma tentação comum.

Enfrentamos esse tipo de dilema moral o tempo todo. Não são oportunidades para agir com flagrante desonestidade. Em vez disso, são escolhas prosaicas que moldam muito das nossas vidas diárias. Uma vez que a tentação da desonestidade está sempre ali, temos que continuamente tomar decisões sobre quão moral queremos que nosso comportamento seja. E parte do que guia essas decisões é quão desagradável o ato de ser desonesto é para nós.

Recentemente, conduzi um estudo na University College London com Tali Sharot, Dan Ariely e Stephanie C Lazzaro sobre a tentação de ser desonesto. Investigamos se ter oportunidades de agir desonestamente com frequência poderia afetar nossa disposição em escolher a desonestidade acima da honestidade. A ideia é que, se alguém inicialmente decide agir de modo desonesto, essa pessoa se sentirá mal por causa disso, e portanto só conseguirá ser um pouco desonesta. A próxima vez em que agir desonestamente, ainda que o sentimento seja ruim, não parecerá tão ruim. Como resultado, uma pessoa poderia ser desonesta por mais tempo antes de chegar a um ponto em que se sinta mal o suficiente para parar.

Entender o porquê requer fazer a conexão entre duas ideias importantes. A primeira está relacionada ao papel que a excitação emocional tem na tomada de decisões de caráter moral. A segunda diz respeito a uma característica no modo como o cérebro opera quando contextos se repetem, conhecida como adaptação neural. 

Alguns dilemas morais provocam reações emocionais que restringem nossa disposição de agir de modo indevido, e são acompanhadas de reações corporais que aumentam os batimentos cardíacos e a transpiração. Quando isso acontece, nossa disposição de agir desonestamente é reduzida. Por exemplo, em um estudo dos psicólogos Stanley Schachter e Bibb Latané, de 1964, foi dada a estudantes a oportunidade de trapacear em uma prova. Entretanto, metade deles recebeu antes bloqueadores beta, uma pílula que diminui reações psicológicas. Os outros estudantes ingeriram um placebo. Os estudantes que tiveram seus níveis de excitação reduzidos farmacologicamente trapacearam mais no exame em comparação aos que tomaram o placebo. Então existe uma reação psicológica contra tomar um caminho menos virtuoso. Mas, quando essa reação não acontece, o caminho se torna mais tentador.

A segunda ideia é a adaptação neural. Quando entra em um restaurante, você repara nos maravilhosos cheiros de comida fresca. Depois de um tempo, entretanto, torna-se menos sensível a esses aromas e logo para de reparar neles. Esse é um exemplo de adaptação neural: o cérebro se torna menos sensível aos estímulos depois de exposição frequente, o que não deixa que nossa atenção seja reduzida por aspectos do ambiente que não precisam dela. No restaurante, depois que você se acostuma com os aromas, pode focar em coisas mais importantes: a conversa, o que pedir, e assim por diante.

Estas duas ideias — o papel da excitação na nossa disposição em trapacear e a adaptação neural — se conectam porque o cérebro não se adapta apenas a coisas como sons e cheiros. O cérebro também se adapta a emoções. Por exemplo, quando colocado diante de imagens adversas (por exemplo, rostos ameaçadores) ou ao ser submetido a algo desagradável (por exemplo, um choque elétrico), o cérebro inicialmente gera reações fortes em regiões associadas ao processamento de emoções. Mas, quando estas experiências são repetidas por um tempo, as reações emocionais diminuem. No nosso estudo, fomos um passo adiante. Poderia o cérebro também se adaptar a um comportamento de nós mesmos que consideramos adverso? Em outras palavras, se adotarmos repetidas vezes um comportamento que nos faça sentir mal, nossa reação emocional a esse comportamento se adaptará? Em caso positivo, então temos uma previsão: uma vez que sabemos que reações emocionais podem restringir nossa disposição em ser desonesto, se essas reações diminuem por meio da adaptação, a desonestidade deveria aumentar em consequência.

Para testar isso, precisávamos realizar um experimento que fizesse as duas coisas. Precisávamos de uma tarefa que encorajasse indivíduos a serem desonestos com frequência. E precisávamos medir quanto os níveis de excitação emocional de indivíduos mudavam conforme as oportunidades de ser desonesto se repetiam.

Os participantes tiveram que deitar em um scanner fMRI e mandar mensagens para uma segunda pessoa, sentada do lado de fora do scanner, ao enviar reações, por meio de um teclado. Os participantes foram instruídos que suas reações seriam transmitidas por meio de computadores conectados. Em alguns estágios da tarefa, os participantes tinham oportunidades repetidas de enviar mensagens desonestas com o intuito de ganhar dinheiro adicional. Importante: eles podiam ser quão desonestos quisessem — era uma decisão completamente pessoal e poderia variar de acordo com a mensagem. Isso permitia que checássemos se as mensagens eram igualmente desonestas, ou se havia mudanças na disposição das pessoas de serem desonestas com o passar do tempo. Enquanto isso, os dados do fMRI permitiram que examinássemos quanto os níveis de excitação emocional mudavam à medida que as mensagens desonestas eram enviadas. Fizemos isso examinando as amígdalas, duas regiões em formato de amêndoa embutidas no fundo do cérebro que reagem a emoções negativas tais como medo e ameaça.

A princípio, os participantes eram frequentemente só um pouco desonestos, embora essas pequenas transgressões fossem acompanhadas de fortes reações na rede de processamento de emoções. Mas, com o passar do tempo, os participantes pareciam se acostumar, adaptando o sentimento adverso que vinha com o envio de mensagens desonestas. Eles paravam de ter reações emocionais fortes. E, certa hora, a porta foi escancarada: eles podiam se tornar muito mais desonestos do que no início, mas com uma sensibilidade emocional cada vez mais limitada. A desonestidade passou a não parecer tão ruim.

Este estudo pode sugerir uma visão pessimista da humanidade, com todo mundo gradualmente se tornando emocionalmente nulo em relação a mau comportamento, mais corrupto e mais egoísta. Mas essa não é a única maneira de ver os resultados. Uma mensagem positiva que levamos é que a emoção tem um papel crucial na restrição da desonestidade. Talvez isso signifique que uma solução para a desonestidade está disponível: reações emocionais fortes em situações onde a desonestidade é uma tentação poderiam ser reinstauradas com o objetivo de reduzir a suscetibilidade das pessoas a ela. Na verdade, um estudo recente conseguiu isso ao fazer um grupo de participantes acreditar que seus corações estavam batendo rápido diante da tentação de serem desonestos. Esse grupo trapaceou menos que outro grupo de participantes que foi levado a acreditar que seus batimentos estavam calmos e regulares.

Uma variedade de intervenções comportamentais tem sido proposta com o intuito de reprimir comportamento antiético. Elas incluem o uso de sugestões que enfatizem a moralidade e estimulem o auto-engajamento. Atualmente, não conhecemos os mecanismos neurais subjacentes que são responsáveis pelas mudanças comportamentais positivas que essas intervenções motivam. Mas uma possibilidade intrigante é que eles possam operar em parte com a intensificação de nossa reação emocional a situações em que a desonestidade é uma opção, nos ajudando a resistir à tentação à qual nos tornamos menos resistentes com o passar do tempo.

Neil Garrett é pesquisador de pós-doutorado no Daw Lab, no Instituto de Neurociência de Princeton.

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